Mundo de ficçãoIniciar sessãoELENA MORETTI
O cheiro de papel velho e couro na biblioteca dos Miller era o meu único refúgio. Ali, cercada por séculos de história que não me pertenciam, eu podia fingir que Elena Moretti era apenas uma mulher comum, uma arquivista meticulosa, e não a garota que ainda ouvia o som de pneus cantando nas estradas de Amalfi e o cheiro de metal queimado. Respire, Elena. Você está a milhares de quilômetros de Nápoles. Você está segura. Mas a segurança era uma ilusão que desmoronou no momento em que Julian Blackwood entrou na sala de jantar. Eu senti a presença dele antes mesmo de Marcus nos apresentar. Ele exalava o tipo de poder que eu aprendi a temer na Itália: um magnetismo perigoso, uma autoconfiança que vinha de quem nunca ouviu um "não". Quando ele me seguiu até a biblioteca, o pânico que eu mantinha trancado em uma caixa no fundo da minha mente começou a arranhar as paredes. — É indelicado fugir de um convidado, Srta. Moretti. A voz dele era como veludo sobre navalhas. Eu me virei, o coração martelando contra as costelas. Julian estava parado ali, enquadrado pela porta, e a luz da lua fazia seus olhos parecerem de um cinza prateado e predatório. Ele se aproximava com a calma de quem sabe que a presa não tem para onde correr. — O senhor deveria estar no jantar, Sr. Blackwood — respondi, tentando manter a voz firme. Eu não podia deixar que ele visse o tremor nas minhas mãos. Ele não podia saber que, toda vez que um homem como ele se aproximava demais, eu via o rosto de minha mãe e o brilho dos faróis que nos perseguiram naquela noite maldita. — Jantares são para pessoas que têm tempo a perder. Eu só tenho quarenta e oito horas — ele disse, diminuindo a distância entre nós até que eu pudesse sentir o perfume dele: sândalo e algo que cheirava a pecado e dinheiro. Ele parou tão perto que eu conseguia ver o desdém esculpido em seus traços perfeitos. — Eu não o conheço — afirmei, dando um passo para trás até que minhas costas batessem na estante de madeira fria. — Mas eu pretendo conhecê-la muito bem. Especialmente a parte que você se esforça tanto para esconder. O ar sumiu dos meus pulmões. Será que ele sabia? Não, era impossível. Eu apaguei meus rastros. Eu morri para o mundo naquela estrada italiana. Mas a forma como ele me olhava... ele não estava vendo uma arquivista. Ele estava vendo uma saída. — Preciso falar com você, Elena. E acho que o que tenho a dizer vai interessar muito mais a você do que esses livros empoeirados. Ele se inclinou, apoiando uma das mãos na estante, ao lado da minha cabeça, me encurralando. — Eu preciso de uma esposa. Imediatamente. — A proposta dele saiu tão crua que por um segundo achei que tinha entendido errado o inglês dele. — Meu avô quer uma mulher impecável ao meu lado para salvar o legado dos Blackwood. E você, Elena... você tem esse olhar de quem carrega o peso do mundo, mas que nunca deixaria a coroa cair. — O senhor está louco — sussurrei, o choque dando lugar à indignação. — Eu não sou uma mercadoria. — Todos somos, querida. Só depende do preço. — Ele sorriu, um sorriso sem calor. — Sarah me disse que você está desesperada para enviar dinheiro para um irmão em uma clínica especializada. E eu sei que uma mulher com o seu sotaque e esse medo nos olhos não está aqui por aventura. Você está fugindo. Ele se aproximou do meu ouvido, sua voz baixando para um sussurro que me arrepiou da pior forma possível. — Case-se comigo por um ano. Eu financio a recuperação do seu irmão, dou a você uma nova identidade se for necessário e a proteção do sobrenome Blackwood. Em troca, você só precisa ser a minha "santa" pública. Ninguém vai ousar tocar em você se você for minha esposa. Nem mesmo os fantasmas da Itália. O mundo pareceu girar. Ele estava me oferecendo a salvação e a condenação no mesmo contrato. O dinheiro para meu irmão era tudo o que me restava, o motivo de eu ainda respirar após o acidente que matou minha mãe. Mas o preço... o preço era me acorrentar ao próprio tipo de homem que destruiu minha vida em Nápoles. — Por que eu? — consegui perguntar, minha voz pouco mais que um sopro. Julian afastou-se apenas o suficiente para me olhar nos olhos, e pela primeira vez, vi uma fresta de sua própria escuridão. — Porque você odeia o que eu represento, Elena. E isso faz de você a única pessoa em quem eu posso confiar para não se apaixonar por mim.






