Mundo de ficçãoIniciar sessãoO prédio do Grupo Volkov não era apenas imponente.
Era intimidador.
Vidro escuro do chão ao topo, linhas modernas, segurança discreta… e uma atmosfera que deixava claro: ali, quem entrava não tinha controle de nada.
Lavínia Verone odiou o lugar no instante em que desceu do carro.
— Eu não acredito que estamos fazendo isso — murmurou, ajustando os óculos escuros, mesmo estando dentro do saguão.
Octavio não respondeu.
O rosto dele estava rígido. Frio. Calculando.
Mas havia algo ali que Lavínia raramente via:
pressa.
— Você deveria ter resolvido isso ontem — ela continuou, irritada. — Se tivesse me ouvido—
— Cale-se — ele cortou, sem sequer olhar para ela.
Lavínia travou o maxilar.
Aquilo já dizia muito.
Eles estavam perdendo.
E sabiam disso.
O recepcionista levantou o olhar ao vê-los se aproximando.
— Senhor Verone. Senhorita Verone. — o tom foi educado, mas distante. — O senhor Volkov já os aguarda.
Lavínia franziu a testa.
— Já?
Octavio também percebeu.
Dante sabia que eles viriam.
Claro que sabia.
Nada naquele homem parecia acontecer por acaso.
— Vamos — disse Octavio.
—
O elevador subiu em silêncio.
Andares passando rápido demais.
O ar pesado demais.
Lavínia cruzou os braços.
— Se ele acha que pode simplesmente ignorar nossa posição—
— Ele não está ignorando — Octavio disse, baixo. — Ele está substituindo.
Aquilo fez o estômago dela revirar.
— Por ela.
Octavio não respondeu.
Mas não precisava.
—
As portas do elevador se abriram diretamente em um andar inteiro.
Privado.
Silencioso.
Minimalista.
Luxuoso de forma quase agressiva.
Um homem de terno os aguardava.
— Por aqui.
Eles foram conduzidos por um corredor longo até uma sala ampla, cercada por vidro, com vista para toda Valencrest.
E lá estava ele.
Dante Volkov.
De pé, de costas para eles, observando a cidade.
Sem pressa.
Sem urgência.
Como se estivesse no controle até do tempo.
— Senhor Volkov — disse Octavio, entrando.
Dante não se virou imediatamente.
Apenas falou:
— Pontuais.
Lavínia revirou os olhos.
— Não estamos aqui para elogios.
Só então ele se virou.
O olhar caiu sobre os dois.
Frio.
Direto.
Avaliado.
— Imagino que não — respondeu.
Octavio avançou alguns passos.
— Vamos direto ao ponto.
— Sempre prefiro assim.
— O anúncio feito esta manhã foi… precipitado.
Dante ergueu levemente a sobrancelha.
— Foi preciso.
— Foi desrespeitoso.
— Foi estratégico.
Silêncio.
A tensão cresceu.
Lavínia deu um passo à frente.
— Você não pode simplesmente anunciar um casamento e excluir completamente a família envolvida.
Dante voltou o olhar para ela.
Sem emoção.
— Posso.
A resposta foi seca.
Irrefutável.
Lavínia travou.
— Isso não é como funciona — ela insistiu. — Há reputações envolvidas. Expectativas. A mídia já está questionando—
— A mídia está fazendo exatamente o que deve fazer — ele interrompeu. — Reagir.
Octavio estreitou os olhos.
— Esse casamento foi proposto como uma aliança.
— Foi considerado como uma possibilidade.
— Não distorça.
Dante deu alguns passos, aproximando-se lentamente.
— Eu não distorço nada. Eu ajusto.
O clima ficou mais pesado.
— A Verone Holdings precisa dessa associação — Octavio disse, agora sem rodeios.
— Não mais.
A resposta veio imediata.
Sem hesitação.
Sem abertura.
Lavínia perdeu a paciência.
— Você está descartando uma empresa inteira por causa dela?
Dante a encarou.
— Eu não tomo decisões por causa de ninguém.
— Então por que ela?
A pergunta saiu afiada.
Direta.
Dante sustentou o olhar.
— Porque ela não é você.
Silêncio.
Cortante.
Lavínia empalideceu.
— Isso é um insulto.
— É uma constatação.
Octavio deu um passo à frente, controlando a situação antes que Lavínia explodisse.
