Mundo ficciónIniciar sesiónCOROA
Eu sempre tive tudo que quis.
Não porque o mundo me deu — mas porque eu tomei.
Aos 49 anos, nada do que eu tenho veio fácil. Teve sangue. Teve morte. Teve noites em que precisei escolher quem vivia e quem caía. Teve sacrifícios que ninguém vê quando olha para o homem sentado na cadeira mais alta do morro.
E um dos maiores foi a solidão.
Eu não construí família. Não porque não pude biologicamente. Mas porque meus inimigos nunca me permitiram esse luxo. Mulher e filho são ponto fraco. E eu aprendi cedo que quem tem ponto fraco cava a própria cova.
Então eu virei pedra.
Frio quando precisava. Cruel quando exigido. Justo dentro da minha própria lei.
Mas aquela menina…
Eu sempre a vi andando pelo morro.
Cabeça erguida, livros no braço, passos rápidos como quem quer sair dali sem parecer que está fugindo. Alice. Eu sabia muito bem quem ela era. Filha dos dois que morreram naquela operação maldita. A menina que ficou, que estudou, que não se misturou.
Ela nunca me olhava direto. E eu respeitava isso.
Até o dia em que trouxeram ela para o galpão.
Quando falaram que era x9, eu quase não acreditei. Não combinava. Mas precisava olhar nos olhos. Eu sempre olho nos olhos.
E quando olhei…
Não vi mentira.
Vi medo, sim. Mas também vi fogo. Um tipo de força que não se dobra fácil. E isso é raro. Muito raro.
O beijo não foi planejado. Eu não planejo esse tipo de coisa. Eu calculo riscos, rotas, dívidas. Não sentimentos.
Mas quando ela me enfrentou, quando disse que não devia ter acontecido… eu soube que ela não era como as outras. Não era interesse. Não era medo disfarçado de submissão.
Ela me empurrou.
Ninguém me empurra.
E eu deixei.
Desde então, eu venho me perguntando se estou ficando velho… ou se pela primeira vez em décadas algo conseguiu atravessar a armadura.
Eu sempre tive controle.
Mas Alice…
E isso pode ser perigoso.
Para ela.
Ou para mim.
Eu fiz a proposta de trabalho porque precisava de alguém inteligente. Isso é o que eu digo para os outros.
Mas não é toda a verdade.
A verdade é que eu quero controle.
Quero ela perto o suficiente para não ser surpresa. Quero olhar nos olhos dela sem precisar inventar desculpa. Quero medir cada reação, cada respiração, cada vez que o coração dela acelerar quando eu me aproximar.
Eu sempre controlei tudo ao meu redor. Pessoas, territórios, decisões. Controle é o que me manteve vivo até aqui.
Com Alice… eu perdi isso por alguns segundos.
E eu não gosto de perder nada.
Quando eu disse que precisava de alguém que não tivesse medo de olhar na minha cara, eu estava falando dela. Ela me enfrenta mesmo tremendo. Ela não baixa os olhos por submissão — só por conflito. E conflito é algo que eu sei trabalhar.
Se ela aceitar trabalhar para mim, eu vou tê-la sob minha supervisão. Perto. Segura — porque ninguém toca no que é meu. E ao mesmo tempo, sob minhas regras.
Não é só desejo.
É território.
É querer sentir que posso conduzir a situação, que posso testar até onde ela aguenta, até onde aquela força que eu vi nos olhos dela vai.
Mas existe uma linha perigosa nisso tudo Pelo meu lado Dominador.
É isso que eu sou. Não foi um título que me deram — foi algo que eu me tornei. Cada decisão difícil, cada ordem que precisou ser cumprida sem hesitação, cada homem que testou meus limites e caiu… tudo isso construiu essa versão de mim.
No meu mundo, fraqueza custa caro. Dúvida mata. Sentimento desorganiza.
Eu aprendi a ler pessoas como quem lê um mapa. Sei quem vai trair antes de trair. Sei quem mente antes da frase terminar. Sei quem me teme — e quem me odeia. E uso isso. Sempre usei.
Controle não é só mandar.
É antecipar. É prever. É garantir que nada saia da linha.Por isso Alice me inquieta.
Ela não faz parte do meu mundo. Não foi moldada por ele. Ela anda com livros debaixo do braço, fala de faculdade, trabalha dobrando roupa como se o futuro dela estivesse longe daqui. Ela ainda acredita que existe saída.
Eu já não acredito há muito tempo.
Ser dominador não é só impor força. É sustentar o peso das escolhas. Eu carrego mortes nas costas. Carrego decisões que ninguém mais teria coragem de tomar. Carrego a responsabilidade de manter o morro funcionando — do jeito certo ou errado, depende de quem julga.
E no meio disso tudo, eu me tornei solitário.
Porque quem vive no topo não pode se dar ao luxo de descer.
Se Alice entrar no meu mundo, ela vai ver coisas que não combinam com os princípios dela. Vai ouvir ordens que não se discutem. Vai perceber que aqui não existe meio-termo.
Eu posso protegê-la de muita coisa.
Mas não posso proteger do que eu sou.
E essa é a parte que me faz pensar se ela está pronta.
Porque dominar território é simples.
Dominar o próprio instinto é mais difícil.E, pela primeira vez em muitos anos, eu estou tendo que escolher entre manter meu controle absoluto…
ou permitir que uma garota que deveria estar longe daqui atravesse as muralhas que eu passei décadas construindo.Porque dominar território é fácil.
Dominar alguém que me olha como se eu fosse o erro do mundo dela…
E talvez o que mais me incomode seja perceber que, no fundo, eu não quero quebrá-la.
Eu quero que ela continue me enfrentando.
E isso é o tipo de fraqueza que um homem como eu não pode ter.







