Mundo de ficçãoIniciar sessãoLevar Laura à escola naquela manhã pareceu mais significativo do que deveria. Talvez fosse apenas a repetição criando intimidade, ou talvez fosse o fato de que Augusto observava tudo com atenção redobrada, como se cada gesto meu precisasse ser registrado.
— Você busca ela às quatro — disse ele, enquanto Laura colocava a mochila nas costas. — Como sempre — respondi. Ele assentiu, mas não se afastou de imediato. Laura percebeu. — Você vem comigo hoje? — perguntou ao pai. — Não posso — respondeu. — Trabalho. Ela fez um bico rápido, logo disfarçado. — A Helena vem — completou ele, lançando-me um olhar breve. — Então tá — disse Laura, satisfeita. No caminho até a escola, ela falou mais do que nos últimos dias. Comentou sobre uma amiga nova, sobre uma apresentação que talvez acontecesse na semana seguinte, sobre como gostava quando eu prendia seu cabelo “igual de boneca”. Ouvi tudo com atenção, respondendo quando necessário, tentando não pensar no peso silencioso que se acumulava dentro da casa. Quando a deixei no portão, Laura me abraçou sem aviso. — Não vai embora — disse, baixinho. — Não vou — prometi. O aperto que senti no peito não foi leve. Ao voltar, encontrei a casa silenciosa demais. Augusto havia saído. Aproveitei o tempo para organizar algumas coisas que estavam fora do lugar desde a visita de Clara. Dobrei roupas, limpei a mesa da sala, deixei tudo como sempre estivera. Ou como ele gostava que estivesse. Estava guardando alguns livros no escritório quando ouvi passos atrás de mim. — Você não precisa arrumar aqui — disse Augusto. Virei-me rápido demais. Ele estava mais perto do que eu esperava. — Não é um problema — respondi. — Gosto de manter tudo organizado. — Eu sei — disse. — Você gosta de consertar coisas. A frase me pegou desprevenida. — O que quer dizer com isso? Ele cruzou os braços, apoiando-se na mesa. — Desde que chegou, tudo parece… mais funcional. — Funcional não é o mesmo que melhor — respondi. — Às vezes é — rebateu. O silêncio voltou a se instalar entre nós. Um silêncio diferente. Menos defensivo. Mais atento. — Clara ligou de novo — ele disse. — Quer mudar o horário do fim de semana. — E você? — Ainda não decidi. — Laura precisa de previsibilidade — falei. — Não de disputas. — Eu sei. Ele deu um passo à frente. Meu corpo reagiu antes da razão. O espaço entre nós diminuiu rápido demais. — Você fala como se estivesse no centro disso tudo — disse ele, baixo. — Porque estou — respondi. — Não por escolha, mas por presença. — Presença demais pode confundir — murmurou. — Então se afaste — desafiei, sem elevar a voz. Ele não se afastou. Por um segundo longo demais, ficamos assim. Perto. Conscientes. Meu coração batia rápido, e eu sabia que ele podia perceber. — Helena… — começou. A palavra saiu diferente. Menos firme. Mais carregada. — Augusto — respondi, quase sem pensar. O nome dele pareceu quebrar algo invisível. Ele ergueu a mão, como se fosse tocar meu rosto, mas parou no meio do gesto. Sua respiração estava irregular. A minha também. — Isso é um erro — disse. — Então pare — respondi. Ele não parou. A mão dele finalmente tocou meu braço, leve demais para ser controle, firme demais para ser acidental. Um arrepio percorreu minha pele. — Não faça isso — pedi, embora meu corpo reagisse de forma oposta às palavras. — Eu estou tentando — respondeu, a voz baixa demais. O rosto dele se aproximou do meu. Senti o calor, o perfume, a tensão acumulada em dias de silêncio e contenção. Fechei os olhos por um instante curto demais para ser prudente. Quando os abri, nossos lábios estavam próximos demais. A campainha tocou. O som ecoou pela casa como um aviso cruel. Augusto se afastou de imediato, passando a mão pelo rosto, como se precisasse se lembrar de onde estava. — Droga — murmurou. Fiquei parada, tentando reorganizar pensamentos e batimentos. — Deve ser o entregador — disse ele, já se afastando. Fiquei alguns segundos sozinha no escritório depois que ele saiu. Apoiei as mãos na mesa, sentindo o frio da superfície contra a pele quente demais. Meu reflexo no vidro da estante parecia diferente — olhos atentos demais, respiração ainda irregular, como se meu corpo não tivesse recebido o aviso de recuo que a mente tentava impor. Caminhei até a janela e observei o portão se fechar novamente. Nenhum entregador à vista. O som da campainha continuava ecoando na minha cabeça, misturado à lembrança da proximidade excessiva, da intenção interrompida. Pensei em quantas vezes, ao longo dos dias, pequenos gestos haviam se acumulado até aquele momento: olhares demorados, silêncios cheios demais, a sensação constante de ser vista além da função. Na cozinha, enchi um copo de água até a borda. Minhas mãos tremiam levemente. Bebi devagar, tentando ancorar o presente. Aquela casa tinha regras claras quando eu chegara. Horários, funções, limites. Em algum ponto, esses limites haviam começado a se confundir, e eu não sabia dizer exatamente quando. Ouvi passos no corredor e meu corpo reagiu antes da razão outra vez. Endireitei a postura, respirei fundo, impondo a mim mesma uma neutralidade que já não vinha com tanta facilidade. Não era apenas atração — era o risco de tudo desmoronar se alguém puxasse o fio errado. Quando Augusto entrou na cozinha, eu já estava mais composta. Por fora, ao menos. Por dentro, a certeza incômoda permanecia: algo havia mudado entre nós, e ignorar isso não faria desaparecer. — Isso não pode acontecer — disse, direto. — Eu sei — respondi. — Você mora aqui. Cuida da minha filha. — E você é meu chefe — completei. Ele assentiu. — Precisamos manter limites claros. — Então comece dando o exemplo — falei, com calma. Ele me encarou, atingido. — Você tem razão. Houve uma pausa pesada. — Não quero perder você — disse ele, finalmente. — Como babá. A correção doeu mais do que eu esperava. — Então não me trate como algo descartável — respondi. Ele respirou fundo. — Vou buscar a Laura hoje — disse. — Você pode sair mais cedo. Assenti, mesmo sabendo que aquilo era uma forma de fuga. Mais tarde, quando voltei ao quarto, encontrei um bilhete sobre a mesa. Obrigada por hoje. — A. Dobrei o papel devagar. Não era um pedido de desculpas. Nem uma explicação. Era um reconhecimento. E isso, de alguma forma, tornava tudo ainda mais perigoso. Quando me deitei naquela noite, tive certeza de que o que quase acontecera no escritório não fora um acidente isolado. Fora um aviso claro de que os limites estavam se tornando frágeis demais. E da próxima vez, talvez não houvesse campainha alguma para nos interromper.






