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Capítulo 2 - Mármore e Cinzas

Narrado por Helena Ramos

Nunca imaginei que um chão pudesse me fazer sentir tão pobre.

Meus sapatos produziam um som tímido sobre o mármore polido enquanto eu atravessava o saguão da Montelli Investimentos. Tudo ali parecia ter sido desenhado para lembrar às pessoas quem mandava: o pé-direito gigantesco, as paredes de vidro, o aroma sofisticado de café e o silêncio elegante de quem vestia ternos que provavelmente custavam mais do que o aluguel da minha casa.

A recepcionista sorriu de maneira impecavelmente profissional.

— Bom dia. Nome, por favor?

— Helena Ramos. Sou a nova auxiliar de serviços.

Ela digitou algumas coisas no computador e entregou um crachá provisório.

HELENA RAMOS — SERVIÇOS GERAIS

Segurei o cartão entre os dedos. Pela primeira vez, meu nome parecia pesado.

— O elevador à esquerda. Décimo nono andar. A supervisora Beatriz está esperando.

Agradeci e caminhei até os elevadores.

Enquanto esperava, observei meu reflexo nas portas espelhadas. Prendi uma mecha do cabelo atrás da orelha e tentei parecer mais confiante do que realmente estava.

As portas se abriram.

Entrei ao lado de cinco executivos. Todos conversavam sobre ações, investidores e uma reunião em Nova York. Ninguém olhou para mim. Eu era invisível.

Talvez fosse melhor assim.

Quando o elevador chegou ao décimo nono andar, encontrei uma placa discreta escrita em letras douradas:

OPERAÇÕES EXECUTIVAS

Assim que as portas se abriram, uma mulher de coque impecável me encarou dos pés à cabeça.

— Helena?

— Sim.

— Sou Beatriz. Supervisora.

Seu tom não era rude. Também não era gentil. Era o tipo de voz de quem já tinha desistido de criar vínculos com pessoas.

Ela me entregou um uniforme cuidadosamente dobrado.

— Vestiário feminino. Cinco minutos. Aqui não toleramos atraso.

Assenti rapidamente.

O uniforme era simples: calça preta, camisa cinza de manga curta e um avental discreto com o símbolo da Montelli bordado no bolso. Nada chamativo. Nada humilhante.

Ainda assim, quando tirei minha camisa branca para vestir aquela roupa, senti como se estivesse deixando uma parte da Helena do lado de fora.

Olhei meu reflexo novamente.

— É só um trabalho — sussurrei para mim mesma.

E era.

Precisava ser.

 

Cinco minutos depois, Beatriz já caminhava pelos corredores em passos tão rápidos que eu quase precisava correr.

— Existem três regras fundamentais — disse ela sem diminuir a velocidade. — Primeira: discrição absoluta. Você vê muita coisa aqui. Não comenta nada.

Assenti.

— Segunda: nunca interrompa uma reunião.

Mais um aceno.

— Terceira: jamais entre na cobertura executiva sem autorização.

Franzi a testa.

— Cobertura?

Ela apontou para o último botão do elevador.

— Vigésimo quinto andar. Escritório do CEO.

O jeito como pronunciou "CEO" fez parecer que estávamos falando de alguma entidade divina.

Continuamos andando.

Havia salas de reunião enormes, escritórios envidraçados e corredores tão limpos que pareciam nunca ter conhecido poeira.

Beatriz abriu uma porta dupla.

— Esta é a copa principal. Você ficará responsável pela limpeza deste andar durante o período da manhã e pelo apoio às salas executivas à tarde.

Ela apontava cada ambiente como quem lia um mapa decorado.

— Produtos aqui. Armários ali. Panos separados por cor. Nunca misture.

Tudo parecia simples.

Até as pessoas aparecerem.

— Então essa é a novata?

A voz feminina veio acompanhada de um perfume doce.

Virei e encontrei três funcionárias observando a cena.

A primeira era loira, elegante e usava o mesmo uniforme que o meu, mas com uma maquiagem impecável. A segunda mascava chiclete sem nenhuma vergonha. A terceira apenas cruzou os braços.

Beatriz respondeu antes que eu pudesse.

— Helena Ramos.

— Prazer... eu acho — a loira sorriu. — Sou Vanessa.

Não parecia um prazer.

Beatriz foi embora depois de dizer que voltaria às onze.

