Mundo de ficçãoIniciar sessão— Anne? — Patrícia chamou, trazendo-a de volta ao corredor.
Ela piscou, mas levou mais um instante para conseguir desviar os olhos de Oliver.
— Vocês já se conhecem? — Patrícia perguntou, alternando o olhar entre os dois.
Anne abriu a boca, embora não soubesse qual resposta poderia oferecer. Dizer que conhecia Oliver parecia pouco. Dizer que não o conhecia seria mentira. O homem à sua frente carregava o rosto de alguém que fizera parte de quase toda a juventude dela, mas sua vida atual era um território completamente desconhecido.
Oliver foi quem rompeu o silêncio.
— Nós estudamos juntos.
A resposta atingiu Anne com uma frieza inesperada. Era verdade, mas reduzia anos de amizade, promessas e perguntas sem resposta a algo pequeno demais para exigir explicações.
Patrícia sorriu, alheia ao peso escondido naquelas palavras.
— Que coincidência! Então as apresentações ficam mais fáceis. Oliver representa a diretoria da rede e vai acompanhar as decisões relacionadas ao evento.
— Podemos começar a reunião — disse ele.
A formalidade de sua voz irritou Anne mais do que deveria. Oliver desaparecera durante dez anos e agora falava como se os dois tivessem se encontrado por acaso depois de algumas férias escolares.
Ele indicou a sala, mas Anne não se moveu de imediato.
— Claro — respondeu, forçando a própria voz a permanecer firme. — Foi para isso que eu vim.
Patrícia pareceu perceber que havia alguma coisa estranha entre os dois, embora não soubesse identificar o quê.
— Vou buscar café para vocês. Oliver, continua tomando com um pouco de leite?
— Sim, obrigado.
Patrícia voltou-se para Anne.
— E você?
Antes que ela respondesse, Oliver falou:
— Cappuccino com um pedaço de chocolate meio amargo.
Anne virou o rosto para ele.
A resposta saiu com tamanha naturalidade que doeu mais do que deveria. Oliver ainda se lembrava da bebida que ela costumava pedir. Guardara um detalhe insignificante enquanto deixava todas as perguntas importantes sem resposta.
— Sem chocolate — corrigiu Anne, sustentando o olhar dele. — Hoje eu prefiro sem.
Algo mudou na expressão de Oliver.
— Está bem — disse ela. — Volto em um instante.
Anne entrou na sala antes que ele pudesse oferecer passagem e retomou a cadeira que ocupava anteriormente. Oliver fechou a porta e se sentou do outro lado da mesa, mantendo entre os dois uma distância que parecia muito maior do que a largura do móvel.
Nenhum deles falou.
Anne apoiou as mãos sobre o tablet para impedir que Oliver percebesse o leve tremor em seus dedos. Havia perguntas pressionando sua garganta, mas aquele não era o lugar onde passara tantos anos imaginando exigir respostas. Não faria isso dentro de uma sala de reuniões.
Oliver inclinou o corpo para a frente.
— Por onde você quer começar?
A cautela em sua voz tornou a pergunta maior do que deveria. Ele não falava apenas do evento. Esperava que Anne escolhesse qual dos dois assuntos teria coragem de colocar sobre a mesa.
Ela ergueu o queixo.
Se Oliver pretendia esconder-se atrás do trabalho, Anne não lhe daria o alívio de demonstrar o quanto aquele encontro a havia abalado.
Desbloqueou o tablet e abriu as anotações.
— Preciso da lista de restrições alimentares dos convidados.







