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Capítulo 3 — A Cadeira Vazia.

Durante alguns segundos, Anne permaneceu imóvel junto à porta, com uma das mãos ainda apoiada na maçaneta. O corredor continuava diante dela, Patrícia estava a poucos passos e alguém falava ao telefone mais adiante, mas tudo pareceu perder a nitidez ao redor daquele homem.

Dez anos.

Havia dez anos que Anne não ouvia a voz dele, não encontrava aqueles olhos e não sabia sequer em que parte do mundo Oliver estava. Passara tempo demais tentando imaginar como seria revê-lo. Em algumas dessas fantasias, exigia respostas. Em outras, fingia não reconhecê-lo e seguia adiante sem lhe conceder uma única palavra. Também houve uma época em que acreditou que bastaria encontrá-lo para compreender por que ele havia desaparecido.

Agora que Oliver estava diante dela, nenhuma dessas versões servia.

O tempo modificara seu rosto. Os traços juvenis haviam se tornado mais firmes, os ombros estavam mais largos e havia uma seriedade em sua expressão que Anne não se lembrava de ter visto antes. Ainda assim, restavam detalhes que os anos não conseguiram apagar: a pequena inclinação da cabeça, o modo atento de observar quem estava à sua frente e aqueles olhos castanhos que ela conhecera quando os dois ainda eram crianças.

Oliver também não disse nada.

A surpresa atravessou o rosto dele antes de ser contida, mas Anne percebeu. Viu seus ombros enrijecerem e a respiração ficar presa por um instante. Ele não esperava encontrá-la ali.

Ou talvez esperasse e apenas não soubesse o que fazer quando o momento chegasse.

A dúvida fez alguma coisa dolorosa se mover dentro dela.

A última imagem que guardava de Oliver não combinava com o homem de terno escuro parado no corredor. Em sua memória, ele ainda tinha dezoito anos, usava a beca aberta sobre a roupa da formatura e mantinha as mãos escondidas nos bolsos porque nunca sabia o que fazer com elas quando estava nervoso.

O pátio da escola estava tomado por familiares, colegas e professores. Havia celulares erguidos por todos os lados, diplomas enrolados nas mãos e abraços interrompendo qualquer tentativa de caminhar em linha reta. Anne ainda se lembrava da euforia daquela tarde. Tinha concluído o ensino médio e carregava na bolsa a carta de aprovação para uma das melhores faculdades de gastronomia do país. Tudo aquilo que planejara durante tantos anos parecia, enfim, estar ao alcance de suas mãos.

Oliver a chamou quando ela se preparava para tirar outra fotografia com os pais.

— Anne, posso falar com você?

A insegurança na voz dele a fez sorrir.

— Pode.

Ele olhou ao redor, incomodado com a quantidade de pessoas, e a conduziu alguns passos para longe do movimento. Mesmo assim, demorou a começar. Tirou uma das mãos do bolso, passou os dedos pelos cabelos e tornou a escondê-la.

Anne conhecia aquele gesto.

— O que você aprontou? — perguntou, contendo o riso.

— Nada.

— Então por que está desse jeito?

— Porque não sei como falar.

— Você pode começar falando.

Oliver soltou o ar, reuniu uma coragem que pareceu custar mais do que deveria e a encarou.

— Eu queria saber se você aceita namorar comigo.

Por um momento, Anne acreditou que tivesse entendido errado. Conhecia Oliver desde os seis anos, dividira com ele lanches, segredos, tardes inteiras de estudo e planos sobre o futuro.

Gostava dele havia tempo suficiente para ter aprendido a esconder o sentimento até de si mesma, convencida de que qualquer confissão poderia estragar a amizade que sustentara boa parte de sua vida.

Mas ele estava ali, nervoso diante dela, fazendo a pergunta que Anne já não se permitia esperar.

— Aceito.

— Aceita?

— É claro que aceito.

O sorriso de Oliver surgiu devagar, como se ele ainda precisasse se convencer de que havia escutado direito.

Combinaram de se encontrar na manhã seguinte, no café perto da casa dela. Seria o começo dos dois, longe da confusão da formatura e dos olhares curiosos de todos que os conheciam.

Anne chegou antes do horário.

Escolheu uma mesa próxima à janela, pediu uma bebida e esperou. O café esfriou dentro da xícara. O movimento da rua aumentou. Pessoas ocuparam outras mesas, terminaram suas refeições e foram embora, enquanto a cadeira diante dela permanecia vazia.

Oliver não apareceu.

Não telefonou, não mandou recado e não procurou por ela nos dias seguintes. Quando Anne foi até a casa dele, encontrou o imóvel fechado e soube pelos vizinhos que a família havia partido. Ninguém conseguiu explicar para onde.

Durante muito tempo, ela se perguntou se havia interpretado tudo errado. Se o pedido de namoro fora apenas uma brincadeira, um impulso ou uma despedida que Oliver não tivera coragem de assumir. Depois, as perguntas deram lugar à raiva. A raiva se transformou em mágoa e, com os anos, Anne aprendeu a viver ao redor daquele espaço que ele deixara.

Agora, o responsável por todas aquelas dúvidas estava diante dela.

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