Capítulo 6: O Fio da Navalha

POV Dylan

Assim que a pesada porta de carvalho da suíte de Lucy se fechou com um clique suave, o silêncio do meu apartamento desabou sobre mim com o peso de uma bigorna.

Fiquei parado no corredor por alguns segundos, encarando a madeira escura. Atrás daquela porta estava uma mulher que eu não conhecia há vinte e quatro horas, mas que agora detinha o poder de implodir a minha vida financeira e profissional.

Esfreguei o rosto com as duas mãos, sentindo a exaustão daquele dia insano cobrar o seu preço. Eu nunca perdia o controle. Essa era a regra de ouro que me mantinha no topo da cadeia alimentar de Wall Street. Eu calculava riscos, antecipava movimentos e destruía a concorrência antes mesmo que eles soubessem que estávamos em guerra.

Mas a noite em Las Vegas era um buraco negro na minha mente. E isso me aterrorizava.

Dei as costas para a ala leste e caminhei a passos pesados até o meu escritório, localizado no lado oposto da cobertura. O ambiente era um reflexo da minha mente: organizado, frio, milimetricamente posicionado. Fui direto até o bar de nogueira, hesitei com a mão sobre a garrafa de uísque escocês de trinta anos, mas recuei. Eu precisava de lucidez total. Fui até a máquina de expresso e tirei um café duplo, negro e sem açúcar.

O interfone na minha mesa piscou, acompanhado de um bipe irritante. Apertei o botão.

— Senhor Lancaster — a voz robótica do porteiro-chefe ecoou. — O senhor Marcus Sterling está subindo. Ele disse que o senhor está esperando.

— Libere a subida, Carter.

Minutos depois, Marcus invadiu o meu escritório. Ele era meu Diretor de Relações Públicas, meu advogado pessoal e, na ausência de opções melhores, o mais próximo que eu tinha de um amigo de confiança. Ele parecia ter envelhecido cinco anos desde a última vez que nos vimos.

— Diga-me que é uma jogada de marketing bizarra, Dylan — Marcus disparou antes mesmo de se sentar, jogando um tablet sobre a minha mesa de vidro. A tela exibia a manchete do tabloide, a foto ridícula com a luz de neon refletindo nos nossos rostos letárgicos. — Por favor, diga-me que você comprou uma capela em Vegas e isso é um golpe publicitário para despistar a Receita Federal.

— Sente-se, Marcus. — Tomei um gole do café, o líquido fervente queimando a minha garganta, ajudando a me manter focado. — Não é um golpe. Eu me casei com ela. E nós assinamos um contrato pré-nupcial em um guardanapo que estipula uma multa de cem milhões de dólares para quem pedir o divórcio antes de um ano.

Marcus parou no meio do movimento de puxar a cadeira. Ele me encarou com a boca ligeiramente aberta, os olhos arregalados.

— Cem... Você perdeu a porra da cabeça?!

— Alguém tirou ela de mim. — Apoiei os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos. — Eu não estava bêbado, Marcus. Eu bebi dois copos de uísque no bar do hotel depois de uma ligação insuportável da minha mãe. Isso não é o suficiente para me fazer apagar e acordar no altar. Fui dopado.

Marcus finalmente afundou na cadeira, passando a mão pelos cabelos ralos. A mente de advogado dele já estava processando os danos.

— Chloe? — ele perguntou, o tom de voz baixando. — Ela ficou furiosa quando você rompeu o noivado mês passado. Jurou vingança no saguão da empresa, na frente de quinze executivos.

— É uma possibilidade. Ou algum membro do Conselho que quer a minha cadeira. Seja quem for, escolheu a garota a dedo. Lucy não é do nosso mundo. É enfermeira, trabalha em turnos exaustivos, não tem um centavo no nome dela. Quem armou isso sabia que o contraste social seria um banquete para a mídia e um infarto para o meu avô.

