Mundo de ficçãoIniciar sessãoEle tenta se levantar, fazendo um esforço hercúleo, mas a dor o mantém ancorado ao chão, ofegante e suando frio. Aproveito o momento de fraqueza dele para me afastar bruscamente, meu coração ainda batendo de forma descontrolada contra as costelas, mas agora movido por uma determinação renovada e implacável.
— O seu charme de predador grego pode funcionar muito bem com as suas piranhas de luxo e as suas pseudocelebridades de tabloide. Mas comigo? Comigo o buraco é muito mais embaixo. Eu estou nesta casa pelo Leo e apenas por ele, então não se atreva, nunca mais, a colocar os pés neste quarto sem a minha permissão expressa!
Ele me olha de baixo para cima, e vejo em seus olhos uma mistura explosiva de dor física e uma raiva latente que começa a borbulhar. Eu não deveria estar reparando nisso agora, mas o fato é que esse homem se torna assustadoramente mais atraente quando está irritado. Suas narinas estão dilatadas, seu queixo quadrado parece ainda mais proeminente e há um brilho perigoso em seu olhar.
— Você deveria rever seus conceitos sobre como tratar o seu marido, Sasha — ele diz, a voz recuperando aos poucos a autoridade, embora ainda carregada de dor. — Agredir-me fisicamente não é, de forma alguma, uma boa opção para o futuro deste casamento. Como sei que você está sob um estresse monumental com toda essa situação e ainda sofre profundamente com o luto pela sua irmã, vou relevar este incidente... desta vez.
Sorrio para ele com uma frieza que me surpreende.
— Obrigada por sua infinita compreensão, "marido". Agora, boa noite. A porta é por ali.
Viro-me de costas, ignorando-o solenemente, e caminho até minha mala, tentando disfarçar o tumulto de emoções que ainda ruge dentro de mim. Com as mãos trêmulas, finjo procurar uma peça de roupa íntima. Ouço então o som de passos pesados e lentos se afastando, o clique metálico da maçaneta girando, seguido pelo suave e definitivo ranger da porta se abrindo e, finalmente, fechando.
Quando a porta se tranca atrás dele, a tensão insuportável que eu estava segurando nos ombros se dissolve instantaneamente. Meu corpo relaxa de tal forma que minhas pernas perdem a força e eu me sento bruscamente na beira da cama, tentando processar o furacão que acabou de passar por aqui. O quarto mergulha em um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som ruidoso da minha própria respiração ofegante.
Visto meu pijama lentamente, sentindo o tecido de algodão frio contra a minha pele que ainda parece queimar onde ele tocou, uma pele ainda saturada de adrenalina e desejo residual. Deito-me na cama imensa, puxando as cobertas até o queixo, tentando encontrar algum conforto na solidão do meu próprio espaço. Olho fixamente para o teto, minha mente girando em uma espiral de pensamentos e emoções conflitantes.
O que Átila disse sobre sermos uma família ressoa em meus ouvidos, mas a dor e a raiva pelo que a família dele causou à Elena são raízes profundas demais para serem arrancadas com um beijo. Tento encontrar um equilíbrio, um modo de sobreviver a este casamento sem me perder no processo, sem permitir que ele quebre a minha vontade.
Fecho os olhos, buscando um momento de paz que parece se recusar a vir. As lembranças do beijo, a intensidade avassaladora do toque dele, tudo volta à tona com uma força assustadora, misturando-se de forma cruel com a imagem amarga do caixão da minha irmã. Uma lágrima solitária e quente escapa, deslizando silenciosamente pelo meu rosto até molhar o travesseiro.
— Eu preciso ser forte... mais forte do que nunca — sussurro para o vazio do quarto, minha voz quase inaudível. — Não posso deixar que ele tome as rédeas da minha vida. Não posso ser domada.
A imagem do sorriso inocente do Leo surge em minha mente como um farol, lembrando-me de que ele merece crescer em um ambiente estável e seguro, longe das sombras do passado. Mas como posso construir esse santuário quando há tanta guerra e tanto ressentimento queimando dentro de mim?
Com um suspiro profundo e exausto, deixo finalmente o cansaço me vencer. A batalha interna está longe de terminar, mas por agora, permito-me o luxo do esquecimento. Amanhã o sol nascerá novamente sobre a Grécia, e eu precisarei estar armada e pronta para enfrentar o que quer que venha a seguir nesta casa de espelhos.
Fecho os olhos e, após o que parece uma eternidade, o sono finalmente me encontra, levando-me para longe dos conflitos do presente, ainda que seja apenas por algumas breves e necessárias horas de trégua.







