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Capítulo 5 — Como se Nada Tivesse Acontecido

Oliver demorou um instante para responder.

— Vou providenciar a lista.

Antes que pudesse continuar, Patrícia retornou com os cafés. Colocou a xícara de Oliver diante dele e entregou a Anne o cappuccino sem chocolate, junto de um pequeno recipiente com açúcar. A alteração parecia insignificante, mas Oliver acompanhou o gesto em silêncio, como se ainda estivesse tentando aceitar que algumas coisas haviam mudado enquanto ele estivera longe.

— Precisam de mais alguma coisa? — perguntou Patrícia.

— Por enquanto, não — respondeu Oliver. — Obrigado.

Ela saiu, deixando-os novamente sozinhos.

Anne levou a xícara aos lábios, embora não estivesse com vontade de beber. O calor da porcelana contra seus dedos ajudava a disfarçar o leve tremor que ainda não conseguira controlar.

— Sobre as sobremesas — Oliver prosseguiu, retomando o tom profissional —, a diretoria prefere contratar uma empresa local para auxiliar na produção. O Raiz continuará responsável pela escolha e pela apresentação, mas não queremos sobrecarregar a sua cozinha na noite do evento.

A explicação fazia sentido. Pelo número de convidados, dividir parte da produção permitiria que Anne mantivesse o padrão dos pratos sem exigir mais da equipe do que ela poderia entregar.

— Vocês já têm alguma empresa em mente?

Oliver hesitou antes de responder:

— A Flor de Sal ainda existe?

Anne ergueu os olhos do tablet. Não esperava que ele se lembrasse daquela doceria. Quando eram mais novos, os dois costumavam parar diante da vitrine depois das aulas, mesmo quando não tinham dinheiro para comprar nada.

— Existe. Cresceu bastante nos últimos anos.

— Você confia no trabalho deles?

— Confio, mas preciso verificar se conseguem atender à quantidade necessária sem comprometer a qualidade. Também quero conversar com a proprietária antes de colocar o nome da doceria na proposta.

Oliver assentiu.

— Faça isso. Se você aprovar, seguimos com eles.

A facilidade com que ele aceitou sua avaliação a incomodou por motivos que Anne não soube identificar. Talvez porque aquela confiança parecesse familiar demais. Oliver sempre escutara sua opinião com atenção, mesmo quando os dois eram jovens demais para tomar decisões que realmente importassem.

Ela afastou a lembrança e voltou às anotações.

Durante pouco mais de uma hora, discutiram o número de convidados, o horário de montagem do salão, a quantidade necessária de garçons e a estrutura que o hotel disponibilizaria para a equipe do Raiz. Anne apresentou algumas ideias iniciais, mas deixou claro que só definiria os pratos depois de conhecer as restrições alimentares e visitar o espaço onde o evento aconteceria.

Os dois se mantiveram dentro dos limites seguros do trabalho. Ainda assim, havia uma cautela incômoda em cada pausa. Anne escolhia as palavras antes de pronunciá-las, e Oliver parecia medir cada pergunta para não tocar em nada que pudesse conduzi-los ao passado.

Patrícia bateu à porta quando Anne terminava de anotar as dimensões da cozinha de apoio.

— Desculpe interromper. Oliver, o motorista perguntou se o compromisso das cinco continua confirmado.

Ele consultou o relógio.

— Continua. Diga que já estou descendo.

Patrícia assentiu e fechou a porta.

Oliver reuniu os documentos espalhados diante dele, mas não se levantou imediatamente.

— Ainda precisamos conversar sobre a visita ao hotel e a degustação do menu. Posso entrar em contato com você?

— Patrícia pode cuidar dos agendamentos — respondeu Anne. — Assim que eu receber a lista de restrições, preparo uma proposta e envio diretamente para ela.

A recusa foi clara. Oliver permaneceu com os documentos nas mãos, observando-a como se procurasse uma abertura que Anne não pretendia oferecer.

— Tudo bem.

Oliver levantou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, voltou-se para Anne, como se ainda considerasse dizer alguma coisa. A hesitação durou pouco. Ele abriu a porta, deixou a sala e seguiu pelo corredor.

Anne acompanhou o som dos passos até que desaparecessem. Somente então soltou o ar devagar e permitiu que os ombros relaxassem.

Guardou o tablet na bolsa, recolheu o celular e conferiu a mesa para se certificar de que não havia esquecido nada. Quando saiu, encontrou Patrícia esperando por ela.

— Peço desculpas pelo atraso da reunião — disse ela enquanto as duas caminhavam em direção à recepção. — Tivemos um problema com um dos representantes e isso acabou nos atrasando.

— Não se preocupe. Conseguimos adiantar o que era necessário.

Anne não a culpava pela demora. Depois de tudo o que acontecera naquela sala, os trinta minutos de espera haviam se tornado a parte menos importante daquela tarde.

— Podemos pedir que um dos carros da empresa leve você ao restaurante ou até a sua casa — ofereceu Patrícia.

— Obrigada, mas prefiro caminhar um pouco.

Patrícia não insistiu. Acompanhou-a até a recepção, agradeceu por ter aceitado o convite e prometeu enviar as informações que faltavam ainda naquele dia.

Assim que deixou o prédio, Anne respirou profundamente. O ar da rua pareceu frio depois de tanto tempo dentro da sala, mas não foi suficiente para afastar a sensação de que ainda carregava a presença de Oliver consigo.

Ela começou a andar sem decidir para onde iria.

Dez anos sem uma ligação, uma mensagem ou qualquer explicação. Então ele reaparecia usando um terno escuro, ocupando um cargo importante e falando sobre fornecedores como se fossem apenas dois profissionais reunidos por acaso.

Como se não houvesse deixado uma cadeira vazia e uma vida inteira de perguntas atrás de si.

Anne tentou encontrar alguma justificativa para o silêncio dele durante a reunião. Talvez Oliver tivesse sido surpreendido demais para falar. Talvez acreditasse que aquele não fosse o lugar adequado. Nenhuma possibilidade, porém, explicava a facilidade com que ele havia reduzido tudo o que viveram a uma frase.

“Nós estudamos juntos.”

Ela apertou o passo.

— Estudamos juntos — murmurou, sentindo a irritação crescer. — Foi só isso?

— Anne!

A voz veio de algum ponto atrás dela, mas se misturou ao ruído dos carros. Anne continuou andando.

— Anne, espere.

Dessa vez, reconheceu quem a chamava.

Parou, mas não se virou imediatamente. Ouviu passos se aproximando e sentiu o corpo inteiro se preparar para um confronto que passara anos imaginando.

Oliver surgiu ao seu lado, respirando um pouco mais depressa por ter precisado alcançá-la. O motorista o aguardava alguns metros atrás, junto a um carro escuro parado diante do prédio.

— Eu te chamei duas vezes — disse ele.

— Eu não ouvi.

Não era exatamente verdade, mas Anne não se importou.

Oliver abriu a boca e tornou a fechá-la. Longe da sala de reuniões, a segurança profissional que sustentara durante todo o encontro parecia ter desaparecido. Ele passou a mão pela nuca, desviou os olhos para a rua e demorou mais do que deveria para encontrar as palavras.

Anne reconheceu o gesto. O tempo modificara muita coisa, mas não a maneira como ele se comportava quando estava nervoso.

— O que você quer, Oliver?

Ouvir o nome pronunciado por ela pareceu atingi-lo.

— Posso te levar para casa?

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