Como se o universo tivesse um senso de humor sádico, a linha vermelha do meu telefone fixo, a linha direta e criptografada, começou a piscar ferozmente.

Só uma pessoa no mundo usava aquela linha.

Marcus empalideceu. Apontei para a cadeira, exigindo silêncio absoluto, e atendi no viva-voz.

— Arthur — atendi, a voz firme, sem deixar transparecer uma gota do caos que fervia no meu estômago.

— Você tem exatas setenta e duas horas, Dylan. — A voz do meu avô soou como cascalho sendo esmagado, seca e implacável, reverberando pelas paredes do escritório. Nenhuma saudação. Nenhum rodeio.

— As ações estabilizaram no fechamento da bolsa, avô. A equipe do Marcus já está soltando notas oficiais sobre o casamento...

— Eu não dou a mínima para as notas oficiais do seu advogado! — Arthur rugiu, e até Marcus encolheu os ombros na cadeira. — Você não se casou com um nome apropriado. Você se casou com um escândalo ambulante de Las Vegas. O Conselho está exigindo uma votação de desconfiança na sexta-feira. Eles querem a sua cabeça, Dylan. E eu não vou segurá-la no lugar se você for um irresponsável.

Travei o maxilar, apertando os punhos sobre a mesa.

— A Lucy não é um escândalo. Ela é... discreta.

— Veremos. Sexta-feira à noite. O jantar de gala beneficente da Fundação Lancaster. Você vai trazer a sua esposa surpresa. Se ela for a garota de programa aproveitadora que o Conselho acha que é, se ela derramar uma gota de vinho fora da taça ou se envergonhar o nome Lancaster, eu mesmo assino a sua demissão no sábado de manhã. Você congela seus bens e desaparece da minha cadeira.

A linha ficou muda. Arthur havia desligado na minha cara.

O silêncio engoliu o escritório novamente. Marcus soltou a respiração de uma vez só.

— Sexta-feira. Temos três dias para transformar uma enfermeira falida na perfeita dama da sociedade nova-iorquina — Marcus sussurrou, aterrorizado. — Dylan, nós estamos mortos. O jantar de sexta é o evento mais cruel da cidade. A Chloe vai estar lá. A sua mãe vai estar lá. A imprensa vai cobrir a entrada. Eles vão estraçalhar essa garota viva.

Olhei para a janela de vidro. A cidade de Nova York brilhava lá fora, milhares de luzes piscando sob a noite escura.

Pensei em Lucy. Na forma como ela me desafiou no hotel em Vegas, exigindo a anulação. Na forma como ela revirou os olhos para mim no saguão do meu prédio, sem se deixar impressionar pelo meu dinheiro. Na forma como ela enfrentou Vivian de queixo erguido na minha sala de estar, recusando-se a ser usada como peça de xadrez.

Ela não era frágil. Mas o mundo em que eu a havia arrastado era letal.

— Mande a equipe de investigação vasculhar todas as câmeras do hotel em Vegas. Eu quero o nome de cada pessoa que entrou naquele bar na noite passada — ordenei, a minha voz fria, assumindo o controle da guerra que haviam declarado contra mim. — E, Marcus?

— Sim, senhor?

— Fale com a equipe de estilo da minha mãe. Aprove o orçamento que for necessário. — Encarei meu reflexo no vidro escuro da janela, a imagem de Lucy reluzindo na minha memória. — A minha esposa vai brilhar tanto na sexta-feira que vai cegar cada um daqueles abutres. Ninguém toca nela. Fui claro?

Marcus assentiu vigorosamente, recolhendo o tablet.

— Claro como cristal.

Quando ele saiu do escritório, fiquei sozinho com o meu café frio e as luzes da cidade. Eu não sabia quem havia planejado me destruir com esse casamento, mas eles cometeram um erro de cálculo fatal.

Eles me deram Lucy Hayes. E eu não costumava perder o que era meu.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP