Capítulo 5

O prédio do Grupo Volkov não era apenas imponente.

Era intimidador.

Vidro escuro do chão ao topo, linhas modernas, segurança discreta… e uma atmosfera que deixava claro: ali, quem entrava não tinha controle de nada.

Lavínia Verone odiou o lugar no instante em que desceu do carro.

— Eu não acredito que estamos fazendo isso — murmurou, ajustando os óculos escuros, mesmo estando dentro do saguão.

Octavio não respondeu.

O rosto dele estava rígido. Frio. Calculando.

Mas havia algo ali que Lavínia raramente via:

pressa.

— Você deveria ter resolvido isso ontem — ela continuou, irritada. — Se tivesse me ouvido—

— Cale-se — ele cortou, sem sequer olhar para ela.

Lavínia travou o maxilar.

Aquilo já dizia muito.

Eles estavam perdendo.

E sabiam disso.

O recepcionista levantou o olhar ao vê-los se aproximando.

— Senhor Verone. Senhorita Verone. — o tom foi educado, mas distante. — O senhor Volkov já os aguarda.

Lavínia franziu a testa.

— Já?

Octavio também percebeu.

Dante sabia que eles viriam.

Claro que sabia.

Nada naquele homem parecia acontecer por acaso.

— Vamos — disse Octavio.

O elevador subiu em silêncio.

Andares passando rápido demais.

O ar pesado demais.

Lavínia cruzou os braços.

— Se ele acha que pode simplesmente ignorar nossa posição—

— Ele não está ignorando — Octavio disse, baixo. — Ele está substituindo.

Aquilo fez o estômago dela revirar.

— Por ela.

Octavio não respondeu.

Mas não precisava.

As portas do elevador se abriram diretamente em um andar inteiro.

Privado.

Silencioso.

Minimalista.

Luxuoso de forma quase agressiva.

Um homem de terno os aguardava.

— Por aqui.

Eles foram conduzidos por um corredor longo até uma sala ampla, cercada por vidro, com vista para toda Valencrest.

E lá estava ele.

Dante Volkov.

De pé, de costas para eles, observando a cidade.

Sem pressa.

Sem urgência.

Como se estivesse no controle até do tempo.

— Senhor Volkov — disse Octavio, entrando.

Dante não se virou imediatamente.

Apenas falou:

— Pontuais.

Lavínia revirou os olhos.

— Não estamos aqui para elogios.

Só então ele se virou.

O olhar caiu sobre os dois.

Frio.

Direto.

Avaliado.

— Imagino que não — respondeu.

Octavio avançou alguns passos.

— Vamos direto ao ponto.

— Sempre prefiro assim.

— O anúncio feito esta manhã foi… precipitado.

Dante ergueu levemente a sobrancelha.

— Foi preciso.

— Foi desrespeitoso.

— Foi estratégico.

Silêncio.

A tensão cresceu.

Lavínia deu um passo à frente.

— Você não pode simplesmente anunciar um casamento e excluir completamente a família envolvida.

Dante voltou o olhar para ela.

Sem emoção.

— Posso.

A resposta foi seca.

Irrefutável.

Lavínia travou.

— Isso não é como funciona — ela insistiu. — Há reputações envolvidas. Expectativas. A mídia já está questionando—

— A mídia está fazendo exatamente o que deve fazer — ele interrompeu. — Reagir.

Octavio estreitou os olhos.

— Esse casamento foi proposto como uma aliança.

— Foi considerado como uma possibilidade.

— Não distorça.

Dante deu alguns passos, aproximando-se lentamente.

— Eu não distorço nada. Eu ajusto.

O clima ficou mais pesado.

— A Verone Holdings precisa dessa associação — Octavio disse, agora sem rodeios.

— Não mais.

A resposta veio imediata.

Sem hesitação.

Sem abertura.

Lavínia perdeu a paciência.

— Você está descartando uma empresa inteira por causa dela?

Dante a encarou.

— Eu não tomo decisões por causa de ninguém.

— Então por que ela?

A pergunta saiu afiada.

Direta.

Dante sustentou o olhar.

— Porque ela não é você.

Silêncio.

Cortante.

Lavínia empalideceu.

— Isso é um insulto.

— É uma constatação.

Octavio deu um passo à frente, controlando a situação antes que Lavínia explodisse.

