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CAPÍTULO 1 – O QUE ELE NÃO IA MAIS SER

Ricardo não lembrava exatamente como saiu daquela casa.

O corpo se movia, mas a mente ainda estava presa dentro da sala, nas palavras que não deveriam existir, nos sons que ele nunca quis ouvir.

O ar frio da noite bateu contra seu rosto, mas não trouxe alívio. Nada parecia suficiente para apagar o que havia acontecido minutos antes.

Ele levou a mão ao peito, tentando controlar a respiração.

Não era o silêncio que o assustava.

Era o som que agora existia.

Carros passando, passos na calçada, vozes distantes… tudo parecia alto demais, invasivo demais. Durante anos, o mundo seguiu sem ele. Agora voltava de uma vez, sem aviso, sem cuidado.

Mas nada daquilo se comparava ao que ele tinha escutado dentro de casa.

A voz de Clara.

O tom leve.

As palavras sem peso.

Como se ele nunca tivesse sido nada além de um recurso conveniente.

Ricardo apertou os punhos.

Se continuasse ali, ia desmoronar. E ele não podia mais se dar esse luxo.

Virou o rosto por instinto.

A porta ainda estava aberta.

E então ele viu.

Clara estava na sala, próxima demais de André. Não havia esforço para esconder. Não havia tensão. Era natural demais.

Ricardinho estava entre os dois, rindo, confortável, pertencendo àquele espaço de uma forma que Ricardo nunca tinha percebido antes.

O menino puxou a mão de André com facilidade, como se aquele gesto já fosse habitual.

— Pai…

A palavra atravessou tudo.

Ricardo ficou imóvel.

Não foi surpresa.

Foi confirmação.

Algo que talvez ele já soubesse, mas nunca teve coragem de enxergar.

Clara não corrigiu.

Não reagiu.

Apenas aceitou.

E André também.

Ricardo desviou o olhar.

Aquilo bastava.

Não havia mais dúvida, nem espaço para questionamento. O que existia ali não era um erro momentâneo. Era uma escolha que vinha sendo feita há muito tempo.

Ele deu um passo para trás, depois outro, e virou as costas sem hesitar.

Dessa vez, não havia dor visível.

Havia decisão.

A caminhada até a rua pareceu mais longa do que realmente era.

Cada som novo invadia sua mente, mas ele já não tentava entender. Estava focado em outra coisa.

Pensando.

Organizando.

Por anos, ele abriu mão de tudo. Nome, posição, dinheiro. Escolheu viver uma vida simples porque acreditava que aquilo tinha valor.

Agora entendia o erro.

Amor sem escolha não é amor.

Sacrifício sem reconhecimento é apenas perda.

Ele parou no meio da calçada e respirou fundo.

Não ia discutir.

Não ia implorar.

Não ia confrontar.

Isso já não fazia sentido.

Se Clara nunca o escolheu, ele também não precisava mais permanecer.

Mas sair não seria suficiente.

Ele queria fechar aquilo de forma definitiva.

Sem drama.

Sem explicação.

Sem dar a ela a chance de reagir.

Ricardo voltou.

Quando entrou na casa novamente, ninguém percebeu de imediato.

Clara ainda estava na sala, distraída, enquanto André falava algo que a fazia sorrir.

Ricardinho estava sentado no sofá, mexendo em algo nas mãos, completamente à vontade.

Ricardo observou a cena por alguns segundos.

Dessa vez, sem dor.

Como quem olha algo que já não lhe pertence.

Clara foi a primeira a notar a presença dele.

O sorriso dela vacilou por um instante, mas logo voltou ao lugar.

Ela caminhou até ele com naturalidade, como se nada tivesse acontecido.

— Você já voltou? Achei que tinha saído para comprar alguma coisa…

Ricardo assentiu, mantendo a expressão neutra.

Não respondeu.

Não precisava.

Clara não percebeu nada.

Ou talvez nunca tivesse prestado atenção o suficiente para perceber.

— Eu preciso que você assine alguns papéis — ele disse, pegando uma pasta que havia deixado guardada há meses.

Ela franziu levemente o cenho.

— Papéis?

— Coisas da casa. Ajustes.

A explicação foi simples, direta, sem margem para questionamento.

Clara suspirou, já demonstrando impaciência.

— Você sabe que eu odeio essas coisas… não podia resolver sozinho?

Ricardo abriu a pasta com calma e apontou para o local da assinatura.

— Precisa das duas assinaturas.

Ela nem leu.

Nem perguntou.

Apenas pegou a caneta.

Ricardo observou cada movimento.

A forma como ela inclinou o papel.

A rapidez do gesto.

A total falta de interesse.

E então, sem hesitar, Clara assinou.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Sem levantar os olhos.

Sem imaginar.

Sem saber.

Ricardo fechou a pasta com tranquilidade.

Ali, naquele instante, o casamento deles deixava de existir.

E ela não fazia ideia.

— Pronto? — Clara perguntou, já distraída novamente.

Ele assentiu.

— Pronto.

Simples assim.

Sem discussão.

Sem lágrimas.

Sem explicações.

Ricardo guardou os documentos e virou as costas.

Dessa vez, sem olhar para trás.

Na porta, ele parou por um segundo.

Não para hesitar.

Mas para encerrar.

Tudo o que ele acreditou.

Tudo o que ele construiu.

Tudo o que ele perdeu.

Ficava ali.

Ele saiu.

E, dessa vez, não havia retorno.

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