Capítulo 3 - O Esbarrão

Narrado por Helena Ramos

O relógio da recepção marcava 21h47 quando o último executivo deixou o décimo nono andar.

As luzes principais foram reduzidas, deixando apenas a iluminação indireta dos corredores. Durante o dia, a Montelli Investimentos era um organismo vivo, barulhento e apressado. À noite, tornava-se um palácio de vidro onde até os próprios passos pareciam altos demais.

Eu gostava do silêncio.

Era a única parte do expediente em que ninguém me olhava como se eu fosse invisível.

Empurrei o carrinho de limpeza pelo corredor presidencial, organizando os frascos de álcool, panos de microfibra e o balde de água morna. Meu corpo inteiro doía. Os ombros estavam pesados, meus pés queimavam dentro dos sapatos gastos e minhas mãos já tinham adquirido aquele cheiro permanente de produtos de limpeza.

Mas toda vez que o cansaço ameaçava vencer, eu pensava em Gabriel.

Na conta do hospital.

Nos remédios.

No desenho escondido na gaveta.

Foi então que meu celular vibrou dentro do bolso do avental.

Gabriel.

Olhei rapidamente para os lados antes de atender.

— Gabs?

Do outro lado, só ouvi a respiração dele.

Curta.

Fraca.

— Helena...

Meu coração parou.

— O que aconteceu?

— Tá... tá doendo muito...

Fechei os olhos imediatamente.

A voz dele saiu entrecortada por um gemido que eu conhecia bem. Era a mesma dor que aparecia nas crises mais fortes.

— Cadê a enfermeira?

— Ela foi chamar o médico...

Outro gemido.

Apertei o celular contra a orelha.

— Ei, olha pra mim. Quer dizer... me escuta. Respira devagar, tá? Igual a gente treinou.

Eu também estava tentando respirar.

— Eu queria ir embora...

Minha garganta queimou.

— Eu sei, meu amor.

— Você vem?

Olhei para o relógio.

Faltavam quase duas horas para meu turno terminar.

Se eu saísse agora...

Perderia o emprego.

Se eu ficasse...

Gabriel enfrentaria aquela dor sozinho.

— Eu vou assim que acabar, prometo. E amanhã cedo eu tô aí antes do café.

Houve alguns segundos de silêncio.

— Desculpa atrapalhar seu trabalho.

As lágrimas chegaram antes que eu pudesse impedir.

— Nunca mais fala isso. Você é o motivo pelo qual eu trabalho.

Ele sorriu fraquinho; deu para perceber pela respiração.

— Persevera.

A ligação caiu logo depois.

Fiquei imóvel.

Respirando.

Tentando impedir que meu mundo desmoronasse às nove e cinquenta da noite, no corredor mais caro da cidade.

Engoli o choro e continuei andando.

Porque contas não esperavam.

Nem doenças.

Nem a vida.

 

A placa dourada dizia apenas:

PRESIDÊNCIA

Era meu primeiro dia autorizada a limpar aquele setor.

Beatriz havia repetido pelo menos três vezes:

Nada de tocar em documentos. Nada de abrir gavetas. Nada de mexer em mesas.”

Abri a porta cuidadosamente.

O escritório era maior do que meu apartamento inteiro.

Uma parede de vidro revelava a cidade iluminada. Havia estantes de madeira escura, obras de arte minimalistas e uma mesa enorme de nogueira perfeitamente organizada. Nenhuma fotografia de família.

Nenhum objeto pessoal.

Era bonito.

E estranhamente frio.

Comecei pela biblioteca, tirando a poeira das prateleiras. Depois passei para a mesa de reuniões e, por último, para a escrivaninha principal.

Foi quando meu celular vibrou outra vez.

Uma mensagem do hospital.

Gabriel apresentou nova crise. Médico a caminho.

Senti minhas mãos gelarem.

Li a mensagem uma segunda vez.

Depois uma terceira.

As palavras começaram a embaralhar diante dos meus olhos.

Dei um passo para trás sem perceber.

Meu quadril atingiu um arquivo de aço.

O impacto foi suficiente.

Um gaveteiro mal fechado deslizou para frente, e uma pasta preta caiu da prateleira superior.

Depois outra.

E outra.

Em menos de dois segundos, dezenas de documentos estavam espalhados pelo chão impecável.

— Não... não, não...

Ajoelhei imediatamente.

Meus dedos tremiam enquanto tentava recolher as folhas. Algumas tinham carimbos vermelhos, outras gráficos financeiros, contratos e relatórios.

Eu nem lia.