O silêncio durou exatamente três segundos.

Vanessa apoiou o quadril na bancada.

— Então você é a menina que veio substituir a Marta.

— Acho que sim.

— Ela foi demitida.

Engoli seco.

— Por quê?

A garota do chiclete respondeu rindo.

— Derramou café nos documentos de um diretor.

Vanessa corrigiu:

— Não. Ela derramou café perto do diretor. Aqui isso já basta.

As três riram.

Eu não.

Peguei um pano e comecei a organizar os produtos.

Vanessa aproximou-se.

— Um conselho?

Olhei para ela.

— Não chama ninguém pelo primeiro nome. Principalmente se encontrar o senhor Montelli.

Meu coração deu um pequeno salto ao ouvir aquele sobrenome.

— Eu provavelmente nunca vou encontrá-lo.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Todo mundo diz isso no primeiro dia.

 

As horas passaram devagar.

Limpei mesas, organizei copas, recolhi xícaras e tentei decorar o labirinto de corredores.

Às dez e quarenta e oito, eu finalmente achei que estava pegando o ritmo.

Às dez e quarenta e nove, tudo deu errado.

Eu carregava uma bandeja com quatro xícaras de porcelana quando ouvi alguém gritar:

— Cuidado!

Virei tarde demais.

Um homem de terno esbarrou no meu ombro e a bandeja escapou das minhas mãos.

O mundo pareceu desacelerar.

As xícaras atingiram o chão.

Crash.

O som do porcelanato quebrando ecoou pelo corredor inteiro.

Meu estômago afundou.

As conversas pararam.

Duas secretárias olharam imediatamente para mim.

O homem que havia esbarrado sequer diminuiu o passo.

Continuou andando como se nada tivesse acontecido.

Ajoelhei depressa.

— Meu Deus...

Minhas mãos tremiam enquanto eu recolhia os cacos.

Foi quando um salto alto parou bem diante de mim.

Vanessa.

Ela suspirou.

— Você acabou de bater o recorde.

Levantei os olhos.

— Desculpa... foi um acidente.

— Acidente também demite.

Ela não parecia feliz.

Parecia... acostumada.

Antes que eu pudesse responder, outra voz cortou o corredor.

— O que está acontecendo aqui?

Beatriz.

Levantei imediatamente.

— A bandeja caiu.

Ela olhou para o chão, depois para mim.

Nenhuma expressão.

— Sala de reuniões em dez minutos. Limpe isso agora.

Só isso.

Nenhum "você está bem?".

Nenhum "foi culpa de quem?".

Apenas eficiência.

Enquanto recolhia os últimos pedaços de porcelana, senti um ardor nos olhos. Não de dor.

De vergonha.

Eu precisava desse emprego.

Não podia errar.

Quando terminei, fui até o depósito buscar outra bandeja.

Fechei a porta atrás de mim e apoiei as mãos na pia de inox.

Respirei uma.

Duas.

Três vezes.

— Persevera.

Sorri sozinha.

Era inacreditável como aquela palavra me perseguia.

Lavei o rosto com água fria e voltei ao trabalho.

Na saída do depósito, encontrei um senhor de cabelos grisalhos empurrando um carrinho de manutenção.

Ele me observou por um instante.

— Primeiro dia?

Assenti.

— Dá pra perceber?

Ele riu baixo.

— Todos entram aqui olhando para cima. Depois aprendem a olhar para frente.

Aquilo me fez sorrir pela primeira vez desde que cheguei.

— Sou Antônio. Trabalho aqui há vinte e dois anos.

— Helena.

Ele estendeu um pano limpo.

— Guarda um conselho.

Peguei o pano.

— Qual?

Antônio olhou discretamente para as câmeras do corredor.

Depois respondeu quase num sussurro:

— Neste prédio, o problema nunca é a sujeira. É o silêncio.

Antes que eu perguntasse o que aquilo significava, ele empurrou o carrinho e desapareceu na curva do corredor.

Fiquei parada por alguns segundos.

Silêncio.

Sem entender por que aquela palavra me causou um arrepio inexplicável.

Longe dali, no último andar da Montelli Investimentos, uma porta de madeira escura se fechava após o fim de uma reunião.

E, pela primeira vez, o homem chamado Lorenzo Montelli pisaria no mesmo corredor que eu.

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