Mundo de ficçãoIniciar sessãoIsabella
Cinco anos não apagam nada. Eles apenas reorganizam as prioridades, reorganizam a dor, reorganizam o que antes parecia insuportável até se tornar administrável. Eu aprendi isso não da forma mais suave, mas da única forma possível quando não existe escolha.
Acordo todos os dias antes do despertador tocar porque disciplina é o único território que me pertence completamente, o único espaço onde nada foge ao meu controle. Às seis da manhã eu já estou de pé, preparando café enquanto observo Oliver ainda dormindo no quarto ao lado, o corpo pequeno encolhido sob o cobertor, a respiração tranquila de quem não conhece o peso das decisões adultas.
Eu o observo por alguns segundos a mais do que o necessário, como faço todas as manhãs, não por fragilidade, mas por confirmação silenciosa de que tudo o que fiz teve propósito.
Minha vida hoje é organizada. Estruturada. Funcional. Trabalho em uma empresa sólida do setor financeiro, construí reputação com esforço constante e nunca precisei usar sobrenome alheio para abrir portas. Eu não sou mais a mulher que saiu sem explicações cinco anos atrás.
Eu sou alguém que aprendeu que respostas nem sempre precisam ser dadas no momento em que são exigidas. Algumas decisões exigem silêncio estratégico.
Na terça-feira, às 16h12, o e-mail chega com prioridade alta. Eu quase ignoro, porque propostas executivas não são raras quando você constrói credibilidade no mercado, mas algo no domínio do remetente prende minha atenção antes mesmo que eu processe racionalmente o motivo. Moretti Holdings.
O nome não me atinge como um choque, não há explosão dramática, apenas uma contração lenta e controlada no estômago, como se meu corpo reconhecesse antes da mente o peso daquele sobrenome. Eu abro o e-mail com calma, leio cada linha duas vezes. Cargo estratégico. Salário acima do atual. Participação em decisões globais. Convite formal para entrevista presencial.
O texto é impessoal, profissional, assinado pelo departamento de recrutamento. Nenhuma menção a Alexander. Nenhuma pista de que ele esteja diretamente envolvido.
Eu fecho a tela e permaneço imóvel por alguns segundos. O passado não pode ser parâmetro para decisões financeiras. Eu tenho um filho.
Tenho responsabilidades que ultrapassam qualquer desconforto emocional. Se ele ainda estiver na empresa, isso não altera minha competência. Se ele for o CEO, como é provável, isso não me desqualifica. Eu não sou mais vulnerável a olhares acusatórios baseados em evidências incompletas.
Eu respondo confirmando interesse.
A entrevista é marcada para a semana seguinte.
Presencial.
Eu aceito.
Não por curiosidade. Não por nostalgia. Mas porque crescimento exige coragem e eu me recuso a viver evitando ambientes apenas porque carregam memórias.
Na manhã da entrevista escolho um terno cinza claro, estruturado, profissional, nada que sugira defensiva ou exposição excessiva. Oliver está sentado à mesa da cozinha desenhando prédios altos demais para alguém de cinco anos imaginar sozinho, concentrado de uma forma que sempre me surpreende.
Ele levanta os olhos quando percebe que estou pronta para sair e pergunta se eu volto antes de ele dormir, e eu respondo que sim com a firmeza de quem sabe que promessas não são flexíveis quando envolvem uma criança.
Às 8h55 eu estou diante do prédio da Moretti Holdings.
Cinco minutos antes.
Sempre cinco.
O edifício é maior do que eu imaginava, moderno, imponente, vidro escuro refletindo uma cidade que não desacelera. Eu atravesso a porta giratória com passos firmes, a recepcionista confirma meu nome e informa que a diretoria executiva fará questão de me receber pessoalmente. Diretoria executiva. A expressão é neutra demais para indicar qualquer coisa.
Eu me sento.
Respiro.
Organizo mentalmente cada argumento.
O elevador se abre às 8h58 e eu escuto passos antes mesmo de levantar os olhos. Passos firmes, calculados, inconfundíveis.
Quando eu o vejo, o tempo não desacelera. Ele se comprime.
Alexander.
Ele não esperava me encontrar ali. Eu percebo no microsegundo em que o olhar dele me reconhece. Não há explosão emocional. Não há sorriso. Há avaliação.
— Isabella.
Meu nome sai da boca dele mais baixo do que eu lembrava.
Eu me levanto.
— Senhor Moretti.
Formalidade é proteção.
Ele diz que não sabia que era eu. Eu respondo que também não sabia que ele ainda estava ali. Ele corrige: não ainda. Ele é o CEO. Claro que é.
Entramos na sala de reuniões. O silêncio no trajeto não é constrangedor, é carregado. Ele fecha a porta com cuidado, e a entrevista começa sem menções ao passado. Perguntas técnicas, projeções, análise de risco. Ele testa. Eu sustento. Ele muda a direção da conversa. Eu acompanho. Nada na minha postura entrega memória. Apenas competência.
Ao final, ele fecha a pasta lentamente e diz que eu cresci profissionalmente. Eu respondo que crescimento é consequência de necessidade. Há camadas nessa resposta, mas nenhuma é explicitada.
Ele oferece o cargo.
Simples assim.
Eu aceito.
Ele estende a mão.
Eu aperto.
O toque é breve, profissional, mas carrega história suficiente para encher uma sala inteira.
Eu saio da empresa com a sensação clara de que cinco anos não apagaram o que aconteceu, mas também não me deixaram no mesmo lugar. Ele não sabe que existe um menino esperando por mim em casa. Não sabe que as consequências daquela fotografia vivem e respiram. E, por enquanto, é melhor que continue assim.
O passado pode ter sido mal interpretado.
Mas o presente está sob meu controle.
E dessa vez, eu não vou perder esse controle.







