Fedor de Medo

Olá, amores!

Escrevam no comentário o que estão achando!

BJKS!

*****

Estendi a mão. Ela olhou para os meus dedos como se fossem uma arma engatilhada. Devagar, com uma hesitação que quase me fez perder a paciência, colocou a mãozinha gelada na minha.

O choque subiu do meu pulso até a nuca. Foi um soco quente. Violento.

Meu lobo uivou tão alto dentro da minha cabeça que precisei trincar os dentes para não deixar o som escapar pela garganta. O pelo do meu braço arrepiou por inteiro. O sangue ferveu nas veias.

Beatriz sentiu também. Ela arregalou os olhos e tentou puxar os dedos de volta.

Segurei firme, sem apertar para não machucá-la. Puxei seu corpo para cima de uma vez.

Um e sessenta de altura, no máximo. A jaqueta amarela ridícula batendo nos joelhos. Ela estava toda suja de lama, encharcada e tremendo tanto que os dentes batiam. Na garupa da moto, sob o vento da estrada, ela congelaria em minutos.

Sem dizer nada, dei de ombros e tirei minha jaqueta de couro pesada. Ela precisava mais daquilo do que eu.

— Tira essa capa molhada.

Ela piscou, assustada.

— N-não... Não precisa...

Ignorei o protesto. Comecei a puxar a jaqueta amarela encharcada dos ombros dela, sem muita paciência.

Beatriz ainda estava em choque. Graças à deusa, não resistiu mais do que o meu humor suportaria. Joguei o pano ensopado dela longe, na lama.

Ela soltou um pequeno suspiro, mas se calou. Apenas puxou o couro da minha jaqueta contra o peito, tentando se aquecer. O material era enorme, pesado e ainda guardava o calor do meu próprio corpo.

— Pronto — falei, seco. — Consegue subir na moto?

Ela assentiu, parecendo uma criança perdida dentro das mangas gigantescas.

Montei na Harley. Estiquei o braço para trás e a puxei para subir na garupa. Ela se acomodou de um jeito totalmente desajeitado.

Quando dei a partida e o motor roncou alto, a garota deu um pulo no banco. Ficou ali, envergonhada, sem encostar direito em mim, segurando de leve na lateral do estofado.

Bufei. Que garota teimosa.

Levei a mão para trás, agarrei os pulsos gelados dela e os puxei com força, forçando seus braços a circularem o meu tronco.

— Segura firme.

Senti os bracinhos finos apertarem a minha cintura. Ela continuava tremendo. Eu não sabia se era de frio, de medo ou dos dois.

MINHA! — rosnou meu lobo na minha mente, finalmente satisfeito e ronronando como um predador que acabou de encurralar a presa.

Aquela humana era uma completa sem-noção. Não tinha planos para passar a noite, não sabia para onde estava indo e tinha confiado em três monstros que poderiam ter rasgado seu corpo ao meio. E agora, mesmo depois do ataque, estava ali, confiando em mim. Um perfeito estranho.

Por mais que a minha intenção não fosse das piores, ela não tinha como saber disso.

— Burra para caralho... — sussurrei contra o vento.

Acelerei. O pneu traseiro cantou na terra úmida, e a neblina espessa engoliu o Bar do Jack.

Eu, que tinha saído de casa com a missão simples de matar um alvo por dez mil, estava terminando a madrugada fugindo com uma humana desconhecida usando as minhas roupas. Ela estava agarrada às minhas costas como se eu fosse a única coisa sólida e segura naquele mundo desabando.

Vinte minutos.

Foi o que prometi a ela. Vinte minutos até a espelunca onde larguei minhas coisas.

Passei direto pela primeira opção.

Motel Cactus. Neon rosa queimado, tinta descascada e um letreiro zumbindo como mosca varejeira. Três caras na porta, encostados numa Hilux velha, fumando.

Não eram humanos. Lobos de baixo escalão. Fedor de uísque vagabundo e sangue velho. Rosnaram mentalmente quando a minha moto cortou o asfalto.

Eu dormiria ali. Já dormi em lugares piores. Já deitei no chão de Oníria com a barriga vazia depois que me expulsaram do clã.

Mas ela não.

Senti as mãos dela apertarem a minha cintura quando os caras nos encararam. Acelerei, deixando aqueles filhos da puta para trás.

Mais dez minutos e achei o segundo. Hotel Beira Estrada. Mesma placa de madeira podre, mesmo estacionamento de terra batida.

A diferença é que, quando puxei o ar, não senti cheiro de lobo, vampiro ou qualquer outra criatura. Só humano, mofo e óleo diesel.

Mais seguro para ela.

Parei a moto devagar. O cascalho estalou embaixo dos pneus. O motor estalava quente sob o vento frio da estrada. Estiquei o braço para trás, oferecendo apoio.

— Desce.

Ela desceu desajeitada. Suas mãos escorregaram na minha jaqueta de couro, que a engolia inteira. Assim que tocou o chão, ela se encolheu. O vento da madrugada estava virando gelo, cortando a pele.

Olhei para o céu. As nuvens pesadas fechavam o horizonte. Ia nevar antes do amanhecer.

Entramos. O fedor de mofo misturado com desinfetante barato de limão estava entranhado no carpete imundo. Uma luz amarela piscava no teto.

Atrás do balcão, um velho ergueu a cabeça de cima de uma revista de caça. Carlão. Ele já tinha me hospedado em outras fugas.

