Inicio / Máfia / O DONO DO TIGRINHO / CAPÍTULO 37 — Três Batidas
CAPÍTULO 37 — Três Batidas

POV: JADE

​A maçaneta do quarto girou e travou no núcleo de titânio.

​Do lado de dentro, com as costas pressionadas contra a parede ao lado do batente, prendi a respiração. A mão no corredor testou a trava mais uma vez, forçou a maçaneta para baixo, percebeu a resistência do metal e soltou.

​Não houve chute. Não houve grito.

​E então o primeiro tiro furou a cobertura.

​O barulho não teve nada a ver com o som limpo de arma que a TV ensina a esperar. Foi um estampido cru, sujo, alto o suficiente para fazer meus dentes baterem uns nos outros. A onda de choque vibrou pelo piso de madeira, subiu pelas solas do meu tênis e cravou direto no meu estômago. O meu ouvido direito começou a apitar num tom agudo e contínuo.

​O ar no corredor estalou. O cheiro de pólvora queimada e poeira de drywall esfarelado vazou pela fresta inferior da porta em três segundos.

​Ficar parada não era opção. As pernas se moveram sozinhas pelo quarto de hóspedes imerso na escuridão. A única luz era o brilho amarelado da rua que vazava pelas frestas da persiana abaixada.

​Tateei o escuro com as duas mãos à frente do corpo. Esbarrei na quina da cama, contornei o colchão e alcancei a mesa de cabeceira. Meus dedos bateram em madeira, depois em metal frio. O abajur.

​Puxei a base cilíndrica de latão. Era pesada. Arranquei o cabo da tomada com um tranco seco e enrolei o fio na mão esquerda para não tropeçar, segurando a base de metal como um porrete com a direita. O objeto não ia parar uma bala de fuzil. Não ia impedir um assassino treinado de me quebrar ao meio. Mas eu precisava agarrar qualquer coisa que servisse de arma para não enlouquecer de mãos vazias.

​Me agachei no espaço entre a cama e a parede, o abajur apertado contra o peito. A madeira fria do chão gelava minhas pernas.

​Lá fora, a cadência mudou.

​Dois tiros abafados, como se a arma estivesse com silenciador, responderam ao primeiro estampido cru. Em seguida, uma sequência rápida, barulhenta, perfurando a mobília.

​Vidro estilhaçou. Muito vidro. Pelo ângulo e pela distância do som, a porta de correr do escritório de Rafael tinha acabado de ir para o chão.

​Um estrondo surdo tremeu a parede do meu lado esquerdo. Não foi um tiro. Foi o peso morto de um corpo desabando no piso de madeira com tudo. Carne e equipamento tático batendo no laminado de uma vez só, sem braço para amortecer a queda.

​O peito apertou tanto que faltou oxigênio. Engoli em seco para não tossir com a fumaça de gesso que já preenchia o quarto.

​— Cássio! Abaixa a porra da arma!

​A voz de Igor cortou o tiroteio. O grito rasgou a sala, vindo da direção da ilha de mármore da cozinha. Não tinha o humor negro de sempre. Era um grito rouco, no meio de uma negociação falha.

​Cássio.

​Igor gritou um nome que não era o de Rafael. Os assassinos que subiram não eram fantasmas sem rosto para Igor, ele conhecia quem estava invadindo a cobertura.

​A resposta ao grito dele não veio com palavras.

​Veio com outro estampido rápido. Uma rajada curta que mastigou a alvenaria perto de onde a voz tinha saído. Depois o barulho de algo metálico escorregando pelo balcão da cozinha e batendo nos azulejos.

​E então, nada.

​O eco dos disparos morreu no teto da cobertura.

​Continuei agachada, apertando o metal do abajur até meus nós dos dedos doerem. O zumbido no meu ouvido não parava. Contei as minhas próprias respirações para forçar o peito a expandir devagar, puxando o ar pela boca e soltando pelo nariz.

​Dez segundos.

​Vinte.

​Um minuto inteiro.

​Nenhum passo. Nenhum rádio chiando. Nenhum vidro sendo pisado. O apartamento ficou quieto de um jeito que doía mais do que os tiros.

​Alguém estava morto ali fora. E eu não fazia ideia de quem. Se a matemática do Rafael tinha falhado, se Igor tinha levado a pior depois de gritar, ou se os dois tinham neutralizado a invasão.

​Um som mínimo arrastou no piso do corredor.

​Passos. Sola de bota raspando na madeira, deslizando com dificuldade. O ruído vinha na direção exata da minha porta.

​O peso dos passos denunciava a pessoa. Não eram furtivos e fantasmas como os que eu ouvi antes do primeiro tiro. Eram arrastados, irregulares. Alguém mancava.

​A pessoa parou exatamente do lado de fora do quarto.

​O peso de um corpo se escorou contra a madeira, fazendo o batente dar um estalo mínimo. Pela fresta inferior da porta, a sombra bloqueou o pouco de luz que sobrava no corredor.

​Meu pulmão travou. Levantei o abajur dois centímetros do chão.

​Uma respiração vazou pela fresta da porta. Áspera, úmida, pesada. O som de ar puxado com dificuldade, engasgando na garganta.

​Aquele ritmo quebrado não era o de Rafael.

​A respiração do Rafael não fazia barulho. Mesmo sob pressão extrema, ele controlava a entrada de ar pelo nariz de um jeito fantasma. A pessoa do outro lado da madeira lutava para conseguir oxigênio.

​— Não abre pra mim.

​A instrução do Rafael ecoou na minha cabeça com a mesma força da rajada de fuzil.

​A pessoa do lado de fora deslizou o braço pela porta. O som do tecido da jaqueta raspando na superfície desceu devagar.

​O trinco não girou.

​Em vez disso, os nós dos dedos da mão do lado de fora bateram contra a madeira.

​Devagar.

​Um.

​Dois.

​Três.

​Três batidas secas.

NOTA DA AUTORA 🖤

Gente...

Eu escrevi essas três batidas e fiquei encarando a tela igual uma maluca.

Porque a pergunta não é quem bateu.

A pergunta é:

Jade vai obedecer o Rafael?

👀

Me contem nos comentários quem vocês acham que está do outro lado da porta.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP