Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Lucy
O silêncio que se seguiu à declaração de Vivian Lancaster foi tão denso que eu quase podia cortá-lo com um bisturi.
Encarei a mão estendida daquela mulher incrivelmente elegante e assustadora, piscando duas vezes para ter certeza de que eu não estava tendo uma alucinação induzida por estresse. Ela não ia me humilhar? Não ia me oferecer um cheque em branco para sumir?
— Pesadelo da Chloe? — repeti, a minha voz falhando. Eu deixei a minha mão cair ao lado do corpo, ignorando o cumprimento. — Desculpe, senhora Lancaster, mas eu não sou o pesadelo de ninguém. Eu sou apenas uma enfermeira.
Vivian recolheu a mão, mas o sorriso predador não vacilou. Pelo contrário, ela pareceu ainda mais encantada com a minha recusa em me curvar.
— Chega, mãe. — A voz de Dylan trovejou pela sala de estar, grave e cortante. Ele deu um passo à frente, colocando-se deliberadamente entre mim e Vivian, bloqueando a visão dela. — Eu não sei que tipo de jogo você acha que está jogando, mas não vai usar a Lucy para as suas pequenas vinganças da alta sociedade.
— Oh, Dylan, não seja ingênuo. — Vivian suspirou, caminhando graciosamente de volta para a poltrona de veludo e pegando a sua xícara de chá. — Você acha que foi o único que viu a queda das ações da Lancaster Holdings esta manhã? O seu avô está furioso. O Conselho está em pânico. Você se casou com uma completa desconhecida em uma capela barata em Las Vegas!
— Foi um erro — Dylan retrucou, o maxilar travado. — Um mal-entendido que estou resolvendo.
— Não pode ser resolvido com um divórcio rápido, querido. Nós dois sabemos das cláusulas morais do seu cargo de CEO. — Vivian tomou um pequeno gole do chá, os olhos azuis faiscando por cima da borda de porcelana. — E, francamente? Foi o melhor erro que você já cometeu.
Dylan cruzou os braços, a incredulidade estampada no rosto.
— Melhor erro? Você passou os últimos dois anos tentando controlar cada aspecto da minha vida para que eu fosse o herdeiro perfeito, e agora está comemorando um escândalo em Vegas?
— Estou comemorando o fato de que, graças a essa "rebeldia", você finalmente se livrou das garras daquela sanguessuga da Chloe Harrington. — Vivian cuspiu o nome da ex-noiva com um veneno que me fez dar um passo para trás. — Aquela garota estava apenas esperando o casamento para exigir uma cadeira no Conselho e sangrar a nossa empresa. Mas agora... agora nós temos um milagre da classe trabalhadora.
Ela apontou a xícara na minha direção, como se eu fosse um projeto de ciências promissor.
— Olhe para ela, Dylan. Uma enfermeira. Batalhadora. Salva vidas. O oposto completo da futilidade de Chloe. A mídia vai devorar essa narrativa do "amor verdadeiro que supera as classes sociais". O público vai amar a Srta. Hayes. E, mais importante, o seu avô vai ter que engoli-la, porque a opinião pública protege os heróis cotidianos.
Senti meu estômago despencar. Eu não era mais apenas uma refém de um contrato de cem milhões de dólares. Eu era uma peça de xadrez na guerra corporativa da família Lancaster.
— Eu não sou uma campanha de marketing — disparei, contornando Dylan para encarar Vivian. — E eu definitivamente não sou a arma de vocês contra essa tal de Chloe.
Vivian sorriu, um sorriso indulgente e gélido.
— Minha querida Lucy. Você se casou com o império Lancaster. A partir do momento em que assinou aquele papel, você se tornou exatamente o que nós precisarmos que você seja. Mas não se preocupe... eu vou recompensá-la muito bem por isso.
— Já chega — Dylan cortou, a paciência claramente esgotada. Ele caminhou até a porta do elevador e apertou o botão para chamá-lo. — Fora, Vivian. Nós tivemos um voo longo. A Lucy precisa descansar e eu tenho uma reunião de gerenciamento de crise em uma hora.
Vivian se levantou, alisando a saia lápis impecável. Ela pegou uma bolsa Birkin que provavelmente custava mais do que o meu antigo hospital inteiro e caminhou até o elevador. Antes de entrar, ela parou e me olhou de cima a baixo com um olhar clínico.
— Amanhã de manhã, minha equipe de estilo estará aqui. Não podemos deixar que o avô de Dylan a veja usando... seja lá o que for isso. — Ela fez um gesto vago para o meu tênis surrado. — Durma bem, nora. O jogo começa amanhã.
As portas do elevador se fecharam, levando Vivian e a sua aura opressiva embora.
O silêncio retornou à cobertura, mas agora parecia carregado de estática. Dylan soltou um suspiro pesado, passando as duas mãos pelo cabelo escuro, bagunçando os fios perfeitos. Ele parecia subitamente muito cansado.
— Peço desculpas por isso — ele murmurou, sem olhar para mim. — Minha mãe é... implacável.
— Você devia ter me avisado que a sua família via as pessoas como pecinhas de tabuleiro — rebati, esfregando as têmporas onde uma nova dor de cabeça começava a pulsar. — Eu achei que fingiríamos o casamento e só. Agora eu tenho que ser a "enfermeira de estimação" da sua mãe para destruir a sua ex-noiva?
Dylan finalmente ergueu o olhar. O cansaço deu lugar àquela determinação fria de tubarão de Wall Street.
— Você não vai ser o peão de ninguém, Lucy. Eu não vou permitir. Você fez um acordo comigo, não com a Vivian. E eu cuido do que é meu.
A possessividade nas palavras dele — o que é meu — enviou um arrepio involuntário pela minha espinha. Ignorei a sensação, cruzando os braços defensivamente.
— Ótimo. Então me mostre onde fica a minha jaula nessa cobertura. Eu quero tomar um banho e fingir que eu morri e fui para um inferno luxuoso.
A sombra de um sorriso, o primeiro sorriso real que vi no rosto dele desde que acordamos, repuxou o canto da boca de Dylan.
— Venha. A ala leste é toda sua.
Eu o segui por um corredor largo com iluminação indireta e quadros abstratos. Ele abriu uma porta dupla de madeira escura no final do corredor e acendeu a luz.
Se a sala de estar era um museu, o meu quarto era um refúgio da realeza. A cama king-size parecia flutuar no centro de um quarto decorado em tons de creme, dourado e azul-marinho. Havia uma área de estar privada, uma varanda envidraçada e duas portas duplas que, como Dylan me informou, levavam ao closet e ao banheiro de mármore com piso aquecido.
— Você tem privacidade total aqui — Dylan disse, parando no batente da porta, recusando-se a entrar no quarto. A linha invisível entre nós estava traçada ali. — Ninguém da equipe de limpeza entra sem a sua permissão. Se precisar comer, a cozinha fica no andar de baixo.
— Obrigada — murmurei, subitamente muito consciente de que estávamos sozinhos naquele apartamento gigantesco.
— Descanse, Lucy. — A voz dele baixou, perdendo a aspereza, soando quase gentil. — Porque a minha mãe tem razão sobre uma coisa: amanhã, nós vamos enfrentar os leões. E eu preciso que você esteja pronta para segurar a minha mão e fingir que eu sou o amor da sua vida.
Antes que eu pudesse responder, Dylan fechou a porta duplamente espessa, deixando-me sozinha no paraíso de cem milhões de dólares que, de repente, parecia a prisão mais solitária do mundo.







