ISABELLA VERMONT

ISABELLA VERMONT

Eu estava muito nervosa, eu procurei emprego por toda a cidade e não imaginei que conseguiria algo. Eu estava sem esperanças e o dinheiro que eu tinha aos poucos estava se esvaindo, eu não sabia quanto tempo mais ainda duraria. Quando eu vi o anúncio para ser babá uma chama se acendeu em meu coração, como uma luz no fim do túnel. Claro, eu sabia exatamente o tipo de coisa que poderia estar me esperando no fim desse caminho, mas eu estava disposta a seguir por ele, tudo o que eu precisava fazer era deixar o meu segredo escondido e nada sairia do controle.

Eu fiquei apreensiva de não conseguir esse trabalho, provavelmente outras pessoas se candidataram para a vaga, pessoas com um currículo e qualificações melhores que as minhas. “E se eu não conseguir esse emprego? O que vai ser de mim?”, pensei.

- Vamos, Isabella, não fique pensando tão negativo assim. - falei baixo comigo mesma.

Eu havia mandado o meu currículo e fui sincera em tudo o que coloquei, tudo o que eu não preciso agora é entrar em um emprego somente por qualificações falsas que, eu provavelmente seria pega no ato. Passei em frente a uma vitrine e vi uma roupa linda, através do reflexo no vidro eu pude ver as minhas roupas e não gosto muito delas, estão bem velhas, com manchas de desgaste e confesso que até alguns remendos em lugares menos visíveis.

- É… se a roupa for o fator determinante para conseguir esse emprego, tenho certeza de que eu serei descartada assim que me virem. Isso se eu sequer for chamada para essa bendita entrevista. - pensei em voz alta.

Eu não queria voltar para o casebre onde eu estava morando, ficar vagando nas ruas era muito melhor, mesmo que eu visse coisas que não poderia comprar ou sentisse inveja das famílias que se juntavam para uma refeição ou apenas conversarem no parque, não gritar a respeito, não quer dizer que eu não gostaria de ter tudo isso.

O homem que eu chamava de pai, não agia como tal. Ele e a esposa me adotaram quando eu era ainda uma bebê. Segundo eles, eu fui deixada em sua porta com nada além da roupa do corpo. Cresci com amor e carinho da parte deles, mas quando a minha mãe adotiva morreu, o meu pai morreu junto com ela. Ele não era mais o mesmo, ficava sempre sentado na velha poltrona que havia em casa segurando um retrato antigo de quando os dois se casaram, passava noites a fio conversando com aquela foto e não lembrava que mesmo que mamãe não estivesse mais viva, eu estava… eu precisava do seu amor e carinho, eu também estava sofrendo.

Não demorou para que papai fosse com ela, sua dor era tanta que ele não suportou viver sem o seu amor de adolescência. Antes de morrer, ele finalmente me olhou e falou comigo, dizendo que tudo o que eu precisaria dali em diante estava em uma pequena caixa no guarda-roupa da mamãe, o mesmo que, sempre que eu chegava perto, ele não deixava abrir. Eu achei que ele estava estranho por conta da morte dela, mas agora vejo que há muito mais sobre isso do que eu pensei.

Lembro-me de que eu fiquei sentada olhando para as portas do guarda-roupa por dias sem conseguir abri-lo. Quando finalmente tive coragem, soube que eu era adotada e que eu deveria me cuidar, mamãe era uma bruxa e gastou até o último resquício de seu poder para me manter segura. Ela usava seus dons para me esconder, e quando estava perto da morte usou o que lhe restava de magia para criar algo para me ajudar na minha jornada pela vida sem ela. Papai sabia de tudo e assim como ela, queria me proteger, mas entendo que ao perder a sua amada uma parte dele foi embora com ela. Agora entendo o jeito que ele agia comigo depois que mamãe morreu.

Ela me deixou uma carta explicando tudo para mim, que eu não poderia deixar que me encontrassem e que eu deveria ficar o mais longe possível de seres sobrenaturais e pessoas que tivessem envolvimento com isso. Eu sabia por quê… se me encontrarem certamente vão querer usar o meu poder somente.

Me comprometi a fazer valer todo o esforço dos meus pais, eu não tinha raiva por terem mentido para mim quando tudo o que fizeram foi para me proteger. Com preocupação saindo dos meus poros, me sentei em um banco na praça, tocando o colar com um pingente de crucifixo que meus pais me deixaram, o único bem que mantinha a mim e ao meu poder ocultos de quem quer que estivesse me caçando.

Olhei para os lados, eu deveria ir para casa, não saberia de nada sobre o trabalho por enquanto, ficar exposta na rua não me ajudaria em nada. Foi pensando nisso que corri novamente para o casebre em que agora eu vivia, rodeada por pó e móveis velhos, um lugar frio e com a ausência de calor humano, de amor. Desde que os meus pais morreram é assim que tenho vivido, morando em uma casa no meio do nada, não tinha amigos ou qualquer pessoa que pudesse ser um potencial inimigo disfarçado. Vivia sozinha, sem confiar em ninguém, sem deixar ninguém entrar.

Respirei fundo ao entrar em casa, o cheiro de mofo reside no ambiente. Caminhei até a minha cama improvisada e me sentei, repassando o que fazer em seguida. Não tenho muito o que comer e não posso gastar, eu não sei se conseguirei o emprego e não tenho muito para me manter. Pensando nisso eu fui até o armário, peguei um pacote de miojo, deixei sobre a mesa e fui tomar um banho. Quando terminei, preparei o meu macarrão e fui para a cama, precisava descansar e não me importo que ainda seja cedo para me deitar. Dormindo eu não penso tanto no que eu poderia ter e não tenho, não fico lembrando dos meus pais e chorando sozinha.

Quando é por volta de três da manhã, acordo em um sobressalto, um sonho tão real que me custa a saber se eu sonhei ou não. Eu podia ver uma garotinha no parque, ela estava tão feliz… mas logo ela estava com medo e em desespero. Eu gostaria muito de abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, mas infelizmente eu não consegui falar com ela. Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi o som de um rosnado e logo fui despertada bruscamente por olhos vermelhos que avançaram sobre mim sem aviso.

Não preciso dizer que não dormi mais durante o resto da noite, fiquei sentada repassando o sonho que tive, nada tira da minha cabeça que aquilo não foi apenas um sonho qualquer. Peguei o celular para ver a hora, precisava levantar e continuar a busca por trabalho, eu tinha que explorar todas as minhas opções. Eram cinco da manhã e eu vi que em minha caixa de correio havia a confirmação para a entrevista daqui a algumas horas.

Fiquei muito feliz, eu logo me levantei esquecendo do sonho, eu precisava desesperadamente me cuidar e me preparar, essa entrevista era o bote salva-vidas que eu tanto busquei nesse mar em que eu estava à deriva. Fui tomar o meu banho, repassando as possíveis perguntas que me fariam para que eu pudesse estar despreocupada e preparada. Coloquei água na banheira e comecei o meu banho relaxante, definitivamente eu precisaria desse momento, algo me diz que minha vida mudará para sempre depois de hoje.

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