Capítulo 2

A chuva parecia mais fria agora.

Alina permaneceu parada por alguns segundos, o olhar fixo na limousine do outro lado da rua. Tudo dentro dela gritava para ir embora. Ignorar. Recusar. Manter o pouco de dignidade que ainda não tinha sido arrancado naquela noite.

Mas então veio a lembrança.

Gael.

O rosto do irmão surgiu na sua mente com uma clareza dolorosa — o sorriso fácil, o jeito leve, a forma como ele sempre dizia que tudo ia dar certo, mesmo quando nada parecia dar.

E, naquele instante, Alina hesitou.

Não por medo.

Mas por amor.

Ela apertou os dedos ao redor da bolsa, respirou fundo e atravessou a rua.

O homem de terno abriu a porta do carro para ela sem dizer uma palavra.

O interior era silencioso. Luxuoso sem ser exagerado. Couro escuro, iluminação suave, cheiro leve de algo caro e discreto. Tudo ali parecia calculado para transmitir exatamente uma coisa:

controle.

E então ela o viu.

Dante Volkov estava sentado no banco oposto, com as pernas cruzadas e uma mão apoiada sobre o joelho. O terno preto era impecável, como se tivesse sido moldado no corpo dele. A camisa branca perfeitamente alinhada. O relógio no pulso brilhava de forma sutil, mas certamente valia mais do que a maioria dos apartamentos de Valencrest.

Mas não era nada disso que prendia a atenção.

Eram os olhos.

Escuros. Intensos. Analíticos.

Ele a observava como se já a conhecesse.

Como se já tivesse decidido tudo.

Alina entrou sem pedir permissão. A porta se fechou atrás dela com um clique suave, isolando completamente o som da cidade.

Silêncio.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Era um silêncio pesado, tenso, quase provocador.

Ela decidiu quebrar.

— Você tem o hábito de sequestrar pessoas na rua ou isso é exclusivo para negociações de casamento?

Um canto quase imperceptível da boca dele se moveu.

— Se fosse um sequestro, você não teria tido escolha.

A resposta veio calma. Direta. Sem esforço.

Alina cruzou os braços.

— Então isso é o quê? Uma abordagem corporativa?

— Uma oportunidade.

Ela soltou um riso curto, sem humor.

— Engraçado. Meu pai usa exatamente a mesma palavra quando quer me vender.

Os olhos de Dante se estreitaram levemente, como se analisasse cada camada daquela frase.

— Seu pai é um homem previsível.

— E você?

— Não.

Simples. Convicto.

Aquilo a irritou mais do que deveria.

— Então vamos direto ao ponto, senhor Volkov — disse ela, firme. — Se você quer esse casamento, fale com Lavínia. Ela é a filha perfeita. A que vocês realmente querem.

— Não — respondeu ele, sem hesitar.

O tom foi tão definitivo que a fez franzir a testa.

— Não?

— Eu não quero Lavínia.

— E por quê?

Dante inclinou levemente a cabeça, os olhos ainda fixos nela.

— Porque eu escolhi você.

O ar pareceu pesar.

Alina deu uma risada baixa, incrédula.

— Você nem me conhece.

— Conheço o suficiente.

— Sério? — ela rebateu. — E o que exatamente você acha que sabe sobre mim?

Ele não respondeu de imediato.

Apenas a observou por mais alguns segundos, como se decidisse até onde iria revelar.

— Sei que você não pertence àquela família — disse, por fim. — Apesar de carregar o nome.

Alina ficou imóvel.

— Sei que você não aceita humilhação em silêncio, mesmo quando deveria. Sei que não se curva facilmente. Sei que não confia em ninguém naquela mesa. E, acima de tudo, sei que você não é como eles.

Cada palavra parecia colocada com precisão.

E Alina ficou sem resposta por um instante.

— Isso não significa que eu vá aceitar um casamento absurdo — disse ela, recuperando a postura. — Muito menos com cláusulas ridículas.

— Você leu o contrato.

— Li o suficiente para saber que você tem algum problema sério com sentimentos.

Dante não se ofendeu.

— Sentimentos são imprevisíveis. Eu não trabalho com variáveis instáveis.

— Estamos falando de pessoas, não de ações da bolsa.

— Pessoas são ainda mais voláteis.

Alina balançou a cabeça, irritada.

— Então por que casar?

Ele a encarou de forma direta.

— Porque isso resolve problemas.

— Os seus… ou os meus?

— Ambos.

Ela se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— Então vamos esclarecer uma coisa. Eu não estou interessada no seu dinheiro, no seu nome ou na sua “solução estratégica”. Eu tenho uma vida.

Dante arqueou levemente a sobrancelha.

— Tem?

Aquilo foi um golpe.

Ela travou o maxilar.

