O Domínio do Medo

Ouvi a chave girando do lado de fora. Ele trancou ao sair.

Meu corpo inteiro relaxou de uma vez. Como se eu tivesse prendido a respiração esse tempo todo.

Isaque.

Esse é o nome do estranho que salvou a minha vida.

O homem de quem eu deveria ter medo, especialmente após ouvi-lo me trancar num quarto de hotel.

Qualquer mulher ficaria com medo dele no meu lugar.

Não ficaria?

Mas pela primeira vez em muitos anos, tive a sensação estranha de segurança.

Como pude me sentir segura na presença de alguém que nem conheço?

Acho que tudo pelo que passei deixou a minha mente mais perturbada ainda.

Enterrei o rosto nas mãos lembrando dos últimos minutos na companhia dele.

Fechei os olhos com força. 

"Não posso pensar nisso. Não posso."

Mas pensei.

Me lembrei da mão dele na minha cintura, grande e quente. Quando puxou pra perto do seu corpo por um segundo.

Um segundo só.

E o peito dele. Firme, musculoso, o cheiro de neve e pinho que ficou no meu cabelo.

O ar faltou.

" Que vergonha!"

Que tipo de pessoa pensa nessas coisas depois de ser rejeitada por me comportar, como ele mesmo disse, como uma prostituta...?

Enterrei o rosto no travesseiro e gemi baixinho.

Ou de outra coisa que eu não tenho coragem de dar nome.

Meu Deus!

O que eu fiz?

Onde estava com a cabeça para fazer aquilo e oferecer daquele jeito, sentar no colo dele? Nem sei quem ele é. Ele poderia ser um psicopata. No entanto, eu ainda tentei abrir o zíper da calça dele!

E o pior de tudo foi ele me olhar daquele jeito. E me rejeitar.

Senti o rosto queimar. As bochechas, o pescoço, tudo vermelho. Que humilhação. Ele deve ter achado que eu sou louca. Ou pior.

Mas por que? Por que ele tá fazendo isso por mim? Ele nem me conhece. Me salvou dos marginais, pagou o quarto, me trouxe comida... a troco de nada?

Ninguém faz nada de graça pra mim.

Nunca fez!

Olhei pra montanha de coisas que ele trouxe e deixou em cima da cama. Chocolate, batata, refrigerante, amendoim.

Meu estômago roncou tão alto que doeu.

Peguei o refrigerante e abri. A primeira golada desceu gelada, queimando a garganta, cheia de gás. Foi a coisa mais gostosa que eu bebi na vida.

Depois rasguei o pacote de batata. Comi rápido, com a mão tremendo. Engolindo quase sem mastigar. Fazia dois dias que eu não comia nada. Dois dias correndo.

Peguei o chocolate por último. Quebrei um pedaço e coloquei na boca. Ele derreteu na língua.

 Meu Deus, que delícia!

Faz anos que não tinha permissão para comer chocolate!

"Quer ficar uma vaca gorda, além de feia e burra? Ninguém vai te querer se parecer com uma elefanta!"

Fechei os olhos com força e escondi o rosto na jaqueta de couro que ele deixou sobre a cama.

Foi aí que o cheiro dele me atingiu. Forte, envolvente. Uma mistura de frio de neve, pinho e algo selvagem, quente demais pra ser humano. O calor do corpo dele ainda tava em mim, do tempo que fiquei no colo dele.

Abri os olhos, dobrei a jaqueta e pus sobre a cadeira no canto do quarto. Caminhei até a janela. A mantive fechada, apenas afastei a cortina.

Lá fora, a noite estava fria. Nevando.

Será que eu estou ficando louca depois de tudo que eu passei?

Como posso me sentir segura com o estranho com essa cara de bravo que tranca a porta do hotel comigo dentro?

Olhei pela janela. Na rua, uma pessoa passando, andando devagar.

Levei a mão para o peito e esfreguei com força, tentando conter o coração que batia tão rápido que parecia que ia rasgar a minha blusa. Prendi a respiração até a figura sumir no fim da rua.

O ar voltou para o meu pulmão de uma vez, aliviada.

Foi quando uma sombra escura passou raspando no vidro da janela, vindo direto na minha direção.

Um grito preso escapou da minha garganta e dei um salto para trás, tropeçando nos meus próprios pés. Meus olhos arregalaram, a respiração ficou curta, presa na garganta.

Até perceber que na verdade era um galho de uma árvore próxima que veio na direção do vidro com o vento.

Sentei de novo na cama pensando.

 Não, não... Respira, Bia. Calma!

Ele não sabe onde eu estou, não tem como me encontrar.

Respirei pesadamente, me acalmando. É apenas medo.

 Você está apenas com medo, calma, não pode ter outro ataque!

Disse a mim mesma, respirando com mais controle.

Olhei para as comidinhas que Isaque deixou para mim, trouxe para mim.

Mas calma. Peguei a minha bolsa que tinha derrubado no chão. Recolhi os objetos que se espalharam.

No meio da bagunça, meu celular.

Um celular barato, com a tela toda arranhada.

Eu o deixei desligado desde que escapei daquele lugar.

Meu coração começou a bater acelerado só de olhar pra ele.

Com a mão tremendo, peguei e apertei o botão pra ligar.

A tela acendeu.

Um monte de mensagens, todas da mesma pessoa. Notificação atrás de notificação ocupando a tela inteira.

Senti a minha respiração alterar. Era como se o oxigênio não estivesse alcançando os meus pulmões. Apertei o celular com força na mão.

Meu dedo pousou em cima da última mensagem. Não queria ler, não queria saber nada dele, mas não resisti.

Abri.

 "Aonde você está, sua vagabunda? Eu vou te encontrar e vou te dar uma lição que nunca mais vai esquecer."

O ar faltou.

Joguei o celular na cama e me afastei dele como se aquele objeto pudesse me queimar.

Ainda agoniada, olhando para o celular aceso em cima da cama, escutei.

Passos. Do outro lado da porta. Vão se tornando mais altos, mais pesados.

Olhei para a porta, assustada.

A angústia foi tão grande que me impediu de pensar direito.

Meu peito começou a doer, uma dor aguda, apertada, como se alguém tivesse sentado em cima dele. O oxigênio não queria vir. Eu puxava o ar com força e ele não entrava, não chegava nos pulmões. Meu coração batia tão descontrolado, tão rápido, que doía. Minhas mãos ficaram dormentes, formigando.

Minhas unhas arranharam meus braços, abrindo vergões vermelhos. Minha vista ficou turva, as bordas do quarto escureceram. Eu não conseguia raciocinar, não conseguia formar um pensamento. Era só medo absoluto, puro, tomando conta de tudo.

O barulho da chave na fechadura.

Fui me arrastando para trás, para trás, até bater com as costas na cabeceira da cama. Me assustei e caí no chão.

A maçaneta cedeu. A porta foi empurrada com força, revelando a silhueta alta dele na penumbra do corredor.

Eu gritei.

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