Capítulo 10

Alice

A casa da minha tia parecia menor naquela noite.

Talvez fosse a decisão pesando nos meus ombros. Talvez fosse o fato de que, pela primeira vez, eu estava entrando ali sabendo que não ficaria.

O carro do Coroa parou alguns metros antes do portão. Ele desceu comigo, mas não falou nada. Apenas ficou na calçada, braços cruzados, postura firme, como se aquele chão já soubesse quem ele era.

— Eu entro sozinha — falei.

Ele assentiu, mas os olhos permaneceram atentos.

Empurrei o portão enferrujado e senti o coração apertar. Cada passo até a porta carregava memórias que eu não sabia se queria guardar.

Quando entrei, as vozes vinham da cozinha.

— Eu te disse que essa menina não ia dar em nada — minha tia Lenice falava, sem perceber minha presença. — Sempre foi problemática. Desde pequena. Um peso.

Meu tio resmungou algo que não consegui ouvir.

— Agora olha a vergonha — ela continuou, a voz carregada de desprezo. — Andando com bandido. Sendo levada pra galpão. A gente cria, dá teto, dá comida… e é assim que paga.

Meu peito queimou.

Eu fiquei parada por um segundo, absorvendo cada palavra como se fossem pedras arremessadas.

— Sempre foi diferente — ela disse, mais baixa, mas ainda audível. — Nunca agradeceu de verdade. Nunca pertenceu aqui.

Foi aí que eu me movi.

— Eu estou ouvindo — falei, a voz saindo mais firme do que eu esperava.

Ela se virou num sobressalto, o rosto endurecendo ao me ver.

— Ah, chegou a estrela do morro.

— Eu só vim pegar minhas coisas.

— Suas coisas? — ela riu, amarga. — Tudo que você tem foi a gente que deu.

Senti as mãos tremerem, mas não baixei os olhos.

— Eu nunca pedi nada além de respeito.

— Respeito? — ela avançou um passo. — Você desonrou essa casa! Tá se envolvendo com criminoso! Sua mãe deve estar se revirando no túmulo!

Aquilo me atravessou como uma lâmina.

— Não fala da minha mãe — sussurrei, sentindo as lágrimas subirem.

— Eu falo sim! Porque se ela tivesse te criado direito, você não estaria nessa situação! Sempre foi rebelde. Sempre quis mais do que podia ter. Sempre um peso!

Peso.

A palavra ecoou dentro de mim, esmagadora.

— Eu perdi meus pais! — minha voz saiu em grito. — Eu não escolhi isso! Eu só tentei sobreviver!

— Sobreviver não é se j**ar no colo de bandido! — ela retrucou. — Tá achando que ele vai te salvar? Homem daquele tipo usa e j**a fora!

Meu coração disparou.

— Você não sabe nada sobre mim! — gritei de volta. — Nunca soube!

A discussão explodiu.

Portas batendo. Acusações voando. Anos de silêncio transformados em gritos.

— Você sempre foi ingrata! — ela berrou. — A gente devia ter te mandado embora há muito tempo!

As lágrimas finalmente caíram.

— Então por que não mandou? — desafiei, a voz quebrando. — Porque eu limpava a casa? Porque eu ajudava nas contas? Porque era conveniente ter um peso útil?

O silêncio que veio depois foi pesado.

Mas ela não recuou.

— Você não passa de uma vergonha. E agora tá lá fora, com aquele homem te esperando como se fosse dona de alguma coisa!

O sangue gelou nas minhas veias.

— Ele não manda em mim — falei, mesmo sem saber se era totalmente verdade.

— Claro que manda! Homem como aquele só sabe dominar! E você, ingênua, acha que é especial?

Os gritos já ecoavam pela casa inteira.

— Eu não sou mais sua responsabilidade! — gritei, sentindo algo romper dentro de mim. — Nunca fui sua filha! Nunca fui nada além de obrigação!

— Porque você nunca foi suficiente! — ela disparou, cruel.

Aquilo foi o golpe final.

Eu cambaleei um passo para trás, como se tivesse sido empurrada.

— Eu fiz o melhor que pude… — minha voz saiu em pedaços.

— Seu melhor nunca foi bastante!

O som da minha respiração ficou irregular. O peito doía. Anos tentando ser forte, tentando ser grata, tentando caber em um espaço que nunca foi meu… desmoronando de uma vez.

— Eu não sou um peso — sussurrei, mais para mim do que para ela.

— É sim! Sempre foi!

Foi nesse momento que algo mudou.

O portão lá fora bateu com força.

Passos firmes atravessaram o quintal.

A porta foi aberta com violência suficiente para bater na parede.

O Coroa entrou.

A presença dele tomou o ambiente como uma tempestade. O olhar escuro percorreu a cena — eu chorando, minha tia ofegante, a tensão ainda vibrando no ar.

— O que tá acontecendo aqui? — a voz dele saiu baixa, mas carregada de perigo.

Minha tia empalideceu ao reconhecê-lo.

— Isso é assunto de família — ela tentou dizer, mas a firmeza já tinha ido embora.

Ele deu dois passos para dentro.

— A partir do momento que envolve ela — disse, apontando levemente na minha direção — vira assunto meu.

O silêncio caiu pesado.

Eu nunca tinha visto o Coroa daquele jeito. Não era o homem calculista do galpão. Era fúria contida. Era proteção crua.

— Ninguém fala com ela desse jeito — ele continuou, cada palavra medida. — Ninguém levanta a voz pra ela.

Meu tio permaneceu imóvel, assustado.

Minha tia tentou recuperar a postura.

— Ela mora aqui!

— Não mais — ele cortou.

O tom não admitia discussão.

Ele se aproximou de mim, mas dessa vez com cuidado. A mão pairou perto do meu rosto, sem tocar.

— Pega suas coisas, Alice.

Não era ordem. Era abrigo.

E pela primeira vez naquela casa…

eu não me senti um peso.

Eu me senti escolhida.

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