Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnquanto isso, no escritório do apartamento, envolto pela penumbra da madrugada curitibana que se infiltrava pelas janelas panorâmicas, Uriel refazia a agenda de Eliot, o ar carregado de um silêncio opressivo, interrompido apenas pelo ticar distante de um relógio, os dedos ágeis de Marcel no teclado e o sussurro da chuva fina batendo contra o vidro. Uriel sentia uma dedicação incansável pulsando em seu peito, como um guardião exausto mas inabalável, impulsionado por uma lealdade visceral que o fazia priorizar cada detalhe como se fosse uma barreira contra o caos. Ao mesmo tempo, Marcel usava o notebook para acessar as informações da polícia e do secretário de segurança, uma frustração crescente o consumindo, temperada por uma excitação astuta ao navegar pelos dados, como um caçador solitário farejando presas invisíveis na escuridão digital. Ele empregava um software de vanguarda, criado por Eliot e por si mesmo, capaz de penetrar qualquer rede sem deixar vestígios, embora reservassem tal recurso apenas para sondagens cruciais, uma restrição que intensificava sua sensação de propósito ético em meio ao dilema moral.
Uriel cancelou todos os compromissos e enviou uma mensagem para Isabella Vermont, solicitando que comparecesse ao One Batel exatamente às oito horas para a entrevista, um alívio sutil o invadindo ao concluir a tarefa, como se cada ação organizada dissipasse um pouco da ansiedade que o corroía pela segurança de seu senhor. Quando terminou, aproximou-se de Marcel e indagou, uma curiosidade afiada misturada a uma impaciência controlada. - E então? Conseguiu algo relevante? Marcel clicou em uma pasta com os relatórios das cenas dos crimes, uma satisfação sombria o percorrendo, como se desvendasse segredos proibidos que alimentavam sua determinação implacável. - Isso vai ser útil para você. O relatório incluía fotos e os locais onde os corpos foram localizados, todos no Parque Barigui, em áreas distintas, sob o véu noturno da cidade onde a névoa da madrugada agora se adensava, transformando os caminhos arborizados em labirintos fantasmagóricos, com o lago refletindo luzes tremulantes como olhos vigilantes na escuridão. Uriel examinou as imagens e os pontos assinalados pela perícia, uma indignação fervente o assolando, mesclada a uma empatia crua pelas vítimas, como se cada detalhe grotesco ecoasse perdas pessoais que ele lutava para esquecer, e disse. - Imprima isso para mim, Marcel. Vou conduzir minha própria análise nesses locais. Marcel imprimiu as fotos e os relatórios, uma concentração feroz o dominando enquanto retornava a vasculhar por indícios adicionais nos sistemas da delegacia encarregada do inquérito, o brilho azulado da tela iluminando seu rosto com uma frieza espectral, amplificando sua sensação de isolamento na busca incessante por verdade. Como não conseguia dormir, Eliot voltou ao quarto para verificar Eiva, uma ternura avassaladora o envolvendo, como se o simples ato de velar por ela fosse um escudo contra as trevas que o assombravam. Após um momento ao lado da filha, ele se ergueu devagar da cama arrumando o cobertor sobre ela, tocou com o indicador um entalhe na cabeceira de madeira, representando um filtro dos sonhos, e um fulgor dourado se propagou pela figura, evocando uma paz efêmera no quarto imerso na quietude da madrugada, onde o som da chuva batendo na janela dava um ar de conforto. Ele suspirou e murmurou mais para si mesmo do que para a filha adormecida, uma resolução dolorosa o atravessando, como um pai atormentado por promessas que jurava cumprir a qualquer custo. - Como eu disse, meu amor... ele não pode te ferir. Ele deixou o quarto de Eiva e dirigiu-se ao seu, trocou de roupa por algo mais casual e prosseguiu para sua sala reservada, uma expectativa tensa o impulsionando, como se adentrasse em um reino de mistérios que o atraía e repelia ao mesmo tempo. Na porta, traçou um selo com o dedo, seguindo uma trilha etérea, e o símbolo reluziu, liberando o trinco para sua entrada. Ali se encontrava o aposento arcano, repleto de tomos, grimórios, pergaminhos e volumes vetados sobre demonologia, obras que a humanidade ignora por completo, dispostos em prateleiras antigas que exalavam um cheiro de pergaminho envelhecido e segredos sepultados, sob a luz tênue de