O velho olhou para mim, depois para ela. Os olhos dele pararam na minha jaqueta enorme no corpo miúdo dela. Franziu o cenho, assimilando a cena, e ergueu as sobrancelhas para mim com um sorriso de canto.

Beatriz se encolheu ao meu lado, remexendo os dedos, olhando para todo canto, menos para nós.

— Quarto simples — ordenei.

Carlão tateou embaixo do balcão, procurando a chave enferrujada. Virei-me para ela.

— Que quarto você quer?

Ela continuou torturando as próprias mãos. O que havia de tão difícil em escolher a droga de um quarto?

— Q-quanto é a diária? — a voz dela quase não saiu.

Carlão apontou com o queixo para a placa de acrílico riscada atrás dele: R$ 120.

Ela olhou. Ficou branca na hora, prendendo a respiração. Dei um passo em sua direção, estreitando os olhos.

— Que foi? Não tem dinheiro?

Ela abaixou a cabeça, a voz sumindo.

— Não... eu... eu achei que ia viajar e dormir no meu carro.

Puta que pariu.

— Me dá um quarto com duas camas, Carlão.

O velho apoiou os cotovelos no balcão, com aquela cara de quem ia sacanear.

— Tem certeza que quer duas camas, Isaque? Tenho a suíte nupcial... cama redonda, espelho no teto...

— Cala a boca e me dá a chave. Estou cansado.

Ele jogou o metal. Peguei no ar. Olhei para a garota.

— Olha aqui, eu vou pagar esse quarto, mas vai ser um só para nós dois. Você já me fez perder dez mil hoje. Não vou quebrar a minha banca por você.

Ela assentiu, engolindo em seco.

Caminhamos pelo corredor fedorento. Lâmpadas zumbindo, papel de parede descolando pela umidade. No meio do caminho, lembrei de um detalhe.

— Você não tinha nada no carro que quisesse trazer?

— Não — ela respondeu, apertando a bolsa surrada contra o peito. — Tudo que eu tenho está aqui.

Entramos. O espaço era minúsculo. Ar abafado, cheiro de cigarro velho entranhado na cortina marrom. Havia duas camas de solteiro com cobertores finos cor-de-laranja, uma TV de tubo em cima de uma cômoda lascada e uma porta de madeira oca que dava para o banheiro.

Apontei para ela.

— Pode usar primeiro. Fique a vontade, tem tranca. Não se preocupe, não sou como os pervertidos daquele bar.

Hesitante, ela entrou. O estalo da tranca ecoou logo em seguida.

O som do chuveiro começou a chiar. Passei a mão pelo rosto, exausto. Meu corpo doía, mas o pior era o lobo. Minha fera arranhava o fundo da minha mente, inquieta, farejando o ar, querendo derrubar aquela porta oca emarcar o que era dele.

Para tentar acalmar o bicho, peguei uma cerveja no frigobar barulhento e desabei na cama. Fiquei encarando o teto, calculando como alcançaria o alvo que me escapou hoje à noite.

Perdi a noção do tempo. O estalo da porta me despertou.

Beatriz saiu usando uma calça jeans velha e uma camisa de manga comprida. O cabelo úmido caía pelos ombros, e ela usava a toalha fina do hotel para secar as pontas. Estava de rosto limpo, com a ponta do nariz vermelha pelo frio.

Ela se sentou na beira da outra cama. Silêncio absoluto, quebrado apenas pelo motor do frigobar.

Fiquei encarando-a, intrigado. Quem diabos era aquela garota? O que fazia sozinha na estrada àquela hora? Ela roía as unhas, olhando para o chão, mas me vigiava de soslaio.

Eu conseguia ouvir o ritmo frenético do seu coração. O som martelava nos meus ouvidos de lobo.

— O que houve? — perguntei, a voz grave cortando o quarto. — Quer falar alguma coisa?

Ela ergueu os olhos.

— Você... não vai tomar banho também?

Franzi o cenho, erguendo a garrafa de cerveja.

— Vou mais tarde. O que isso tem a ver com você?

Ela não respondeu. Em vez disso, levantou-se.

Caminhou até mim com passos curtos, hesitantes, mas o olhar fixo no meu tinha uma determinação cortante. Ela parou perto demais. O cheiro da pele limpa e fresca, sem a podridão daquele bar, invadiu minhas narinas.

O lobo dentro de mim rugiu, exigindo controle.

Beatriz colocou as mãos nos meus ombros. Ela tremia tanto que parecia prestes a saltar de um penhasco. Então, jogou a perna sobre as minhas e sentou-se no meu colo.

Fiquei imóvel, os músculos tensos, intrigado com o que ela pretendia fazer.

Suas mãos deslizaram dos meus ombros para o meu peito. Respirei fundo, sentindo a essência dela dominar o quarto e a minha mente. Instintivamente, minhas mãos agarraram sua cintura, puxando seu corpo contra o meu.

Mesmo com nossas roupas nos separando, senti-la em cima de mim fez o meu pau latejar.

Colei o rosto na curva do seu pescoço e inspirei fundo.

Mas, ao inspirar o ar de sua pele, travei. O calor nas minhas veias congelou.

Não havia o cheiro doce de excitação vindo da pele dela. Não havia desejo.

Só havia o fedor acre e nauseante do medo.

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