Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena Ramos nunca sonhou com luxo, muito menos com um bilionário. Seu único desejo é salvar a vida do irmão caçula, Gabriel, que luta contra uma doença rara enquanto os hospitais fecham suas portas para quem não pode pagar. Quando consegue um emprego na poderosa Montelli Investimentos, Helena acredita que será apenas mais uma funcionária invisível. Mas um acidente durante a limpeza do escritório da presidência a coloca frente a frente com Lorenzo Montelli — o CEO mais temido do país, um homem frio, brilhante e marcado pela traição que destruiu sua família. Entre documentos secretos, mentiras enterradas e um passado que une seus pais de maneiras inimagináveis, Lorenzo oferece a Helena um acordo cruel: financiar a cirurgia de Gabriel em troca de sua lealdade absoluta. Agora, vivendo sob o mesmo teto que o homem que jurou nunca amar, ela precisará descobrir quem é o verdadeiro responsável pela ruína dos Montelli… antes que seu próprio coração se torne o preço mais alto a pagar. Porque alguns silêncios protegem vidas. Outros destroem destinos.
Ler maisNarrado por Helena Ramos
— Helena. A vida pode até nos pregar algumas peças, mas nós sempre temos que perseverar.
A voz do meu pai ainda mora dentro de mim.
Não importa quantos anos passem, eu ainda consigo ouvi-la com a mesma clareza das manhãs em que ele me levava para a escola, segurando um copo de café numa mão e a minha na outra. Ele dizia aquilo sempre que alguma coisa dava errado. Quando o carro quebrava. Quando um negócio não fechava. Quando eu voltava para casa chorando por causa de uma nota ruim.
Persevera.
Na época eu achava que era só uma palavra bonita. Hoje descobri que era um modo de sobreviver.
Samuel Ramos nem sempre foi um empresário de sucesso. Antes dos ternos caros e das reuniões importantes, ele era apenas um homem que acreditava demais nas pessoas. Trabalhava até tarde, fazia promessas que cumpria e nunca deixava de jantar conosco, mesmo que chegasse em casa exausto.
Para muita gente, ele foi um empresário respeitado.
Para mim, ele foi só o meu pai.
E agora esse nome está gravado em uma lápide de mármore cinza.
Cinco anos.
Cinco anos desde que o enterrei ao lado da mulher que ele amou durante toda a vida: minha mãe. Ela partiu poucos meses depois dele, como se o coração tivesse desistido de bater quando perdeu o amor da própria vida.
Desde então, sobramos apenas eu e Gabriel.
Meu irmão caçula tem dezessete anos e o sorriso mais bonito que eu já vi. Também tem uma doença que ninguém consegue explicar.
Alguns médicos chamam de síndrome autoimune rara. Outros dizem que é um conjunto de alterações imunológicas ainda sem diagnóstico definitivo. No fim das contas, todos usam palavras difíceis para esconder a mesma verdade: eles não sabem.
Gabriel passa mais tempo em quartos de hospital do que no próprio quarto.
Enquanto outros garotos da idade dele aprendem a dirigir ou saem com os amigos, ele aprende o nome de remédios impossíveis de pronunciar e conhece enfermeiros pelo primeiro nome.
A pior parte não é vê-lo doente.
É vê-lo tentando fingir que está bem para não me preocupar.
Na semana passada, encontrei um desenho escondido na gaveta dele. Era uma folha amassada, feita com lápis de cor. Nós dois aparecíamos sentados num banco de praça, tomando sorvete.
Em cima, ele escreveu:
“Quando eu melhorar, vamos fazer isso.”
Eu chorei escondida no banheiro durante quase uma hora.
Porque eu não sabia quando aquele “quando” chegaria.
Talvez nunca.
As contas médicas ocupavam metade da mesa da cozinha. Eu costumava organizá-las por cores, como se aquilo diminuísse o valor absurdo estampado nos boletos.
Não diminuía.
Os especialistas cobravam consultas que pareciam custar o preço de um carro. Os exames mais importantes nunca eram cobertos. E toda vez que eu perguntava sobre um tratamento experimental, a resposta vinha acompanhada de um orçamento impossível.
Dinheiro.
No fim, era sempre sobre dinheiro.
Meu pai costumava dizer que riqueza comprava conforto, não felicidade. Talvez ele tivesse razão.
Mas eu daria qualquer coisa para comprar a saúde do Gabriel.
