POV — Mayla
O funeral foi realizado três dias depois.
Sem corpo.
Sem uma despedida de verdade.
Apenas uma urna vazia diante de flores brancas e fotografias de Daniel sorrindo para pessoas que pareciam não entender como alguém podia desaparecer de uma hora para outra.
Eu também não entendia.
Naquela manhã, eu ainda esperava que meu telefone tocasse.
Que alguém dissesse que haviam encontrado Daniel.
Que ele estava ferido.
Que estava em algum hospital.
Qualquer coisa.
Mas os dias passaram.
As buscas foram encerradas.
A polícia tratou o caso como um acidente com provável vítima fatal.
O carro havia sido encontrado no rio.
As condições da pista, a chuva e os danos no veículo eram suficientes para explicar o ocorrido.
Sem corpo, não havia certeza absoluta.
Mas havia uma conclusão.
Daniel estava morto.
Eu não consegui dizer essas palavras.
Nem naquele dia.
Nem nos dias seguintes.
Fiquei diante da fotografia dele durante o funeral, usando um vestido preto que parecia pesado demais para o meu corpo.
As pessoas se aproximavam.
Apertavam minha mão.
Diziam coisas que eu mal escutava.
"Meus sentimentos."
"Ele era um homem maravilhoso."
"Você precisa ser forte."
Eu odiava aquela última.
Eu não queria ser forte.
Queria meu marido.
Quando todos começaram a ir embora, permaneci diante da fotografia.
— Você disse que voltaria — sussurrei.
Minha garganta fechou.
— Eu ainda estou esperando.
Uma mão tocou meu ombro.
Victor.
Olhei para ele.
O rosto do irmão de Daniel estava abatido.
Pela primeira vez desde que o conheci, não havia arrogância em seus olhos.
Apenas dor.
— Mayla...
— Não precisa dizer nada.
Ele assentiu.
Ficamos em silêncio.
Até que um dos advogados da família se aproximou.
— Senhora Layer, precisamos conversar sobre a empresa.
Eu o encarei.
Naquele momento, alguma coisa dentro de mim morreu junto com a última esperança de encontrar Daniel.
— Hoje não.
— Eu entendo, mas existem decisões urgentes relacionadas à sucessão.
Victor olhou para o advogado.
— Dê alguns dias.
O homem hesitou.
— Senhor Victor, o conselho já está pressionando.
Fechei os olhos por um instante.
Daniel tinha acabado de desaparecer.
E eles já estavam discutindo quem ficaria com o que ele deixou.
Abri os olhos.
— Amanhã.
O advogado pareceu surpreso.
— Senhora?
— Amanhã eu vou à empresa.
Victor me observou.
— Mayla, você não precisa fazer isso agora.
Olhei para ele.
— Preciso.
Porque, naquele momento, percebi uma coisa.
Daniel havia construído aquele império durante anos.
Eu não deixaria que, enquanto eu chorava por ele, outras pessoas começassem a desmontá-lo.
---
Na manhã seguinte, entrei na Layer Capital pela primeira vez sem Daniel.
Os funcionários pararam para me olhar.
Alguns abaixaram a cabeça.
Outros murmuraram condolências.
Eu atravessei o saguão sem dizer nada.
O elevador subiu até o último andar.
Quando as portas se abriram, encontrei Nancy esperando.
Ela segurava uma pasta.
— Você não precisava vir.
— Precisava.
Ela me olhou por alguns segundos.
— Está pronta?
Olhei para a porta do antigo escritório de Daniel.
Não.
Eu não estava pronta.
Talvez nunca estivesse.
Mas entrei.
A mesa dele continuava exatamente como havia deixado.
A caneta.
Os documentos.
Uma fotografia nossa.
Tudo no lugar.
Como se ele pudesse voltar a qualquer momento.
Passei os dedos pela mesa.
Então respirei fundo.
— Vamos trabalhar.
Nancy abriu a pasta.
— O conselho quer uma reunião extraordinária.
— Marque.
— E existe outra questão.
Levantei os olhos.
— Victor.
Meu maxilar endureceu.
Nancy assentiu.
— Ele acredita que, como irmão de Daniel e segundo maior acionista, deveria assumir o controle temporariamente.
Olhei novamente para a fotografia do meu marido.
Depois para Nancy.
— Temporariamente?
— É o que ele está dizendo.
Fechei a gaveta da mesa.
— Então vamos descobrir exatamente o que ele pretende.
Naquele dia, eu não me tornei CEO porque queria.
Eu me tornei porque Daniel não estava mais ali.
E se o mundo esperava que uma viúva de vinte e cinco anos se escondesse atrás do luto...
teria uma grande decepção.