Só queria colocar tudo exatamente onde estava.

Uma lágrima caiu sobre uma das páginas.

— Pelo amor de Deus...

Foi então que ouvi a porta abrir.

Clac.

O som dos meus batimentos ficou mais alto que qualquer outra coisa.

Uma voz masculina rompeu o silêncio.

— Quem autorizou você a entrar aqui?

Levantei lentamente.

Ele estava parado na porta.

Alto.

Terno preto perfeitamente alinhado.

Gravata grafite.

Os cabelos negros levemente desalinhados, como se tivesse passado a mão neles depois de uma reunião longa.

Os olhos eram de um azul tão frio que pareciam incapazes de esconder qualquer sentimento.

Lorenzo Montelli.

Eu nunca o tinha visto pessoalmente.

E, de repente, ele ocupava todo o ambiente.

— Eu... eu sou da limpeza.

Minha voz falhou.

Ele fechou a porta atrás de si sem desviar os olhos de mim.

— Eu perguntei quem autorizou.

— A supervisora Beatriz. Era meu turno.

Lorenzo caminhou lentamente.

Cada passo fazia meu estômago afundar.

Olhou para o chão.

Para os documentos.

Depois voltou a olhar para mim.

— Você tocou neles?

Balancei a cabeça desesperadamente.

— Foi um acidente. Meu celular... meu irmão está no hospital e eu—

— Eu não perguntei sobre seu irmão.

O silêncio voltou.

Eu queria desaparecer.

Lorenzo parou diante de mim.

Perto demais.

O perfume dele me atingiu primeiro.

Sândalo.

Madeira.

Algo sofisticado e absurdamente masculino.

Por instinto, dei um passo para trás.

Minha coluna encontrou a parede.

Sem perceber, ele havia me encurralado entre o mármore e o próprio corpo.

Não havia toque.

Mas havia presença.

Uma presença sufocante.

— Olhe para mim.

Obedeci.

As lágrimas já escorriam sem minha permissão.

— O que você viu?

Franzi a testa.

— Nada.

— Não minta.

Ele abaixou o rosto o suficiente para que eu percebesse um pequeno corte antigo próximo à sobrancelha esquerda.

Imperfeições.

Até homens como ele tinham.

— Eu só estava recolhendo as folhas.

— Você leu alguma coisa?

— Não.

Minha resposta saiu firme dessa vez.

Porque era verdade.

Lorenzo permaneceu imóvel.

Os olhos azuis procuravam qualquer sinal de mentira no meu rosto.

Meu coração batia tão forte que eu tinha medo de ele conseguir ouvir.

Por alguns segundos, achei que seria demitida.

Ou pior.

Então algo mudou.

O olhar dele desceu involuntariamente até minhas lágrimas.

Houve apenas um instante.

Um único milésimo de segundo.

Mas a rigidez da mandíbula suavizou.

Quase imperceptivelmente.

Ele deu meio passo para trás.

O suficiente para eu voltar a respirar.

— Recolha tudo.

Pisquei, confusa.

— O... o senhor não vai me mandar embora?

Lorenzo desviou os olhos como se a pergunta fosse inconveniente.

— Não transforme um acidente em hábito.

Ajoelhei imediatamente para organizar as pastas.

Minhas mãos ainda tremiam.

Ele permaneceu parado ao lado da mesa, observando em silêncio.

Quando terminei de guardar os últimos documentos, peguei minha bolsa para sair dali o mais rápido possível.

Foi então que aconteceu.

Uma folha antiga escapou do bolso interno e deslizou pelo piso de madeira.

Lorenzo foi mais rápido.

Abaixou-se.

Pegou o papel.

Meu sangue gelou.

— Não!

Estendi a mão, mas ele já havia aberto a folha.

Era um documento envelhecido pelo tempo.

O timbre no canto superior ainda era perfeitamente legível.

Ramos & Montelli Participações S.A.

O rosto de Lorenzo perdeu toda a cor.

Os olhos percorreram rapidamente a assinatura no fim da página.

Samuel Ramos.

Meu pai.

Ele ergueu lentamente o olhar para mim.

Pela primeira vez, não havia frieza.

Havia choque.

— Onde... você conseguiu isso?

A pergunta saiu quase como um sussurro.

Eu apertei a alça da bolsa contra o peito.

— Era do meu pai.

O silêncio que se instalou entre nós parecia muito mais perigoso do que qualquer grito.

Porque, naquele instante, eu ainda não fazia ideia de que segurava nas mãos o segredo que havia destruído a família Montelli.

E Lorenzo também acabara de descobrir quem eu era.

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