Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 3...
Mateo
Alicia estava saindo da recepção e foi andando apressada pelo corredor, puxando a mala branca. Fui atrás dela, deixando uma distância entre nós. Estava curioso sobre ela.
“O que será que veio fazer no hospital?”
A segui até que entrou em uma ala mais silenciosa do hospital. As luzes eram mais suaves ali, o movimento quase inexistente. Nada de corredores lotados ou gente correndo, apenas o som distante de passos e o bip ocasional de algum aparelho.
Ela não percebeu que eu ainda estava atrás.
Alicia virou à direita e empurrou uma porta que ficou entreaberta. Diminuí o passo por instinto. Não era exatamente um quarto comum, parecia uma pequena enfermaria, com poucas camas ocupadas, separadas por cortinas claras.
Duas estavam vazias. Em outra, um senhor dormia. Na última, perto da janela, havia uma mulher deitada. Alicia entrou apressada, largando a mala ao lado da parede.
— Você tá bem? - perguntou rápido, a voz baixa, carregada de nervosismo.
A mulher na cama tinha alguns hematomas visíveis no rosto e o braço imobilizado. Mesmo assim começou a rir. E rir de verdade. Uma risada frouxa, provocadora.
Alicia parou imóvel por um segundo. Depois estreitou os olhos. A mulher continuou rindo, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo. Foi aí que Alicia perdeu a paciência.
— Ah, não… Não começa.
A risada aumentou. Ela avançou dois passos e então:
Plá.
Lhe deu um tapa. O som ecoou pelo quarto.
— Ei! - reclamou uma enfermeira ao fundo, levantando-se rapidamente. — Você não pode agredir a paciente!
Plá!
Outro tapa. Alicia nem olhou para a enfermeira.
— Posso sim - respondeu seca. — Porque ela é minha irmã. Essa tonta.
A mulher na cama gargalhou ainda mais, segurando o rosto como se aquilo fosse parte de uma piada interna entre as duas. Fiquei parado do lado de fora, sem entender absolutamente nada.
As vozes abaixaram. Alicia se inclinou sobre ela, falando rápido, quase sussurrando. Só algumas palavras escapavam mais altas.
— …idiota…
— ... podia ter morrido…
— ... você nunca pensa… Meu Deus...
A irmã respondeu algo que não consegui ouvir direito, mas o tom debochado era claro. Alicia soltou um som irritado pelo nariz.
— Você acha graça de tudo! Não tem noção de vida!
Mais risadas. Ela passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro, claramente tentando não explodir de novo.
— Eu juro… Um dia eu te mato.
A irmã disse algo baixo, e Alicia respondeu quase colada ao rosto dela, num tom que não consegui captar, só vi a expressão dela mudar. A raiva virou preocupação por um instante. Os ombros caíram.
Houve um silêncio curto. Então a mulher murmurou algo mais alto:
— Você veio correndo… Eu sabia que viria.
Alicia revirou os olhos, mas segurou a mão dela.
— Cala a boca.
A irmã sorriu satisfeita.
Fiquei observando aquela cena estranha demais para ir embora. No avião ela parecia caótica, divertida, imprevisível. Ali… Era outra coisa. Nervosa. Assustada.
Importante para alguém.
Ela suspirou fundo, ainda segurando a mão da irmã, e murmurou algo tão baixo que não consegui ouvir nada. E isso só me deixou mais curioso.
Foi nesse momento que percebi que talvez eu estivesse passando dos limites. Não deveria estar ali, mesmo assim, eu não saí.
Ela ainda falou algo mais e pegou a mala, saindo do quarto. Me virei para sair antes que me visse, mas não fui rápido o suficiente.
— Que diabos você está fazendo aqui?
Me virei e ela me olhava de cara fechada e sua respiração estava rápida.
— Bem... – apertei os lábios — Eu não tenho realmente uma boa resposta para isso... Só fiquei curioso...
— Ok! Então você vai me dar outra carona.
— E para onde?
— Qualquer lugar onde eu possa comer algo. Estou com fome, preciso me acalmar – saiu andando.
— Certo... Então vamos – fui atrás dela.
Quando descemos a escada da frente, Douglas estava parado do outro lado, esperando. Ao nos ver juntos de novo ele fez uma cara engraçada, franzindo as sobrancelhas e me olhando em questionamento.
— Vamos dar uma carona pra ela.
— De novo – falou baixo — E para onde?
— Qualquer lugar onde ela possa comer – dei de ombros — Dirija.
— Certo, você manda.
Ele guardou de novo a mala dela e entrou no lado do motorista. Dessa vez eu fui no banco de trás com ela.
— Estamos perto da orla. Podemos encontrar o que comer por lá.
— Tudo bem – ela mordia o dedo, olhando para fora.
— Vamos para orla, Douglas.
Ele fez um gesto confirmando com a cabeça e seguiu para a orla. Me olhou pelo espelhinho central.
— Mateo, seu compromisso.
— Pode deixar – me virei para ela — Eu tenho um compromisso me esperando. Posso te deixar no carro enquanto resolvo? Será rápido.
— Esse compromisso é na orla? – eu fiz que sim — E eu posso aproveitar e comer algo? – fiz de novo que podia — Então tudo bem, vamos.
— Vai esperar no carro?
— Depende. Vai me dar algo para comer?
Eu ri e assenti.
— Douglas vai comprar algo para você enquanto eu resolvo o que preciso.
— Vai em frente – virou para a janela e ficou calada.
**********
— Eu não demoro – abri a porta.
— Fique à vontade! – estalou os dedos — Ei, você! Douglas... Tem um quiosque logo ali – apontou e eu saí rindo — Quero água de coco e algo para comer.
— Mateo...
— Faça o que ela pediu – bati em seu ombro — Eu não demoro mais do que vinte minutos. No máximo meia hora. Não a deixe ir embora.
Ele concordou com a cabeça. Segui pelo calçadão até onde ficavam os barcos atracados. Olhei o relógio. Quinze minutos de atraso não é grande coisa. Ainda mais que o encontro é com meu tio.
Vi os três conversando no deque da lancha e me aproximei. Pulei para dentro. Meu tio levantou.
— Aí está você, sobrinho – me deu a mão e depois apertou meu braço — Já ia te ligar.
— Meu voo atrasou, infelizmente.
— Sem problema, sente-se com a gente. Já começamos a falar sobre essa semana.
— Ótimo, me resumam então. – sentei.
— Aqui, vamos beber algo e comer um pouco enquanto explico tudo o que pensamos fazer.
Não estava com vontade de comer, mas aceitei o copo com Negroni. Fazia um tempinho que não tomava um e a combinação de gim, Campari e vermute era muito boa. Ainda mais no calor que fazia agora.







