Capítulo 3

Isabella

Eu nunca subestimo ambientes onde reputação está em jogo.

Eventos corporativos não são celebrações. São arenas silenciosas onde alianças se firmam e quedas começam a ser planejadas. A diferença é que todos estão sorrindo enquanto calculam.

O convite chega na terça-feira, às 16h12.

Festa anual da Moretti Holdings. Presença obrigatória para líderes de setor.

Obrigatória.

Eu observo a palavra por alguns segundos antes de fechar o e-mail. Obrigações sociais são sempre testes indiretos. Não sobre competência técnica. Sobre postura. Sobre domínio. Sobre resistência.

Eu não me intimido com plateias.

Mas me preparo para elas.

Oliver está sentado no chão da sala quando chego em casa. Ele constrói uma cidade com blocos coloridos, todos alinhados com precisão exagerada para alguém de cinco anos.

— Você vai sair hoje? — ele pergunta sem levantar os olhos.

— É um evento do trabalho.

Ele encaixa um bloco maior no topo da torre.

— Você volta antes de eu dormir?

Há algo na forma como ele pergunta que sempre me atravessa. Não é insegurança. É constatação.

— Vou tentar...

Ele inclina a cabeça levemente, analisando meu tom.

Sempre observando.

Quinta-feira.

18h55.

Cinco minutos antes.

O salão do hotel é amplo demais para parecer íntimo. Lustres dourados espalham uma luz estrategicamente quente. Garçons circulam com bandejas de cristal. Executivos riem em volume moderado, como se o excesso pudesse comprometer credibilidade.

Eu identifico Alexander imediatamente.

Ele está no centro.

Terno escuro. Postura ereta. Controle absoluto da própria imagem.

Ele domina o ambiente sem elevar a voz.

Ele ainda não me viu.

Melhor assim.

Eu me posiciono próxima à equipe financeira. Cumprimento diretores. Troco frases técnicas. Respondo perguntas sobre projeções trimestrais. Não permito que minha presença seja lida como pessoal.

Às 19h em ponto, ele sobe ao palco.

Pontual.

Sempre foi.

Ele fala sobre expansão internacional. Sobre aquisições estratégicas. Sobre estabilidade mesmo em cenários voláteis. O discurso é calculado, seguro, convincente.

Ele não improvisa. Ele estrutura.

Eu o observo com a distância emocional que aprendi a construir. Cinco anos ensinaram que admiração não pode significar vulnerabilidade.

Os aplausos encerram a apresentação.

Eu verifico o relógio.

19h53.

Tempo suficiente.

Eu aviso à coordenadora que preciso sair. Não minto. Apenas não explico.

Eu atravesso o salão antes que alguém me envolva em conversas desnecessárias.

O lobby do hotel é mais silencioso. O ar parece menos pesado ali. Eu já pego o celular para avisar a babá que estou descendo quando escuto uma voz que reconheceria em qualquer lugar.

— Mamãe...

Eu paro.

Oliver está sentado no sofá próximo à entrada, os pés balançando sem tocar o chão. A babá está ao lado, constrangida demais para se defender antes mesmo de eu falar.

Meu corpo reage antes da razão.

— O que você está fazendo aqui?

— A Sofia disse que acompanhantes estavam liberados... — a babá explica rapidamente. — Eu achei que não teria problema.

Oliver me olha como se estivesse apenas curioso. Como se o ambiente fosse uma extensão da cidade que ele gosta de observar.

Eu me ajoelho diante dele.

— Você deveria estar em casa.

— Eu queria ver onde você trabalha...

Não há culpa na voz dele.

Há interesse.

Eu seguro o rosto dele entre as mãos.

E então sinto.

Silêncio.

Aquele tipo específico de silêncio que surge quando alguém está observando sem ser percebido.

Eu me levanto devagar.

Alexander está parado a poucos metros.

Sem investidores. Sem palco. Sem plateia.

Apenas ele.

Ele não está olhando para mim.

Está olhando para Oliver.

Não é simpatia social. Não é educação superficial.

É análise.

Meu estômago afunda.

Ele começa a caminhar até nós.

Passos controlados.

Medidos.

— Isabella... — ele diz, a voz mais baixa do que no salão. — Já está indo embora?

Formalidade.

Mas o olhar continua no meu filho.

— Tenho compromissos.

Minha resposta é objetiva demais.