lâmpadas que imitavam chamas eternas. Eliot trancou a porta às suas costas e rumou aos textos ancestrais de procedência obscura, buscando o intitulado "Akaran, o demônio da traição", uma curiosidade voraz misturada a um receio primal o consumindo, como se cada página virada desenterrasse forças que ameaçavam devorá-lo. Longe dali, um carro parou no estacionamento do Parque Barigui, envolto pela madrugada curitibana que se estendia como um sudário negro e úmido, com a névoa densa serpenteando entre as árvores altas, cujas folhas gotejavam água recente de uma garoa intermitente, e o lago próximo refletindo o brilho fraco de postes distantes, criando uma atmosfera de isolamento opressivo onde o silêncio era quebrado apenas pelo sussurro do vento frio carregando o aroma de grama molhada e terra fértil. O casal discutia no interior do veículo quando algo despencou sobre o teto, silenciando-os de imediato, eles ergueram os olhares alarmados para cima, uma paralisia súbita os dominando, marcada por um pavor primal que acelerava seus batimentos cardíacos, como se o instinto os alertasse para um perigo ancestral. Um trovão estrondou, ecoando como rochas colossais despencando no firmamento, fazendo-os pular dentro do carro, uma onda de terror visceral os invadindo, misturada a uma vulnerabilidade crua que os fazia sentir expostos e insignificantes perante a fúria da natureza. O par se fitou, e o homem gesticulou para abrir a porta, mas a mulher o reteve pelo braço, impedindo-o, uma ansiedade desesperada a consumindo, impulsionada por um pressentimento afiado de que sair significaria o fim, como se seu toque fosse a última âncora de segurança em um mundo desmoronando. Nesse instante, um ruído metálico invadiu o automóvel, garras atravessaram o teto e começaram a dilacerá-lo como se fosse mera folha frágil, o barulho ensurdecedor os obrigando a cobrir os ouvidos, uma agonia auditiva os assolando, junto de um desespero crescente que os isolava em um casulo de pânico. Ao sentirem a chuva salpicar sobre si, removeram as mãos e ergueram os olhos para o alto, onde uma figura distorcida, reminiscentes de um rabisco infantil macabro, sorria exibindo presas desiguais, aguçadas e cortantes, um fedor de pétalas apodrecidas sobrepujando o odor da precipitação e do solo encharcado, evocando uma náusea profunda que os fazia questionar a realidade, como se o cheiro carregasse memórias de perdas irreparáveis. Quando a boca se escancarou, o casal sentiu o ar fugir de seus pulmões, um sufocamento emocional os dominando, como se cada inspiração falhada representasse o colapso de suas esperanças mais íntimas. - Promessas quebradas… o amor de vocês não passa de promessas quebradas... A voz soava melíflua e pegajosa, tão suave que lacerava, uma doçura perversa que os enchia de um pavor atordoante, como se penetrassem em suas almas e expusessem fragilidades ocultas. As pernas do homem vacilaram, o corpo da mulher se petrificou, uma imobilidade absoluta os prendendo, impulsionada por um horror paralisante que os tornava meros espectadores de seu destino. A entidade se elevou, ao se deslocar, seus passos ressoavam como ramos se partindo, cada gesto árido e pausado, posicionando-se sobre o capô frente ao casal congelado. Uma de suas garras alongadas transpassou o tórax do homem. O estalo das costelas reverberou no ambiente, o homem soltou um berro engasgado. Ele percebeu, o homem registrou cada tecido se rompendo, cada terminação nervosa inflamando em agonia, antes de avistar seu próprio coração palpitando nas palmas esqueléticas da criatura. A entidade sorriu, a bocarra vasta e assimétrica se distendeu em um sorriso repulsivo, e então, aos olhos da presa, inseriu o órgão extirpado no vazio do próprio peito, comprimindo-o contra o coração de pergaminho que batia languidamente. No lugar do músculo autêntico, no tórax exposto do homem, perdurava apenas um coração de papel imundo, plissado de modo bizarro, como uma zombaria sádica. A mulher tentou clamar, mas a treva a devorou por completo. Ali, nas sombras do estacionamento do Barigui, persistia somente um veículo com o teto escancarado como uma conserva rasgada, e em seu interior um cadáver masculino desfigurado, com pupilas cravadas no nada, a boca escancarada em um lamento silente e um pavor inefável gravado em sua expressão.






