Primeira impressão

Parte 2...

Alicia

— Você claramente tem problema para se manter quieta – ele enfiou as mãos nos bolsos da calça.

— Talvez meu problema seja lidar com gente chata – olhei pra ele fazendo uma careta — Eu tenho que ir ao hospital e tem que ser agora – agitei as mãos — Mas não tem nenhum táxi aqui – esfreguei a testa — Claro que não... Por que teria que ser fácil? Tudo tem que ser complicado.

— Não está sendo um pouco dramática? Por que não chama um Uber?

— Porque eu não tenho o aplicativo e nem quero ter. Não gosto de andar em carros de estranhos.

— O taxista também é um estranho – encolheu os ombros. — Não seria o mesmo?

— Não! – elevei a voz e agitei a bolsa — O táxi tem registro em uma empresa, tem todas as informações do motorista, tem seguro... O Uber não tem. É só uma pessoa que pega seu carro particular e fica por aí levando estranhos em seu carro estranho, sendo um estranho.

Ele franziu a testa e vi que segurou uma risada, mas não escondeu bem.

— Olha, não me enche tá! – ergui a mão — Siga seu caminho – fiz um gesto para que andasse.

Ele inclinou a cabeça, claramente se divertindo.

— Eu seguiria… Se você não estivesse parada exatamente na frente do meu carro.

Pisquei algumas vezes.

— Seu carro?

Ele apontou atrás de mim. Virei devagar e lá estava: um carro preto, elegante, com o pisca-alerta ligado e um cara magrelo de barba branca ao lado.

— Não.

— Sim.

— Eu não vou entrar aí.

— Ótimo - abriu a porta do passageiro. — Porque eu também não ofereci ainda. Iria, mas você não é fácil.

Cruzei os braços.

— Você é arrogante.

— E você está atrasada para o hospital - respondeu, apoiando o braço no teto do carro. — Posso discutir isso enquanto senta atrás, em busca de um táxi inexistente… Ou pode aceitar carona e continuar me odiando confortavelmente depois que eu a deixar no hospital.

Olhei para o céu, derrotada.

— Se você for um sequestrador, saiba que eu sou muito problemática. – apontei o dedo para ele — Muito mesmo.

Ele sorriu de lado.

— Percebi no avião.

Suspirei, entrando quando o homem abriu a porta.

— Só manda ele me levar e pronto. Não quero mais te ver. – coloquei a bolsa no colo.

— Finalmente algo em que concordamos. – ele empurrou minha mala — Douglas, põe no bagageiro.

Ele entrou e logo depois o cara de barba entrou também.

— Para qual hospital te levamos?

— Para o Saint Moritz... Por favor.

— Você ouviu, Douglas.

— Ok, você quem manda.

O carro andou devagar até sair do aeroporto, depois o barba branca acelerou e entramos na avenida.

**********

Mateo

— Você é sempre assim? – passei o braço pelo encosto do banco, olhando para ela.

— Depende. Assim como? Defina sua pergunta?

— Rude. Maluca.

— Ah! – ela riu e enfiou os dedos no cabelo, balançando — Depende novamente. Às vezes precisamos ser rudes com pessoas arrogantes e chatas, que acham que são donas do mundo.

— Hum... E você acha que eu sou assim?

— É o que me parece – cruzou as pernas e os braços.

— Sabe, nem sempre devemos nos deixar levar pela primeira impressão.

— Dizem que a primeira impressão é a que fica – sorriu meio displicente.

— Bem, então tivemos impressões fortes um do outro.

— Realmente. – ergueu o queixo.

Meu celular tocou. Era minha irmã mais velha.

— Diga-me, querida – atendi com um sorriso — Já estou quase chegando.

— Onde está?

— Meu voo atrasou. Estou saindo do aeroporto agora.

— Liguei só para te avisar que sua mãe está irritantemente esperando por você para o jantar.

— Minha mãe? – ri baixinho, coçando a sobrancelha.

— Exato. Eu já desisti da senhora Silvia há muito tempo.

— Não seja assim – olhei para a garota em minha frente — Tem coisa bem pior por aí, sabia?

— Jesus amado! Coitada da família, então.

Dei uma gargalhada.

— Venha logo para casa. Sua mãe mandou fazer os pratos que você adora.

— Hum... Que bom. Estarei aí. Um beijo.

— Outro, querido.

Desliguei. A garota me encarava com curiosidade.

— Você é casado?

— Não – guardei o celular.

— Então, quem é querida?

Achei engraçado. Inclinei a cabeça.

— Querida nesse caso, é minha irmã mais velha. Miranda. – mudei de posição e me inclinei para ela — Você ficou curiosa? – ergui a sobrancelha.

Ela franziu a testa sorrindo e fez uma careta.

— Você se acha mesmo, não é? – deu uma risada baixa — Meu Deus, que arrogante.

— Não sou arrogante. Sou seguro de mim.

— Arrogante e boçal – rodou a língua pela bochecha

— Posso dizer o que penso de você?

— Diga... Não vai me abalar.

— Maluca e grosseira.

Realmente ela não se abalou. Deu uma gargalhada e olhou pela janela.

— Ok. Aí está nossa primeira impressão – esticou a mão — Vamos ficar com ela, está bem?

Eu concordei com a cabeça e ao tocar em sua mão, senti um pequeno choque elétrico.

— Ai... – ela agitou a mão e riu.

— Olha isso, você é tão agitada que até dá choque.

Apertei os olhos rindo e segurei sua mão.

— Mateo. – mirei seus olhos e percebi a cor forte. Verde oliva — Mateo Montenegro.

— Sou Alicia Verdeiros – inclinou um pouco a cabeça — Eu agradeço pela carona.

— Não foi um prazer.

Ela gargalhou de novo. Boca bem aberta, dentes brancos com caninos salientes. Gostei do som. Acho que nunca ouvi ninguém rir dessa forma.

— Não se preocupe. Quando me deixar no hospital não terá que me ver de novo.

— Promete?

Ela fechou um olho e fez sinal positivo com o dedo. Era divertida também, além de maluca.

— Mateo, já chegamos.

Olhei para fora. A fachada de vidro alta do hospital estava ao lado. Desci e dei a volta, abrindo a porta para ela. Alicia desceu e ficou ao meu lado enquanto pegava sua mala.

— Aqui está, sã e salva.

— Muito obrigada – estendeu a mão de novo e suspirou — Desculpe o incômodo no avião. Sou ansiosa.

— Não por isso – apertei sua mão — Acho que nós dois fomos um tanto chatos.

Ela pegou a alça da mala e foi andando. Fiquei parado, olhando enquanto subia os degraus.

— Alicia! – a chamei por puro impulso. Ela parou e se virou segurando a bolsa — Diga ao terapeuta que precisa de tarja preta – a provoquei.

Ao invés de rebater, ela jogou a cabeça para trás e deu outra gargalhada gostosa. Depois fez um “sim senhor” com os dois dedos na testa e continuou. Entrou no hospital.

Não sei por que, mas fiquei parado olhando. Até uma buzina me tirar do pensamento.

— Calma, calma... Já estou indo – entrei de novo no carro e Douglas manobrou para sairmos — Espera, espera...

— Mateo, temos um assunto à nossa espera.

— Eu sei, só um momento – abri a porta e desci, andando rápido para o hospital.

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