— Senhor Volkov, vamos ser racionais.
— Estou sendo.
— A imagem pública de um casamento envolve mais do que duas pessoas.
— Concordo.
— Então entende que excluir a família pode gerar questionamentos.
— Já considerei isso.
— E ainda assim seguiu em frente?
— Sim.
A confiança dele era irritante.
Impenetrável.
— Você está criando um cenário instável — Octavio pressionou.
— Não.
Uma pausa.
— Estou eliminando variáveis desnecessárias.
Lavínia riu, sem humor.
— Você chama a nossa família de variável?
Dante a observou por um segundo antes de responder:
— Eu chamo de risco.
Aquilo foi um golpe.
Direto.
Sem filtro.
Lavínia ficou sem palavras.
Octavio, por outro lado, absorveu.
E respondeu com frieza.
— Você está cometendo um erro.
— Não.
— Está subestimando consequências.
— Não.
— Está—
— Está tentando recuperar controle — Dante finalizou.
Silêncio.
Pesado.
Exposto.
Octavio o encarou por longos segundos.
— Esse casamento não vai se sustentar sem estrutura.
— Vai.
— Com base em quê?
Dante respondeu sem hesitar:
— No contrato.
Lavínia cruzou os braços.
— Contratos não sustentam relacionamentos.
Dante olhou para ela.
— Esse não é um relacionamento.
As palavras ecoaram.
Frias.
Claras.
Definitivas.
Lavínia apertou os lábios.
— Então você admite.
— Nunca neguei.
Octavio respirou fundo.
— E Alina? — ele perguntou. — Você acredita mesmo que ela vai aceitar isso sem consequências?
Dante não respondeu de imediato.
Mas quando falou…
— Alina entende termos melhor do que vocês.
Aquilo irritou.
Muito.
— Ela é impulsiva — Lavínia rebateu. — Emocional. Instável.
— Não.
A resposta veio firme.
— Ela é seletiva.
Silêncio.
Lavínia franziu a testa.
— O que isso quer dizer?
— Que ela escolhe onde investir energia.
— E escolheu você?
Dante sustentou o olhar.
— Ela escolheu o acordo.
E, por algum motivo, aquilo soou ainda mais perigoso.
Octavio mudou de estratégia.
— Vamos falar de benefícios — disse ele. — Há formas de estruturar isso sem exposição direta. Parcerias indiretas. Movimentações discretas. Você não precisa anunciar nada.
Dante o observou.
Sem interesse.
— Não.
— Está recusando uma proposta vantajosa.
— Estou recusando qualquer vínculo com a Verone Holdings.
Agora não havia dúvida.
Era definitivo.
Octavio percebeu.
E, pela primeira vez…
ficou sem argumento imediato.
— Você está tornando isso pessoal — disse ele, mais baixo.
— Não.
— Está.
— Eu não misturo pessoal com negócios.
Lavínia deu um passo à frente.
— Então por que ela?
O silêncio que se seguiu foi mais longo.
Mais denso.
Mais revelador.
Dante olhou diretamente para ela.
— Porque ela não negocia a própria dignidade.
Aquilo calou o ambiente.
Lavínia abriu a boca, mas não conseguiu responder.
Octavio apertou o maxilar.
E entendeu.
Não era sobre dinheiro.
Não era sobre estratégia.
Era sobre escolha.
E, dessa vez…
ele não tinha sido escolhido.
— Isso não termina aqui — disse Octavio.
Dante apenas respondeu:
— Para mim, já terminou.
Silêncio.
Frio.
Final.
Lavínia virou o rosto, furiosa.
— Vamos embora.
Octavio não se moveu por um segundo.
Mas então…
assentiu.
E saiu.
Sem olhar para trás.
Sem despedida.
Sem controle.
—
Quando a porta se fechou…
o silêncio voltou.
Dante permaneceu imóvel por alguns segundos.
Então voltou até a janela.
A cidade continuava lá.
Indiferente.
Imponente.
Previsível.
Diferente dela.
Alina.
Um leve traço de interesse surgiu em seu olhar.
Quase imperceptível.
Mas real.
Porque, naquele jogo…
ela não tinha apenas aceitado o contrato.
Ela tinha mudado as regras.
E isso…
tornava tudo muito mais interessante.