Foi exatamente por isso que aceitei o emprego na Montelli Investimentos.
O maior conglomerado financeiro do estado.
Um império construído sobre números, ações e bilhões.
Diziam que trabalhar lá era como entrar em outro mundo. Salários excelentes, benefícios generosos e uma cobrança desumana.
Também diziam que o homem responsável por tudo aquilo era ainda mais intimidador do que o próprio prédio.
Lorenzo Montelli.
Trinta e um anos.
CEO.
Herdeiro.
Gênio dos negócios.
As revistas econômicas o chamavam de visionário. Os funcionários o chamavam de senhor Montelli. Já os boatos espalhados pelos corredores preferiam outro apelido:
O homem de gelo.
Segundo as histórias, ele nunca sorria durante reuniões, demitia executivos sem alterar o tom de voz e transformava empresas falidas em máquinas de lucro como quem resolvia um quebra-cabeça.
Havia também rumores menos profissionais.
Que nunca repetia a mesma mulher.
Que não comemorava aniversários.
Que havia feito o próprio pai abandonar a presidência antes dos cinquenta.
Eu não sabia quanto daquilo era verdade.
E, sinceramente?
Não fazia diferença.
Eu não estava procurando um príncipe de terno italiano.
Estava procurando um salário.
Se Lorenzo Montelli fosse a própria personificação de um iceberg, eu continuaria limpando o escritório dele desde que o dinheiro caísse na minha conta no último dia útil do mês.
Era simples.
Eu faria meu trabalho.
Ele faria o dele.
E nossas vidas jamais se cruzariam.
Pelo menos era esse o plano.
— Helena?
A voz fraca de Gabriel me arrancou dos pensamentos.
Entrei no quarto dele carregando uma bandeja com torradas e chá de camomila. Ele estava sentado na cama, pálido como sempre, mas sorrindo daquele jeito que parecia iluminar qualquer ambiente.
— Você não precisava ter feito café pra mim.
— Precisava, sim.
Coloquei a bandeja sobre o colo dele.
— Hoje é seu primeiro dia, né?
Assenti.
Ele abaixou os olhos para a caneca.
— Pai ia ficar orgulhoso.
Meu peito apertou.
Sorri antes que ele percebesse meus olhos marejados.
— Então eu vou tentar não estragar tudo.
Gabriel deu uma risadinha.
— Você nunca estraga.
Mentiroso.
Se ele soubesse quantas noites eu passava acordada calculando contas, talvez não dissesse isso.
Beijei sua testa.
— Descansa. Eu volto cedo.
— Helena?
Parei na porta.
— Persevera.
Fechei os olhos por um segundo.
Meu pai dizia.
Agora era Gabriel.
Respirei fundo e saí de casa.
O ônibus demorou vinte e três minutos.
Sentei perto da janela observando a cidade acordar. Pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas, vendedores abriam lojas e o céu cinza anunciava uma chuva que nunca decidia cair.
Eu segurava uma pasta simples contra o peito.
Dentro dela havia meus documentos, meu contrato de trabalho e uma fotografia antiga.
Eu e Gabriel.
Ele tinha oito anos.
Eu, quinze.
Naquela época ainda acreditávamos que adultos tinham respostas para tudo.
Quase ri dessa lembrança.
Quando o ônibus parou diante da Avenida Central, meu estômago virou.
O prédio da Montelli parecia tocar as nuvens.
Vidros espelhados refletiam o céu, e a fachada inteira transmitia uma elegância intimidadora. Homens e mulheres atravessavam a entrada usando roupas impecáveis, relógios discretamente caros e uma confiança que eu definitivamente não possuía.
Olhei para meus próprios sapatos.
Estavam limpos.
Mas gastos.
Minha calça social era de brechó, cuidadosamente ajustada por mim mesma. A camisa branca tinha sido passada três vezes naquela manhã para esconder o tecido já envelhecido.
Era o melhor que eu tinha.
E teria que ser suficiente.
As portas automáticas de vidro se abriram diante de mim.
O mármore brilhava tanto que, por um instante, tive vergonha de pisar ali. O enorme saguão exalava perfume de café recém-passado e móveis de madeira nobre. Um lustre moderno refletia luzes douradas sobre o piso impecável, enquanto o logotipo prateado da empresa ocupava toda a parede principal:
MONTELLI INVESTIMENTOS
Apertei com força a alça da bolsa.
Meu coração batia tão alto que eu tinha certeza de que a recepcionista conseguiria ouvir.