Oliver aperta minha mão, mas não se esconde atrás de mim. Ele encara Alexander com a mesma intensidade silenciosa.

Alexander se abaixa lentamente, ficando na altura dele.

— Qual é o seu nome?

O tempo se comprime.

— Oliver.

A resposta é firme. Clara.

Alexander repete mentalmente. Eu vejo no movimento quase imperceptível dos lábios.

Ele estende a mão.

Oliver aperta.

Firme.

Seguro.

Sem hesitação.

Há algo que muda no rosto de Alexander. Não é reconhecimento. Não ainda. É estranhamento. Como se estivesse tentando identificar um detalhe que não se encaixa.

— Prazer, Oliver...

Oliver inclina levemente a cabeça.

O mesmo gesto.

Meu corpo fica rígido.

— Você trabalha com a minha mãe? — Oliver pergunta.

— Trabalho... — Alexander responde.

— Você manda nela?

Um quase sorriso atravessa o rosto dele.

— Eu coordeno a empresa.

Oliver pensa por alguns segundos.

Ele observa o terno. O relógio. A postura.

Depois olha diretamente nos olhos dele.

— O que foi?

O ar desaparece.

Eu sinto o sangue pulsar nos ouvidos.

Alexander não responde imediatamente.

Ele olha para Oliver.

Depois para mim.

Longo demais.

Ele não está sorrindo.

Ele não está confortável.

Ele está… desconcertado.

— Eu estava apenas prestando atenção... — ele diz finalmente.

Mas a voz não sai tão firme quanto de costume.

Ele se levanta.

— Boa noite, Isabella.

Não há menção ao evento.

Não há despedida formal.

Apenas retirada estratégica.

Eu seguro a mão de Oliver e atravesso a porta giratória.

O ar da rua é frio.

Real.

Eu não olho para trás.

Mas sei que ele ficou.

Observando.

No carro, Oliver permanece em silêncio por alguns minutos.

— Ele é importante? — pergunta finalmente.

— É meu chefe.

— Ele pareceu pensar muito.

Crianças percebem pausas que adultos fingem não notar.

— Algumas pessoas pensam demais.

— Ele ficou estranho quando eu falei.

Eu seguro o volante com mais força do que deveria.

— Você fala coisas inesperadas.

— Eu só fiz uma pergunta.

Sim.

E perguntas são sempre o começo de alguma coisa.

No dia seguinte, Alexander não menciona o encontro.

Ele não comenta sobre o hotel.

Não comenta sobre Oliver.

Mas há algo diferente na forma como ele me observa durante as reuniões.

Não é acusação.

Não é curiosidade explícita.

É cálculo.

Ele registra padrões.

Sempre registrou.

Durante uma análise de relatório, ele interrompe.

— Seu filho mora com você?

A pergunta surge casual demais.

Eu não altero a expressão.

— Mora.

— Pai presente?

A sala está cheia.

Mas a pergunta parece privada.

— Não.

Silêncio.

Ele não aprofunda.

Mas registra.

Sempre registra.

Eu percebo algo que não estava ali antes.

Ele não está desconfiando.

Ele está conectando informações.

E homens como Alexander não conectam dados sem propósito.

Quando chego em casa, Oliver está desenhando novamente prédios altos demais para alguém da idade dele.

— O homem do hotel trabalha com você amanhã também?

— Trabalha.

Ele fica em silêncio.

Depois pergunta:

— Ele vai ficar olhando de novo?

Eu me aproximo.

— Por que isso importa?

Oliver dá de ombros.

— Porque parecia que ele estava tentando lembrar de alguma coisa.

Eu paro.

Lembrar.

Eu coloco Oliver para dormir mais cedo naquela noite.

Fico sentada ao lado da cama dele por alguns minutos.

Cinco anos me ensinaram a controlar quase tudo.

Mas não me ensinaram a controlar coincidências.

Alexander não sabe.

Não sabe o que significa aquele gesto de cabeça.

Não sabe o que significa aquele olhar fixo.

Mas algo foi acionado.

Não é certeza.

É inquietação.

E inquietação é o primeiro passo para investigação.

Eu fecho os olhos por um segundo.

E entendo que o evento não foi apenas uma exposição social.

Foi o início de algo que eu trabalhei cinco anos para manter enterrado.

E, se Alexander começar a investigar…

Ele não vai parar até encontrar respostas.

A pergunta é:

Eu estou preparada para quando ele encontrar?

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