Não sou um Herói

Saí do Bar do Jack e a porta bateu nas minhas costas, abafando a música ruim e o falatório lá de dentro com aquele sino estridente em cima do batente.

O vento da madrugada cortou meu rosto.

Aquela jaqueta amarela não ia aquecer porra nenhuma. Era fina demais para o frio que fazia nessa estrada, fina demais para uma humana.

Esfreguei o rosto com força, passei a mão pela barba, tentando limpar a irritação.

Por que eu não podia simplesmente ignorar e fazer o trabalho pelo qual eu seria pago? A confusão em que ela se meteu é um problema dela. Eu não a conheço. Ela não tinha nada que ter vindo para um lugar como esse, muito menos aceitar a ajuda de tipos como aqueles.

Ainda assim...

Levantei o rosto e puxei o ar.

Fedor de álcool barato impregnado na madeira velha, mijo no canto do estacionamento, óleo queimado. E no meio daquela imundície toda, o cheiro dela. Doce. Limpo. Fora de lugar. Costurado no fedor deles. Três. Um lobo morto de fome, um vampiro chupado que estava no balcão e mais um vira-lata que eu não tinha catalogado. Tinham levado ela para os fundos.

Olhei para o céu. Baixo, fechado. A chuva tinha dado uma trégua, mas deixou a neblina rastejando no chão e a terra batida úmida, levantando aquele cheiro de poeira molhada. Perfeito para ninguém ver nada. Perfeito para covarde trabalhar.

Apertei o passo.

Meus passos não fizeram barulho. Bota velha, sola gasta, mas depois de anos como mercenário, fugindo de tudo que Oníria representava para mim, você aprende a atravessar o mundo sem existir.

Risadas de deboche alta e arrastada chamou a minha atenção. Por baixo. A voz dela. Trêmula de puro medo.

— Não, por favor... eu só queria ajuda com o meu carro. Ele está lá na frente.

Minhas pernas me levaram antes mesmo que eu me desse conta, na direção da voz e do cheiro dela. No fundo do bar. No estacionamento.

O estacionamento dos fundos era um breu. Terra batida, mato crescido nos cantos, sem uma lâmpada acesa havia meses. Um lugar morto. Ninguém deixava carro ali. Quem vinha para o Jack jogava o carro na frente, embaixo da luz amarela do letreiro, na calçada. Arrastar alguém para aquele escuro só tinha um propósito.

Ela certamente não deixou o carro lá. Eles a arrastaram para aquele lugar.

Assim que virei, a cena fez meu lobo se erguer no meu âmago. E nós dois nos unimos pela primeira vez em anos com um único desejo: afastar aqueles desgraçados da humana.

Ela estava apavorada, os olhos arregalados, o rosto pálido, sem ter como reagir contra aqueles três brutamontes. Um segurava os dois braços dela para trás, o outro estava na frente dela com a mão em seu pescoço, falando muito perto do seu rosto. E um terceiro rindo com as mãos no cinto já afrouxando a fivela.

O da frente chegou mais perto. Ela tentou recuar e não tinha para onde ir. As costas bateram na parede de tijolo úmida dos fundos do bar.

— Deixa que eu te aqueço, princesinha — ele disse, com aquela voz melada que me deu ânsia.

O desgraçado enfiou a mão suja no cabelo dela e puxou sua cabeça para trás com força, expondo a garganta branca. Ela fez um barulho, engasgado, curto. Quando ele colocou a outra mão na parte interna da coxa dela é que tentou gritar de verdade. Mas aquele que segurava seus braços usou apenas uma mão para mantê-la imóvel e a outra tapou a sua boca.

Atravessei os últimos metros dessa vez deixando o barulho dos meus passos ecoar. Agora não precisava mais de silêncio.

— Vocês estão tão na merda que precisam arrastar uma fêmea para o escuro e forçá-la? Que vergonha do caralho!

Os três viraram na hora.

O que estava com a mão no cabelo dela largou. Era o Orelha Rasgada. Lobo sujo, cabelo oleoso. Me reconheceu.

— Porra, sai fora! Isso não é contigo!

O que tapava a boca dela continuou segurando. O terceiro, o do cinto, ficou parado, com a fivela aberta tilintando.

A humana em sua jaqueta amarela estava branca de tão pálida. Ela não gritava mais, só respirava curto, uma lágrima escorrendo de seus olhos arregalados para mim, com esperança como se eu fosse algum tipo de herói.

Fechei os olhos rapidamente, respirei fundo.

Ah, foda-se!

— É comigo quando vocês fizeram esse circo na frente da minha moto — falei, apontando com o queixo para a minha Harley preta velha, largada a uns cinco metros dali, toda fodida de estrada. — Solta ela agora e some! Os três.

O vampiro magrelo levantou as duas mãos, dando um passo para o lado, com um sorriso debochado na boca, tentando se safar.

— O carro dela enguiçou, a gente só estava ajudando... — ele disse.

— Desde quando você ajuda alguém, Isaque? Volta para o teu uísque. É só uma humana. A gente só vai brincar um pouquinho, não vai matar ela — disse o que ainda segurava ela, lá atrás.

Orelha riu e veio na minha direção me peitar.

— Qual é? A gente está na seca há um tempão. A gente só vai foder ela um pouquinho e depois...

Eu não deixei ele terminar.

O cheiro da essência dela misturado com medo já estava impregnado no ar, irritando ainda mais a minha natureza, fazendo meu lobo rosnar baixo no peito e meu sangue ferver.

