Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 5...
Mateo
Fiquei surpreso com a pergunta direta, na lata.
— E por que me diz isso? Tenho cara de bandido?
— Hum... Até que não – inclinou a cabeça — Você tem olhos lindos, sabe – abriu bem os olhos — Azuis.
— Você também tem lindos olhos. Verde oliva.
— Eu sei – piscou o olho — Herança de minha avó materna – olhou o sorvete — Minha irmã também tem.
— A moça no hospital.
— É... A moça no hospital – ela suspirou e olhou para o mar — Ela é minha irmã mais velha.
— Sério? – mexi a cabeça — Pelo modo como estava ansiosa e preocupada, achei que você seria a mais velha.
— Eu sou... No comportamento, pelo menos – o sorriso foi apertado.
Como ela não disse mais nada, fiquei calado também, terminando meu sorvete. Ela olhou para o outro lado da avenida e levantou.
— Para onde vai?
— Já volto – ajeitou a bolsa no ombro — Fica aqui.
— Ok.
Alicia atravessou a avenida correndo e entrou na farmácia. Logo retornou e sentou de pernas abertas no banco, colocando a sacola entre as pernas.
— O que é isso?
— Me dá sua mão – eu só olhei sem entender — A mão... Me dá logo – pegou minha mão e tirou o lenço que eu tinha amarrado.
— O que está fazendo, Alicia?
— O que acha? – ela rasgou um pacote de algodão e quebrou o lacre do frasco — Você vai acabar tendo uma infecção nessa mão – balançou a cabeça — Pelo menos vou fazer um pequeno curativo pra limpar.
— Não precisa.
— Não seja bobo, claro que sim.
Fiquei olhando enquanto ela fazia o curativo em minha mão. Não foi um corte fundo, mas foi grande. Ela molhou o algodão com soro fisiológico e passou em cima do corte, depois passou o antisséptico.
— Ah... Sss...
— Não puxe a mão. Está sendo um bebê.
Segurei o riso. A cara dela era séria. E até que eu gostei desse cuidado. Quando ela soprou, achei fofo. Ela me olhou e soprou de novo o corte. Depois colocou a gaze com o esparadrapo.
— Pronto – soltou minha mão.
— Não precisava disso tudo.
— Precisava sim. Você claramente não sobreviveria sozinho.
— E você sempre manda nas situações assim?
— Só quando alguém está sangrando ou sendo teimoso – guardou tudo de volta na sacola — Da próxima vez que for fazer um negócio com um mafioso, não quebre a mesa dele.
— Eu não sou mafioso.
— Ah, não... Você é um CEO, não é assim que chamam agora?
— Mulheres também são CEO, sabia disso?
— É, eu sei. Conheço algumas que são, só não conheço nenhuma mafiosa. Você conhece? – inclinou a cabeça.
Não respondi. Poderia dizer que sim, que conheço algumas, mas não quero que ela tenha uma ideia errada.
— Você até que é engraçada.
— Hum... – torceu o nariz — Está evitando minha pergunta? Isso quer dizer que eu tenho razão.
— Não estou evitando, só acho engraçado o modo como você fala diretamente.
— É melhor assim, não acha – puxou o ar fundo e soltou devagar — Evita problemas. E mesmo assim, sendo direta, às vezes acontecem erros.
— Sim, verdade. A comunicação humana é muito falha. – olhei minha mão — Obrigado pelo curativo.
— Não por isso – me deu a sacolinha — Tome. Fique com você, caso queira quebrar algo mais.
— Você parece diferente de antes. Sinto muito se fui chato no avião.
— Eu também fui, estava preocupada com minha irmã. – o vento soprou seu cabelo — Ela me fez de boba mais uma vez.
— Será que posso perguntar o que fez pra que ficasse tão nervosa?
— Aline é assim... – suspirou longo e olhou para o mar pensativa — Não é de hoje que ela apronta e testa meus limites.
— Se você sabe que ela testa você, por que a deixa fazer isso?
Ela me encarou um instante e depois sorriu, mas parecia triste.
— Porque eu amo muito minha irmã – disse em um sorriso pequeno — E eu sei que ela tem problemas, mas mesmo sofrendo, ainda tenho esperança que ela melhore um dia.
— Claro. A esperança sempre deve ser a última coisa a se perder. O que ela tem?
— Nem sei por onde começar – coçou a testa — Ela já se envolveu em tantas coisas – abanou a mão — Desde brigas em escolas, expulsões... Até drogas. – abaixou a cabeça.
— Desculpe, não queria que ficasse triste. Não precisa falar nada.
— Não me importo em falar. Essa é a realidade dela, não a minha – suspirou de novo — Mas eu não consigo virar as costas para ela... Até tento, mas ainda não consigo.
— Entendo.
— A gente se ama muito, de modo até exagerado – riu baixinho — Mas foi assim que a gente cresceu... Entre altos e baixos. Por isso ficamos muito unidas.
— E o que ela fez agora?
— Entrou em uma briga com uns caras não muito legais – olhou para o céu — Eles bateram nela. Eu estava em uma conferência quando me ligaram. Um homem disse que ela estava muito mal e que a deixara no hospital.
— Certo... Por isso estava agitada no voo.
— Exato. Eu adiantei minha volta... E ao chegar, vi que ela tinha exagerado de propósito... Isso me irritou e chateou também... – apertou o olho — Interferiu em minha vida mais uma vez.
— Então... Ela brinca com seus sentimentos? – ela me olhou séria — Desculpe, estou só analisando o que me disse de uma visão de fora.
— Bem, resumindo é isso. – segurou minha mão machucada de novo — Sabe... Amar alguém de verdade é como uma praga. Nós nos dedicamos a essa pessoa, nos entregamos de corpo e alma e por fim... Ela nos machuca. Não existe amor pela metade. Ou se ama incondicionalmente ou não é amor de verdade.
Achei interessante o modo como ela falou. Foi profundo. Meio dolorido como se expressou, mas certo.
— Acho que eu nunca vou conseguir deixar de amar minha irmã, mesmo com tudo o que ela já fez. Me tornei adulta, mas ela continua uma criança – soltou minha mão.
— Talvez se ela fizer terapia, melhore.
— Difícil é que aceite ir a um terapeuta.
— Toda família tem alguém complicado.
— E você? Como é sua família? Tem irmãos? Seus pais sabem que você anda brincando de gangster por aí?
Dei uma risada alta e me sentei como ela, apoiando os cotovelos nas pernas.
— Sabe aquele homem? Ele é meu tio. Estávamos brigando porque ele não aceita minhas ideias e quer mandar em tudo.
— Ah! Briga de mafiosos.
— Você cismou com isso? – continuei rindo — Sou um homem de negócios. Às vezes eles saem como quero e outras não.
— E por que brigou com seu tio?
— Porque eu estou criando um novo projeto, só pra mim... E pra minha família, é claro, mas ele não aceita que eu mude ou que saia da organização.
— E seus pais? Eles sabem que seu tio quer mandar em você?
— Ele é irmão de meu pai – ajeitei a postura — E não tenho muito o que falar. Minha família é... Normal.







