Espera por mim

Parte 4...

Alicia

Fiquei esperando um pouco dentro do carro. O barba branca trouxe o que eu pedi, mas comer dentro do carro é sem graça e ainda estou irritada com Aline.

— Olha, vou dar uma voltinha pra esticar as pernas – desci — Não vá embora com minha mala, senão eu faço uma denúncia na delegacia.

— Mas eu não...

Nem esperei ele terminar de falar e me afastei. O vento que soprava do mar era muito bom pra mim. Fechei os olhos um instante, sentindo meu cabelo balançando.

Dois meninos passaram gritando e rindo por trás de mim e me virei para olhá-los.

— Ai, me desculpe, moça – outra garota maior passou por mim — Eles não queriam assustar você.

— Não se preocupe – sorri — Não me assustaram.

Ela saiu correndo atrás deles.

— Que coisa tão boa ser criança – inclinei a cabeça vendo os meninos se escondendo da garota mais velha que os chamava — Eu também gostaria de ter sido uma. – suspirei e dei alguns passos em direção ao cais, com várias lanchas atracadas — Ora, se não é o senhor curioso.

Parei e cruzei os braços, observando a cena. Ele estava reunido com mais alguns homens. Todos mais velhos do que ele.

Até que olhando com calma, ele era um homem bonito, bem vestido e sua postura estava diferente agora, de quando o vi no avião.

— Mas ainda me parece arrogante – disse em voz alta. — Talvez eu possa te ouvir também – me aproximei e fiquei parada ao lado de um banco de madeira.

**********

Mateo

— Não, tio... Não foi isso que nós combinamos antes.

— Eu sei, Mateo, porém surgiram coisas que fizeram a mudança ser necessária.

Olhei de lado, passando a mão na barba. Suspirei. Isso me irrita muito. Não gosto de planejar algo e depois alguém vem por trás e desfaz.

— Mas se surgiram depois, deveriam ter sido comunicadas a mim ou então não serem feitas. Não pode trocar algo no meio do caminho, tio. Isso não é certo.

— Está querendo me ensinar a trabalhar, sobrinho?

Ele bateu os dedos na mesa de vidro.

— Não, apenas não gosto dessas mudanças.

— Bem, mas se eu digo que vai ser melhor dessa forma, pode confiar.

Me inclinei para a frente e coloquei os cotovelos sobre a mesa, o encarando.

— Não confio em ninguém – ergui a sobrancelha.

— Isso é um erro, sobrinho... Na vida precisamos de alguém em quem confiar.

— Talvez isso seja verdade, mas não para mim – voltei a me reclinar — Sei bem o meio em que vivo.

Um dos homens tentou me convencer que a mudança nos termos de acordo seriam benéficas para mim, mas eu não caio nessa conversa guiada.

— Não importa. Não quero que mude o que combinamos.

— Já vai ser feito, Mateo. Não adianta reclamar agora.

— Pois bem, não reclame depois. – apontei o dedo para ele — O que eu digo é que vou manter meus homens, os engenheiros e tudo mais, da forma como foi acertado antes. Nada vai mudar pra mim.

— Você não pode atrapalhar meus negócios dessa forma, Mateo – ele bateu a bengala com força no chão.

— Não fiz nada. O senhor fez. Se quiser continuar, vai ser como eu disse.

— Não. Será como eu digo agora.

Ficamos nos encarando um momento, em uma briga silenciosa de quem pode mais. Apesar de ser meu tio, não posso confiar em sua palavra cegamente.

— Que está fazendo, tio? O que pretende? Acha que vou deixar assim, de graça?

— Você não pode simplesmente sair dos negócios, Mateo. – ele respirava fundo — Vivemos anos dessa forma, você cresceu nesse meio e agora está querendo nos virar as costas? – bateu de novo a bengala no chão — Não é assim que a banda toca, sobrinho.

— Não se meta nos meus assuntos particulares, tio. – rangi os dentes e apertei os lábios — Eu sei o que quero e vou fazer do meu modo.

— Então terá sérios problemas, sobrinho.

— Basta que não se meta em meu caminho. Eu não quero me meter no seu – puxei o ar fundo e olhei para os homens ao lado — Não me importa quem esteja ao seu lado, eu não vou fazer as coisas como antigamente.

— Não pode sair, Mateo.

— Eu saio quando quiser!

Me perdi por instantes e bati a mão com força na mesa. O vidro quebrou com o impacto e os cacos se espalharam por nossos pés. Os homens recuaram e meu tio ficou olhando para o chão com cara fechada. Levantei.

— Não tente me segurar, tio. – apontei de novo pra ele — Eu sei o que quero e não vou aceitar que fique no meu caminho.

Dei outra olhada para os homens e me retirei da lancha. Quando desci, encontrei Alicia parada me olhando. Sua expressão era mais do que curiosidade. Olhei para trás.

— Quem são eles?

— São negócios – respondi olhando minha mão, que agora pingava um pouco de sangue — Merda.

— Nossa... – ela veio até mim e segurou minha mão.

— Não se preocupe, não é nada. Você comeu?

— Já... Mas ainda estou com calor.

— Que te parece se tomarmos um sorvete? – apontei para o outro lado — Ali tem uma sorveteria muito boa.

— Ok, podemos ir. – ela olhou de novo pra minha mão — Não seria melhor ir a um hospital?

— Não. Está tudo bem – puxei um lenço do bolso do blazer e enrolei na mão — Vamos.

Caminhamos lado a lado, mas sem falar nada. Passamos por Douglas, encostado ao carro, mexendo no celular. Ele me viu e fez um gesto com a cabeça para irmos e eu fiz que não sem que ela visse.

— Boa tarde. – o senhor nos cumprimentou com um sorriso — De que sabores vão querer?

— Pra mim pode ser de creme e chocolate.

— Tem milho verde? – o senhor assentiu — Ótimo. Quero de milho verde com morango.

Eu franzi a testa olhando aquela mistura.

— O quê? – deu de ombro — Isso é praticamente uma salada.

— Por que não escolhe algo normal?

— Se fosse escolher normal, não estaria aqui, conversando com você.

Até o senhor que colocava o sorvete pra ela, riu desse comentário.

— Tudo bem... Vamos caminhar um pouco? – apontei — Ali tem bancos. Podemos sentar de frente para a água.

— Certo. Vamos.

Paguei os sorvetes e seguimos em direção aos bancos. Ela ia caminhando ao meu lado, lambendo o sorvete.

— Por que não usa a colher?

Ela apertou os olhos e vi um começo de sorriso.

— Por que você é controlador?

— Eu? – dei uma risadinha — Não sou.

— Então por que não me deixa aproveitar meu sorvete do jeito que quiser? – lambeu de novo — Eu não disse nada sobre sua escolha comum.

— É segura – peguei um pouco com a colher.

— Comum. Chata. – sentou no banco de concreto.

— Está certo – sentei ao seu lado.

Ela ficou me encarando um instante.

— Está analisando meu rosto?

— Sim – lambeu de novo.

— E o que achou? – ergui o queixo — Tenho uma cicatriz aqui.

— Eu gostei. Dar um ar de personagem principal.

Eu abaixei a cabeça. Ela é engraçada. E do nada, ela me pergunta:

— Então... Você é mafioso?

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