Não usei a faca. Não valia sujar a lâmina. Dois passos e acertei o cotovelo no meio da cara do Orelha. Senti o nasal estalar seco. Ele caiu de costas na lama, gritando, com as duas mãos no rosto, sangue escorrendo entre os dedos.

O vampiro soltou ela na hora e veio para cima de mim. Rápido para um morto de fome. Tentou me laçar em uma gravata. Abaixei o centro, peguei ele pela jaqueta e joguei com toda a força contra a parede de tijolos. O impacto surdo.

— Eu falei para soltar, caralho! — rosnei no ouvido dele, já com o antebraço atravessado na garganta, apertando até a traqueia ranger. — Você não ouve não, desgraça?

Ele arranhou o meu braço. Suas garras rasgando a minha carne. Apertei até quebrar o pescoço dele. Larguei o seu corpo, que desabou no chão. Quem se arrastou para longe do meu alcance foi o cara que estava com o nariz quebrado.

Só sobrou o que segurava ela. Ele a mantinha próxima ao corpo andando para trás, arrastando ela.

— Se você se aproximar, eu mato a humana! — ele gritou, com a mão tremendo.

Ouvi as palavras dele e dei uma risada falsa, sem humor nenhum.

— Eu nem conheço ela. Estou puto para caralho porque o dia de hoje está uma merda. Estou super afim de descontar em alguém e vocês apareceram no meu caminho. Então, se vai matar a garota, mata logo! Que eu vou te pegar de qualquer jeito.

Ele arregalou os olhos. Entendeu que eu não ia parar.

Se ele pensou que isso me distrairia, estava muito enganado. Desviei dela, que caiu no chão com as mãos espalmadas na terra úmida, e corri atrás dele.

Em poucos passos alcancei o filho da puta. Puxei pela camisa, virei e acertei um soco tão forte no queixo que ele apagou em pé antes de cair de costas na lama. Balancei a mão, porque o soco foi tão forte que machucou um pouco os meus dedos.

Silêncio. Só a neblina e o zumbido da lâmpada amarela do bar lá na frente.

Escutei o choro abafado dela. E o meu lobo me arranhou por dentro com raiva de eu não a ter segurado.

Virei de volta na direção do choro. E ela estava ali. Caída no chão. Não tinha aproveitado a chance de fugir.

Quão tola pode ser uma humana?

Me aproximei devagar e percebi que ela não estava só com medo. Ela estava encolhida, os joelhos contra o peito, os braços abraçando as pernas. Tremendo. Não era só medo agora. Era pavor. Ela mal conseguia respirar. Seus olhos estavam sem foco. E dava para ouvir o coração batendo acelerado demais para ser saudável.

Agachei a um palmo de distância, evitando chegar perto demais e assustá-la.

— Ei. Você está bem?

Nada. Ela só tremeu mais e tentou se afastar.

— Ei, garota, acabou. Eles já foram, não vão te machucar.

Respirei fundo e me arrependi logo depois. O cheiro dela veio mais forte, invadindo o meu pulmão. Pavor e a sua essência doce alcançando o meu lobo, que se ergueu de novo e voltou a me machucar por dentro, irritado com a distância entre nós, que para ele era grande demais.

Ela abriu um pouquinho os dedos. Um olho me olhou, arregalado, cheio d'água.

Estendi a mão devagar para ela.

— Vem, te ajudo a levantar. Me leva até o seu carro, eu conserto ele.

Ela não aceitou a minha mão, mas se levantou e caminhou devagar até a frente do bar onde o carro dela estava.

Uma geringonça prata velha estava na calçada com o capô aberto. Eu já tinha passado por ele quando fui atrás dela. Bateria, correia, até o motor. Tudo enguiçado de propósito. Fizeram de tudo para cortarem qualquer chance de ela conseguir arrumar por conta própria para fugir deles.

Ela parou ao lado do carro, abraçando o próprio corpo. Os lábios tremendo, e o narizinho vermelho pelo frio.

Estalei a língua.

— Olha, não tem como consertar o seu carro agora não.

Ela olhou para mim.

— Não, mas...

Eu não devia perguntar o nome dela. Quando damos nome às coisas, nos apegamos. Mas não consegui conter a curiosidade.

— Como você se chama?

— Beatriz... — ela disse, a voz baixa. — Mas os meus amigos me chamavam de Bia.

— Beatriz. — Mantive o nome inteiro, visto que não somos amigos. — Eu sou Isaque. E como eu disse antes, não tem jeito de ajeitar o seu carro hoje. Já está muito tarde. Quer que eu te leve para algum lugar? Tem um hotel safado a uns 20 minutos daqui, é onde eu estou hospedado. Ou se você preferir...

Ela ficou olhando para o carro, para mim. Olhou na direção dos fundos do bar, onde tentaram atacá-la. Mordeu o lábio, indecisa. Olhou de novo para a estrada escura, para mim e disse:

— Eu aceito a carona então. Mas eu não tenho para onde ir.

Puta que pariu.

— Como assim você não tem para onde ir? Para onde você estava indo?

Ela abaixou a cabeça, esfregou uma mão na outra, nervosamente, e olhou para o ponto da estrada de onde provavelmente veio.

— Eu não pensei nisso direito, eu acho.

— Não pensou direito?

Vi os lábios dela tremendo de novo e o olho cheio de lágrima. Passei a mão no rosto.

— Tá, tá bom, não fica nervosa. Pensaremos nisso depois. Primeiro a gente tem que sair daqui. Vem!

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP