Reconhecimento

Na primeira fileira da arena, Yvy mal conseguia respirar.

A bandana que acabara de comprar estava presa nos cabelos escuros, não escondia o brilho nos olhos.

Eles estavam arregalados, atentos, vivos — como se o mundo inteiro estivesse prestes a começar ali, naquele palco.

As mãos suavam.

O coração batia rápido demais.

Havia borboletas em seu estômago, uma mistura de nervosismo, excitação e incredulidade.

Desde os doze anos, Calleb era seu segredo mais antigo.

Seu primeiro sonho impossível.

Ela se lembrava perfeitamente da primeira vez que o vira em um clipe antigo, assistindo escondida no quarto.

Do rubor no rosto.

Do sorriso bobo.

Das noites imaginando como seria ouvi-lo cantar ao vivo.

Agora ele estava ali.

Real.

A poucos metros.

Ao seu lado, Josh segurava sua mão com naturalidade, os dedos entrelaçados aos dela como sempre haviam sido.

Cresceram juntos na Matilha Lunaris.

Correram pela floresta.

Compartilharam silêncios, risos e promessas que pareciam eternas quando tinham quinze anos.

Josh era segurança.

Era lar.

A um mês do casamento, ele lhe dera o presente que jamais esqueceria:

aquele show.

Quando as luzes se apagaram, Yvy sentiu o corpo inteiro arrepiar.

O primeiro acorde ecoou pela arena — e foi ali que tudo mudou.

No palco, Calleb estremeceu.

Ele não ouviu.

Sentiu.

Algo antigo e profundo puxou sua atenção com força ancestral, como um chamado que atravessava pele, ossos e alma.

O ar ao redor pareceu mudar de densidade.

Então veio o cheiro.

Jasmim branco.

Hortelã selvagem.

Chuva fresca sobre a terra quente.

O mundo parou.

Aquele aroma atravessou-o como um golpe silencioso, despertando lembranças que ele não acessava havia anos.

Manhãs simples em Blackpine.

Corridas descalço pela grama molhada.

A voz de Anabela chamando para dentro antes que escurecesse.

A sensação de segurança absoluta — quando tudo era fácil, quando nenhuma preocupação pesava sobre os ombros.

Antes das escolhas.

Antes das fugas.

Seus olhos se ergueram quase contra a própria vontade.

E então a viu.

Yvy sentiu o impacto no mesmo instante.

O olhar dele encontrou o dela.

Foi como se o ar tivesse sido arrancado de seus pulmões.

O coração disparou.

As mãos tremeram.

O corpo inteiro reagiu como se tivesse quinze anos outra vez.

Ela desviou o olhar por reflexo… e voltou.

Incapaz de resistir.

Calleb soube.

Naquele segundo exato, todas as decisões que tomara até ali perderam importância.

O palco, a multidão, a música — tudo se tornou pano de fundo.

O destino acabara de reconhecê-los.

E nada, absolutamente nada, seria como antes.

A música começou.

As luzes cortaram a escuridão e, no instante em que Calleb pisou no palco, Yvy sentiu.

Não ouviu.

Não pensou.

Sentiu.

O ar mudou ao redor dela.

Era o cheiro das melhores coisas do mundo.

Terra molhada depois da chuva, densa e viva.

O perfume seco e promissor de um livro novo, como se um universo inteiro estivesse prestes a se abrir.

E pão quentinho saindo do forno, com manteiga derretendo devagar, envolto numa nota amadeirada que fazia qualquer lugar parecer casa.

O coração de Yvy apertou.

Aquelas memórias não eram apenas lembranças — eram raízes.

Ela se viu criança, correndo na chuva com Josh, rindo enquanto a água e a terra se misturavam aos pés descalços.

Viu-se adolescente, sentada no chão do quarto, folheando livros novos com cuidado quase sagrado.

Sentiu novamente o calor da cozinha da mãe, o cheiro do pão preenchendo tudo, chamando para a mesa, para o colo, para o pertencimento.

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