— Mais do que você imagina.

— Não o suficiente para proteger seu irmão.

Silêncio.

A frase caiu como um peso real dentro do carro.

Alina sentiu o estômago revirar.

— Não use o Gael contra mim.

— Não estou usando — disse ele, com calma. — Estou apresentando um fato.

— Você não tem esse direito.

— Tenho, sim — ele respondeu, sem alterar o tom. — Porque eu posso resolver o problema dele agora.

Ela respirou fundo, tentando conter a raiva.

— E em troca?

— O contrato.

Claro.

Sempre o contrato.

— Você acha mesmo que pode comprar tudo?

— Não tudo.

Ele a observou por um instante antes de completar:

— Mas posso comprar o suficiente.

Alina apertou os dedos com força.

— Você é exatamente o tipo de homem que eu odeio.

— E, ainda assim, está aqui.

Ela não respondeu.

Porque ele tinha razão.

O silêncio voltou, mas dessa vez era diferente.

Mais tenso.

Mais próximo.

Dante descruzou as pernas e se inclinou levemente na direção dela, diminuindo a distância entre os dois.

— Eu não preciso que você me ame, Alina — disse ele. — Não preciso que confie em mim. Nem que goste de mim.

A forma como ele disse aquilo deveria ter sido um alívio.

Mas não foi.

— Então o que você quer? — ela perguntou.

— Que cumpra o contrato.

Ela soltou um riso baixo.

— Aquela cláusula é absurda.

— Necessária.

— Proibir sentimentos?

— Evitar problemas.

Alina o encarou com intensidade.

— Você já se apaixonou?

A pergunta escapou antes que pudesse impedir.

Dante ficou em silêncio por um segundo.

Algo mudou no olhar dele — rápido, quase imperceptível.

— Não — respondeu.

Mas a resposta carregava algo não dito.

Alina percebeu.

E isso despertou uma curiosidade perigosa.

— Então você está criando regras sobre algo que nunca viveu?

— Estou criando regras sobre algo que não pretendo viver.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Ou que não sabe lidar.

Os olhos dele escureceram.

— Cuidado.

— Com o quê? Com a verdade?

O clima dentro do carro mudou.

Ficou mais denso.

Mais carregado.

Dante a observava agora com outro tipo de atenção.

— Você gosta de testar limites — disse ele.

— E você gosta de controlar tudo.

— Sim.

Sem negação.

— Então isso não vai funcionar — ela concluiu.

— Vai — ele rebateu. — Porque você precisa mais disso do que eu.

Ela abriu a boca para responder, mas ele continuou:

— Seu irmão volta para a universidade amanhã. Todas as dívidas quitadas. Transferência para um programa melhor, se quiser.

O coração dela apertou.

— E…?

— E você assina.

Simples assim.

Frio assim.

Irrevogável assim.

Alina desviou o olhar por um instante, encarando o vidro escuro ao lado. A própria imagem refletida ali parecia distante.

Era ali que tudo mudava.

Se aceitasse, não haveria volta.

Um casamento de mentira… com consequências reais.

Uma vida compartilhada com um homem que não acreditava em amor.

Um contrato que proibia exatamente aquilo que poderia surgir.

E, ainda assim…

Gael.

Ela fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, voltou a encarar Dante.

— Eu tenho condições.

Ele não pareceu surpreso.

— Diga.

— Meu irmão não será usado contra mim de novo.

— Não será necessário.

— Eu não vou viver como uma peça decorativa.

— Você terá liberdade dentro dos termos.

— E eu não vou me submeter a humilhações.

Dante a observou com atenção.

— Ninguém humilha algo que me pertence.

A frase veio firme.

Alina sentiu um arrepio.

— Eu não sou sua.

— Será, legalmente.

Ela sustentou o olhar dele.

— No papel.

— É o suficiente.

O silêncio voltou.

Mas agora havia algo diferente ali.

Uma linha invisível que tinha sido cruzada.

Um acordo prestes a acontecer.

Alina respirou fundo.

— E se eu quebrar o contrato?

— Haverá consequências.

— Financeiras?

— E outras.

— Ameaças não me impressionam.

— Não são ameaças — ele disse. — São garantias.

Ela o encarou por mais alguns segundos.

Tentando entender no que estava se metendo.

Mas Dante Volkov era como vidro escuro.

Refletia.

Mas não revelava.

— Certo — disse ela, por fim.

Uma única palavra.

Pesada.

Irrevogável.

Os olhos dele se fixaram nos dela.

— Certo?

Ela assentiu, devagar.

— Eu aceito o contrato.

E, naquele instante…

Alina Verone entrou no jogo mais perigoso da sua vida.

Um jogo onde o amor era proibido.

E, justamente por isso…

inevitável.

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