NARRADORA
O som da música eletrônica batia contra as paredes da boate Obsidian como um coração frenético prestes a explodir. Julian Blackwood não sentia o ritmo; ele sentia apenas o formigamento do uísque caro queimando sua garganta e a leveza perigosa de quem não tinha nada a perder.
— Mais uma dose, Julian? — A modelo ao seu lado, cujas mãos já estavam perdidas sob o paletó de grife dele, sussurrou contra seu ouvido.
Julian não respondeu. Seus olhos estavam fixos no flash de um celular a poucos metros de distância. Ele sabia que estava sendo filmado. Sabia que as manchetes de amanhã diriam que ele estava bêbado, fora de controle e desperdiçando o futuro da fundação.
Ele não se importava.
Quando o herdeiro de outra dinastia rival esbarrou em seu ombro, proferindo um insulto baixo sobre a "decadência dos Blackwood", Julian não hesitou. O soco foi preciso, carregado de meses de frustração reprimida. O estalo do osso contra osso foi abafado pelos gritos da multidão, mas o brilho das câmeras capturou cada segundo da queda.
Enquanto os seguranças o arrastavam para fora, Julian limpou o sangue do canto da boca e sorriu para as lentes. Ele era o rei do caos, e o caos era a única coisa que o fazia sentir-se vivo.
O Dia Seguinte...
A ressaca era uma lâmina afiada cortando as têmporas de Julian quando o sol de Manhattan invadiu sua cobertura. Ele tateou a mesa de cabeceira em busca de água, mas sua mão encontrou apenas o tablet, que brilhava com a notificação do Daily Mirror: "O PECADOR DE MANHATTAN ATACA NOVAMENTE: Julian Blackwood em briga de bar após noitada de excessos."
Ele soltou um suspiro pesado, mas o som que o fez congelar não veio do tablet.
Toc. Toc. Toc.
O bater rítmico de um bastão de prata contra o mármore da sala de estar ecoou pelo apartamento silencioso. Julian fechou os olhos. Ele conhecia aquele som. Era o som do seu julgamento.
Ele levantou-se, vestiu um robe de seda e caminhou até a sala. Sentado em sua poltrona de couro favorita, estava o Sr. Alistair Blackwood. O patriarca parecia uma estátua de gelo, os olhos cinzentos mais frios do que o gelo no copo de Julian na noite anterior.
— Você tem um talento especial para a autodestruição, Julian — disse Alistair, a voz baixa e perigosa. — Mas eu não vou permitir que você leve o meu império para o túmulo com você.
— Foi apenas uma briga, avô. A imprensa exagera — Julian tentou, sua voz falhando levemente.
Alistair levantou-se, o bastão batendo com força no chão uma última vez.
— Acabou. O conselho quer a sua cabeça em uma bandeja de prata. Eu estou aqui para decidir se entrego ou se a mantenho no lugar.
Ele jogou um envelope pardo sobre a mesa de centro.
— Lá dentro está a papelada para a sua destituição. Se você não mudar a imagem desta família em um ano, cada centavo, cada ação e esta cobertura deixarão de ser seus. Você será um Blackwood apenas no nome, e o nome não paga as suas contas.
Julian sentiu o sangue fugir do rosto.
— O que você quer que eu faça?
— Casamento — Alistair cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Não com uma das suas modelos de passarela. Preciso de alguém que transmita pureza, resiliência e integridade. Alguém que o mundo respeite. Alguém que faça as pessoas acreditarem que até um monstro como você pode ser domado.
— E se eu não encontrar ninguém?
Alistair caminhou até a porta, parando por um segundo sem olhar para trás.
— Então prepare-se para descobrir o quão difícil é a vida para quem não tem nada a oferecer ao mundo além de um sobrenome manchado. Você tem quarenta e oito horas para me apresentar uma noiva, Julian. Faça a sua escolha. — Alistair Levantou e saiu.
A porta fechou com um clique definitivo. Julian ficou sozinho no silêncio ensurdecedor de seu império em ruínas.