Respirei fundo.
Dei o primeiro passo.
Eu estava entrando no lugar que poderia salvar a vida do meu irmão.
Ou destruir completamente a minha.
Narrado por Helena RamosNunca pensei que um elevador pudesse separar duas vidas.No térreo da Montelli Investimentos, eu era apenas a faxineira que carregava um carrinho de limpeza e evitava olhar os executivos nos olhos.No vigésimo quinto andar, eu acabava de assinar um contrato que me transformava na assistente pessoal do homem mais poderoso do estado.As portas de aço se fecharam atrás de mim com um clique suave.O reflexo no espelho devolveu uma mulher que eu mal reconhecia: uniforme cinza, olhos inchados de tanto chorar e um contrato capaz de decidir o futuro do meu irmão.Respirei fundo.— Persevera… — sussurrei.— Entre.A voz grave de Lorenzo veio antes mesmo que eu batesse pela segunda vez.O escritório permanecia impecável. Ele estava de pé diante de uma tela gigantesca repleta de gráficos financeiros, com as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Sem o paletó, parecia menos inalcançável… e estranhamente mais perigoso.Ele desligou a tela.— A partir de hoje,
Narrado por Helena RamosDormi exatamente uma hora e quarenta e dois minutos.Eu sabia porque passei o resto da noite olhando para o relógio digital do quarto do hospital, sentada ao lado da cama de Gabriel. A crise finalmente cedeu depois de três medicações, e ele adormeceu segurando minha mão como fazia quando era criança.Mas eu não consegui fechar os olhos.A imagem daqueles olhos azuis encarando o documento do meu pai voltava sem pedir licença.Lorenzo Montelli.O homem que, em menos de cinco minutos, conseguiu me fazer sentir medo, raiva e uma estranha sensação de que minha vida acabara de mudar para sempre.— Você vai trabalhar? — Gabriel perguntou sonolento.Sorri, escondendo o cansaço.— Vou. E você vai obedecer às enfermeiras.— Eu sempre obedeço.— Mentira.Ele riu baixinho.Antes de sair, beijei sua testa e sussurrei a palavra que agora pertencia à nossa família.— Persevera.Às oito e cinco da manhã, o elevador parou no vigésimo quinto andar.A cobertura executiva era dif
Narrado por Helena RamosO relógio da recepção marcava 21h47 quando o último executivo deixou o décimo nono andar.As luzes principais foram reduzidas, deixando apenas a iluminação indireta dos corredores. Durante o dia, a Montelli Investimentos era um organismo vivo, barulhento e apressado. À noite, tornava-se um palácio de vidro onde até os próprios passos pareciam altos demais.Eu gostava do silêncio.Era a única parte do expediente em que ninguém me olhava como se eu fosse invisível.Empurrei o carrinho de limpeza pelo corredor presidencial, organizando os frascos de álcool, panos de microfibra e o balde de água morna. Meu corpo inteiro doía. Os ombros estavam pesados, meus pés queimavam dentro dos sapatos gastos e minhas mãos já tinham adquirido aquele cheiro permanente de produtos de limpeza.Mas toda vez que o cansaço ameaçava vencer, eu pensava em Gabriel.Na conta do hospital.Nos remédios.No desenho escondido na gaveta.Foi então que meu celular vibrou dentro do bolso do av
Narrado por Helena RamosNunca imaginei que um chão pudesse me fazer sentir tão pobre.Meus sapatos produziam um som tímido sobre o mármore polido enquanto eu atravessava o saguão da Montelli Investimentos. Tudo ali parecia ter sido desenhado para lembrar às pessoas quem mandava: o pé-direito gigantesco, as paredes de vidro, o aroma sofisticado de café e o silêncio elegante de quem vestia ternos que provavelmente custavam mais do que o aluguel da minha casa.A recepcionista sorriu de maneira impecavelmente profissional.— Bom dia. Nome, por favor?— Helena Ramos. Sou a nova auxiliar de serviços.Ela digitou algumas coisas no computador e entregou um crachá provisório.HELENA RAMOS — SERVIÇOS GERAISSegurei o cartão entre os dedos. Pela primeira vez, meu nome parecia pesado.— O elevador à esquerda. Décimo nono andar. A supervisora Beatriz está esperando.Agradeci e caminhei até os elevadores.Enquanto esperava, observei meu reflexo nas portas espelhadas. Prendi uma mecha do cabelo atr
Último capítulo