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Capítulo 5 - Consequências

A casa demorou a voltar ao normal depois da visita de Clara. Não houve gritos nem discussões abertas, mas algo invisível parecia ter se instalado nos corredores, deixando o ar mais pesado. Laura sentiu primeiro. Ficou mais silenciosa, mais observadora, como se tentasse entender um mundo que ainda não fazia sentido para ela.

Passei a manhã tentando manter a rotina. Café no mesmo horário, desenhos na mesa da cozinha, uma tentativa frustrada de convencer Laura a comer frutas. Ela obedeceu, mas sem entusiasmo.

— Você fica hoje também? — perguntou pela terceira vez.

— Fico — respondi, sorrindo. — Já disse.

Ela assentiu, mas continuou inquieta.

Augusto apareceu apenas perto do meio-dia. Estava diferente. Mais atento. Menos distante. Observava cada detalhe como se estivesse avaliando riscos invisíveis.

— Como ela está? — perguntou, baixo.

— Um pouco sensível — respondi. — É normal depois de mudanças emocionais.

— Clara não deveria ter vindo daquele jeito — disse, passando a mão pelo rosto.

— Não cabe a mim decidir isso — falei. — Mas cabe a mim cuidar do impacto.

Ele me encarou por alguns segundos, como se ponderasse algo.

— E você consegue?

— Sim — respondi, firme. — Desde que confiem em mim.

Ele assentiu lentamente.

À tarde, levei Laura para brincar no quintal. Um jardineiro novo estava trabalhando perto da cerca. Cumprimentou-nos com um sorriso educado, comentou sobre o clima e elogiou o desenho que Laura carregava.

— É bonito — disse.

— Foi a Helena que ajudou — Laura respondeu, orgulhosa.

O homem sorriu para mim.

— Ela parece gostar muito de você.

Antes que eu pudesse responder, senti a presença de Augusto atrás de nós. O jardineiro se despediu rapidamente e voltou ao trabalho.

— Você não precisa conversar com funcionários que não fazem parte da rotina da casa — disse Augusto, frio.

— Ele só foi educado — respondi.

— Ainda assim.

Respirei fundo, controlando o impulso de retrucar mais forte.

— Se houver algo específico que espera de mim, é melhor dizer claramente.

Ele me encarou, sério.

— Espero discrição.

— E eu espero respeito — respondi. — Discrição não significa isolamento.

O silêncio que se seguiu foi carregado. Laura percebeu a tensão e segurou minha mão com mais força.

— Vamos entrar — sugeri, quebrando o clima.

Mais tarde, enquanto Laura dormia, encontrei Augusto na sala, olhando distraidamente para a televisão desligada.

— Você não confia em mim — falei, sem rodeios.

Ele levantou o olhar, surpreso.

— Não é isso.

— Então o que é?

Ele demorou a responder.

— Confiança exige controle — disse por fim. — E eu perdi muito controle no passado.

— Eu não sou o passado — respondi. — E não aceito ser tratada como uma ameaça.

Ele se levantou, aproximando-se.

— Você não é uma ameaça — disse, a voz mais baixa. — É justamente isso que me preocupa.

Meu coração acelerou.

— Então precisamos redefinir limites — falei, sustentando o olhar. — Ou isso vai ficar insustentável.

Ele parou a poucos passos de mim. Perto demais para ser confortável. Perto demais para ser apenas profissional.

— O que você sugere? — perguntou.

— Clareza — respondi. — E menos vigilância.

Os olhos dele escureceram.

— Não prometo facilidade.

— Eu também não prometo submissão.

Por um instante, achei que ele fosse dizer algo impulsivo. Mas Augusto respirou fundo e se afastou.

— Vamos manter o foco em Laura — disse.

— Sempre foi esse o foco — respondi.

À noite, enquanto organizava a mochila de Laura para o dia seguinte, ouvi passos no corredor. Augusto parou à porta.

— Ela perguntou se você vai levá-la à escola amanhã — disse.

— Vou, se você permitir.

— Permito.

Houve uma pausa estranha.

— Clara ligou — acrescentou. — Disse que quer buscá-la no fim de semana.

— E você concordou?

— Ainda não respondi.

— Precisa pensar no que é melhor para a Laura — falei. — Não no que evita conflitos.

Ele assentiu, pensativo.

— Você fala como se fizesse parte disso tudo.

— Porque faço — respondi, sem hesitar. — Durante o tempo em que estou aqui.

Ele me observou por alguns segundos longos demais.

— Isso é perigoso — disse.

— Talvez — respondi. — Mas fingir que não existe é pior.

Ele se virou para sair, mas parou na porta.

— Boa noite, Helena.

— Boa noite.

Fiquei ali, sentindo o peso daquela conversa. Não era mais apenas sobre trabalho. Havia algo mudando, mesmo que nenhum de nós tivesse coragem de nomear.

Depois da conversa, permaneci algum tempo sentada à mesa da cozinha, organizando mentalmente tarefas que já estavam prontas. Era um hábito antigo, uma tentativa inútil de controlar pensamentos através da rotina. O relógio avançava devagar demais, e o silêncio da casa parecia mais atento do que o normal.

Fui até o quarto de Laura para checar se estava tudo certo. Ela dormia de lado, abraçada ao urso de pelúcia, a respiração tranquila. Afastei uma mecha de cabelo do rosto dela com cuidado, tentando não acordá-la. Naquele instante, senti um peso inesperado no peito. Não era apenas responsabilidade profissional. Era algo mais difícil de definir, algo que não constava em contrato algum.

Ao sair do quarto, encontrei Augusto no corredor. Ele não parecia surpreso em me ver ali.

— Ela está bem? — perguntou, em tom baixo.

— Está — respondi. — Dormiu rápido.

Ele assentiu, apoiando-se levemente na parede, como se o cansaço finalmente tivesse encontrado espaço para aparecer.

— Você lida com isso melhor do que eu — disse, quase como uma constatação.

— Não é competição — respondi. — É cuidado.

Ele esboçou um sorriso breve, cansado demais para ser cínico.

— Clara nunca teve paciência para rotinas — comentou. — Sempre achou que presença pudesse ser compensada com promessas.

— Crianças não entendem promessas — falei. — Elas entendem constância.

Ele me olhou com atenção renovada, como se aquelas palavras tivessem atingido um ponto sensível demais.

— Talvez eu tenha errado nisso — admitiu.

A sinceridade inesperada me desarmou por um segundo.

— Ainda dá tempo de acertar — respondi, com suavidade.

Ficamos em silêncio outra vez. Não desconfortável. Apenas carregado de coisas não ditas. Quando ele se afastou em direção ao quarto, tive a impressão de que algo havia sido deslocado dentro daquela casa — não quebrado, mas definitivamente fora do lugar original.

E mudanças assim, eu sabia, nunca eram simples.

Ao me deitar, tive certeza de que as consequências da visita de Clara estavam apenas começando. E que, se continuássemos fingindo neutralidade, alguém sairia machucado.

Talvez todos nós.

É muita coisa em risco, eu tenho ciência disso. Entretanto, algo me diz que nada pode mudar o curso que esse rio está correndo.

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