O domingo amanheceu lento demais para quem não conseguira dormir.
Helena permaneceu deitada por longos minutos, encarando o teto alto do quarto, como se o branco absoluto pudesse apagar a lembrança insistente da noite anterior. Não adiantava. Bastava fechar os olhos para sentir de novo a proximidade excessiva, o calor que não era apenas físico, a respiração de Rodrigo misturada à sua — tão próxima que ainda parecia ecoar em sua pele.
O quase beijo.
O quase sempre era pior do que o erro consumado. O erro se resolvia em culpa ou arrependimento. O quase permanecia suspenso, aberto, exigindo respostas que ela não queria formular.
Levantou-se sem pressa, ainda vestindo o silêncio da madrugada. Preparou um café que mal tocou nos lábios e percorreu a mansão com passos lentos, como se cada cômodo guardasse um vestígio da confusão que carregava. Tentou se distrair com pequenos rituais — organizar papéis, folhear revistas antigas, abrir janelas — qualquer coisa que não a obrigasse a pensar nele