Aurora Moretti
O som dos limpadores de para-brisa do Mercedes blindado do meu pai era o único ritmo no silêncio pesado do carro. O cheiro de couro e do charuto caro de Dante preenchia o espaço, mas, para mim, o ar ainda estava impregnado com o cheiro de chuva, metal e de Sebastian. Cada vez que eu respirava, sentia o rastro dele nos meus pulmões, uma evidência invisível da traição que eu acabara de cometer.
Meu pai olhava pela janela, observando as luzes embaçadas da rodovia. Ele parecia processar a "vitória" sobre Sebastian, saboreando o pedido de desculpas que acabara de receber.
E eu, bom, eu estava apavorada.
— Você chegou rápido demais à obra, Aurora — ele disse subitamente, sem desviar os olhos do vidro. Sua voz era calma, mas carregada daquela sagacidade que o tornara um império vivo. — Quando recebi o aviso, você já estava lá. No meio daquela lama, antes mesmo dos engenheiros seniores, antes mesmo de qualquer pessoa com mais...
Senti um frio na espinha, mas mantive o olhar