— Senhor Volkov, vamos ser racionais.

— Estou sendo.

— A imagem pública de um casamento envolve mais do que duas pessoas.

— Concordo.

— Então entende que excluir a família pode gerar questionamentos.

— Já considerei isso.

— E ainda assim seguiu em frente?

— Sim.

A confiança dele era irritante.

Impenetrável.

— Você está criando um cenário instável — Octavio pressionou.

— Não.

Uma pausa.

— Estou eliminando variáveis desnecessárias.

Lavínia riu, sem humor.

— Você chama a nossa família de variável?

Dante a observou por um segundo antes de responder:

— Eu chamo de risco.

Aquilo foi um golpe.

Direto.

Sem filtro.

Lavínia ficou sem palavras.

Octavio, por outro lado, absorveu.

E respondeu com frieza.

— Você está cometendo um erro.

— Não.

— Está subestimando consequências.

— Não.

— Está—

— Está tentando recuperar controle — Dante finalizou.

Silêncio.

Pesado.

Exposto.

Octavio o encarou por longos segundos.

— Esse casamento não vai se sustentar sem estrutura.

— Vai.

— Com base em quê?

Dante respondeu sem hesitar:

— No contrato.

Lavínia cruzou os braços.

— Contratos não sustentam relacionamentos.

Dante olhou para ela.

— Esse não é um relacionamento.

As palavras ecoaram.

Frias.

Claras.

Definitivas.

Lavínia apertou os lábios.

— Então você admite.

— Nunca neguei.

Octavio respirou fundo.

— E Alina? — ele perguntou. — Você acredita mesmo que ela vai aceitar isso sem consequências?

Dante não respondeu de imediato.

Mas quando falou…

— Alina entende termos melhor do que vocês.

Aquilo irritou.

Muito.

— Ela é impulsiva — Lavínia rebateu. — Emocional. Instável.

— Não.

A resposta veio firme.

— Ela é seletiva.

Silêncio.

Lavínia franziu a testa.

— O que isso quer dizer?

— Que ela escolhe onde investir energia.

— E escolheu você?

Dante sustentou o olhar.

— Ela escolheu o acordo.

E, por algum motivo, aquilo soou ainda mais perigoso.

Octavio mudou de estratégia.

— Vamos falar de benefícios — disse ele. — Há formas de estruturar isso sem exposição direta. Parcerias indiretas. Movimentações discretas. Você não precisa anunciar nada.

Dante o observou.

Sem interesse.

— Não.

— Está recusando uma proposta vantajosa.

— Estou recusando qualquer vínculo com a Verone Holdings.

Agora não havia dúvida.

Era definitivo.

Octavio percebeu.

E, pela primeira vez…

ficou sem argumento imediato.

— Você está tornando isso pessoal — disse ele, mais baixo.

— Não.

— Está.

— Eu não misturo pessoal com negócios.

Lavínia deu um passo à frente.

— Então por que ela?

O silêncio que se seguiu foi mais longo.

Mais denso.

Mais revelador.

Dante olhou diretamente para ela.

— Porque ela não negocia a própria dignidade.

Aquilo calou o ambiente.

Lavínia abriu a boca, mas não conseguiu responder.

Octavio apertou o maxilar.

E entendeu.

Não era sobre dinheiro.

Não era sobre estratégia.

Era sobre escolha.

E, dessa vez…

ele não tinha sido escolhido.

— Isso não termina aqui — disse Octavio.

Dante apenas respondeu:

— Para mim, já terminou.

Silêncio.

Frio.

Final.

Lavínia virou o rosto, furiosa.

— Vamos embora.

Octavio não se moveu por um segundo.

Mas então…

assentiu.

E saiu.

Sem olhar para trás.

Sem despedida.

Sem controle.

Quando a porta se fechou…

o silêncio voltou.

Dante permaneceu imóvel por alguns segundos.

Então voltou até a janela.

A cidade continuava lá.

Indiferente.

Imponente.

Previsível.

Diferente dela.

Alina.

Um leve traço de interesse surgiu em seu olhar.

Quase imperceptível.

Mas real.

Porque, naquele jogo…

ela não tinha apenas aceitado o contrato.

Ela tinha mudado as regras.

E isso…

tornava tudo muito mais interessante.

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