Mundo de ficçãoIniciar sessãoA noite...
Julian mal tocou no risoto de lagosta à sua frente. O som das risadas e o tilintar dos talheres de prata na mansão de seu melhor amigo, Marcus Miller, pareciam distantes. Marcus era o único que ainda o recebia sem um sermão pronto, mas até o olhar dele naquela noite estava carregado de uma preocupação silenciosa. — Você está mais pálido que o habitual, Julian — comentou Marcus, servindo-lhe mais vinho. — O velho Alistair pegou pesado dessa vez? Julian soltou um riso seco, sem humor. — Pesado? Ele me deu quarenta e oito horas, Marcus. Ou eu apareço com uma esposa que pareça ter saído de uma pintura de altar, ou ele me corta de tudo. Ele quer uma "santa" para limpar o rastro de destruição que deixei no Obsidian. Marcus trocou um olhar cúmplice com a esposa, Sarah. — Bom, talvez o destino tenha um senso de humor peculiar — disse Sarah, limpando os lábios com o guardanapo de linho. — Você não é o único querendo se esconder do mundo, Julian. Nesse momento, uma mulher entrou na sala de jantar. Ela trazia uma travessa de porcelana, mas não se movia como uma funcionária. Seus ombros estavam tensos, e ela usava um vestido azul-marinho fechado até o pescoço, simples demais para aquele ambiente, mas que não conseguia apagar a elegância natural que exalava. — Elena, querida, deixe isso aí e junte-se a nós para o café — pediu Sarah com carinho. — Obrigada, Sarah, mas eu realmente preciso terminar de organizar os livros na biblioteca — a voz da mulher era baixa, com um sotaque que Julian não conseguiu identificar de imediato, mas que fez seus instintos de predador vibrarem. — Julian, esta é a Elena Moretti — apresentou Marcus. — Ela é uma amiga de longa data da Sarah e tem nos ajudado com o arquivo histórico da família. Julian a observou. Elena Moretti não sorriu. Ela apenas inclinou a cabeça em um gesto de cortesia tão gélido que quase fez a temperatura da sala cair. Seus olhos eram escuros, profundos e carregavam uma exaustão que Julian conhecia bem — não a exaustão de uma noite de festa, mas a de quem carrega um fardo pesado demais por tempo demais. Durante o resto do jantar, Julian não prestou atenção a mais nada. Ele observava como ela evitava contato visual, como suas mãos tremiam levemente quando Marcus mencionou uma viagem recente à Europa, e como ela parecia querer se tornar invisível. Ela é perfeita, ele pensou. Misteriosa, educada e claramente precisando de algo que só o dinheiro pode comprar. Quando Elena se retirou para a biblioteca, Julian levantou-se abruptamente, ignorando o olhar confuso de Marcus. — Com licença. Preciso resolver um assunto de negócios — disse ele, já caminhando em direção ao corredor silencioso. Julian encontrou Elena de costas para a porta, organizando volumes antigos em uma estante alta. A luz da lua entrava pela janela, iluminando o perfil dela e a tristeza que ela achava que ninguém estava vendo. — É indelicado fugir de um convidado, Srta. Moretti — a voz de Julian ecoou, fazendo-a sobressaltar-se. Elena virou-se rapidamente, os olhos arregalados como os de um animal acuado. — O senhor deveria estar no jantar, Sr. Blackwood. Julian deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com a arrogância de quem é dono do mundo. — Jantares são para pessoas que têm tempo a perder. Eu só tenho quarenta e oito horas. Ele parou a centímetros dela, notando a cicatriz quase imperceptível perto da linha do cabelo dela — um detalhe que não condizia com a vida pacata que ela levava ali. — Eu não o conheço — ela disse, a voz firme apesar do medo evidente. — Mas eu pretendo conhecê-la muito bem. Especialmente a parte que você se esforça tanto para esconder — Julian sorriu, um brilho perigoso nos olhos. — Preciso falar com você, Elena. E acho que o que tenho a dizer vai interessar muito mais a você do que esses livros empoeirados.






