Mundo ficciónIniciar sesiónO silêncio dentro da limousine parecia diferente agora.
Mais denso.
Mais definitivo.
Alina ainda sentia o peso das próprias palavras ecoando dentro dela:
Eu aceito o contrato.
Não havia volta.
Mas havia limites.
E ela não permitiria que aquele acordo se tornasse mais uma arma nas mãos de Octavio Verone.
Dante continuava a observá-la com a mesma calma inquietante, como se já antecipasse cada movimento dela.
Talvez antecipasse mesmo.
— Então vamos deixar uma coisa clara — disse Alina, rompendo o silêncio, a voz firme. — Eu não fiz isso por você. E muito menos por aquela família.
Dante não reagiu de imediato.
— Eu não pedi motivação — respondeu, tranquilo. — Pedi um acordo.
— E eu tenho condições.
Agora ele se inclinou levemente, interessado.
— Continue.
Alina cruzou as pernas, assumindo uma postura mais controlada. Mais estratégica.
— Nada do meu casamento com você vai beneficiar os Verone.
O olhar dele não mudou, mas a atenção aumentou.
— Explique.
— Sem investimentos. Sem fusões. Sem acordos paralelos. Sem injeção de capital disfarçada. — ela falou pausadamente, olhando direto nos olhos dele. — Você não salva aquela empresa. Não fortalece o nome deles. Não limpa a reputação deles.
Dante a observou em silêncio.
Aquilo não era uma reação comum.
A maioria das pessoas, naquela posição, imploraria para proteger a própria família.
Ela queria cortar qualquer vínculo.
— Interessante — disse ele.
— Eu não terminei.
— Eu sei.
Ela respirou fundo.
— Esse casamento é entre você e eu. Só isso. Se existe algum benefício… ele não chega até Octavio.
Dante descruzou as pernas.
Agora o interesse era evidente.
— Você quer se desvincular completamente da sua família.
— Eu quero distância.
— E está disposta a abrir mão do que poderia ganhar com isso?
Alina deu um pequeno sorriso, frio.
— Eu nunca tive nada deles para perder.
Silêncio.
Dante apoiou o braço no encosto, estudando-a com mais profundidade agora.
— Você entende que isso altera o objetivo principal do contrato.
— Não altera — ela rebateu. — Você ainda terá a imagem pública. Ainda terá o casamento. Ainda terá a estabilidade que quer mostrar para o mercado.
— Mas não terei a aliança com a Verone Holdings.
— Então escolha outra mulher.
O ar pareceu tensionar.
Ela sustentou o olhar.
Não havia hesitação.
Não havia medo.
Dante analisou aquilo por alguns segundos.
E então…
Um leve sorriso surgiu.
Discreto.
Perigoso.
— Eu já escolhi.
O coração dela bateu mais forte — não por emoção… mas pela forma como ele disse aquilo.
Como uma decisão já encerrada.
— Então aceite minhas condições — ela respondeu.
Dante inclinou a cabeça.
— Você está tentando negociar comigo… dentro de um acordo que precisa mais de mim do que eu de você.
— Errado.
Ela se inclinou levemente na direção dele.
— Eu sou a única nessa história que não quer nada além do necessário.
Isso fez algo mudar.
Porque, naquele jogo, interesse era a moeda mais comum.
E ela estava… recusando.
— Você está disposta a sacrificar poder por orgulho? — ele perguntou.
— Não é orgulho.
Uma pausa.
— É liberdade.
Silêncio.
A palavra ficou entre eles.
Pesada.
Real.
Dante passou o polegar lentamente pelo próprio pulso, como se estivesse avaliando algo invisível.
— Você sabe que posso resolver os problemas da sua família sem você — disse ele.
— Então faça.
— E, ainda assim, manter você no contrato.
Alina estreitou os olhos.
— Isso seria um erro.
— Por quê?
— Porque eu não vou fingir gratidão.
— Eu não preciso de gratidão.
— Nem submissão.
— Muito menos.
O jogo entre os dois mudou de nível.
Não era mais apenas negociação.
Era medição de forças.
— Então por que eu? — ela perguntou.
Agora havia algo mais na pergunta.
Não curiosidade.
Mas desafio.
Dante a encarou de forma direta.
— Porque você não pertence a eles.
A resposta veio sem hesitação.
E, por algum motivo, aquilo a atingiu mais do que qualquer outra coisa dita naquela noite.
— Isso não é vantagem — ela disse.
— Para mim, é.
Silêncio.
Alina desviou o olhar por um breve instante, recompondo-se.
— Então prove.
— Como?
Ela voltou a encará-lo.
— Corte os Verone desse acordo.
Dante sustentou o olhar dela.
Longo.
Profundo.
Calculado.
— Você está pedindo para eu ignorar completamente a razão inicial dessa negociação.
— Estou pedindo para você decidir se quer um acordo estratégico… ou um casamento controlado.
— E você acha que são coisas diferentes?
— Eu sei que são.
Ele ficou em silêncio.
E então, lentamente, estendeu a mão para o lado, pressionando um botão discreto no painel.
O homem que havia aberto a porta antes apareceu imediatamente do lado de fora, aguardando instruções.
Dante não desviou o olhar de Alina enquanto falava:
— Cancelar qualquer negociação direta com a Verone Holdings.
O homem hesitou por uma fração de segundo.
— Senhor… isso impacta—
— Eu não repito ordens.
— Sim, senhor.
A porta voltou a se fechar.
Silêncio.
Alina ficou imóvel.
Ela não esperava que ele fosse aceitar tão… rápido.
— Resolvido — disse Dante, como se tivesse acabado de alterar um detalhe irrelevante.
Mas não era irrelevante.
Era uma empresa inteira.
Era o poder que ela conhecia desde criança.
Era o império de Octavio… sendo simplesmente descartado.
Como se não valesse nada.
Alina sentiu um frio percorrer o corpo.
— Você acabou de…
— Sim.
— Sem nem pensar?
— Eu pensei — ele respondeu, calmo. — E concluí que não preciso deles.
Ela o encarou, tentando entender.
— E se isso afetar seus negócios?
— Não afeta.
Confiança absoluta.
Controle absoluto.
Aquilo era… perigoso.
— Então agora esse casamento realmente não tem nada a ver com minha família — ela disse.
— Nunca teve.
Ela franziu a testa.
— Não?
Dante se inclinou levemente para frente.
A distância entre eles diminuiu.
— Sua família foi apenas o caminho mais rápido até você.
O coração dela falhou um segundo.
— Isso não faz sentido.
— Faz, sim.
— Você nem me conhecia.
— Conhecia o suficiente.
Aquela frase de novo.
Mas agora carregava outro peso.
Outro significado.
— Desde quando? — ela perguntou, mais baixa.
Ele não respondeu diretamente.
— O suficiente para saber que você diria não… antes de dizer sim.
O ar pareceu ficar mais pesado.
Mais íntimo.
Mais perigoso.
Alina manteve o olhar firme, mas por dentro algo se deslocava.
— Você gosta de jogos.
— Não.
Uma pausa.
— Eu gosto de resultados.
Ela soltou um pequeno riso.
— Então espero que saiba no que está se metendo.
Dante sustentou o olhar dela.
— Eu sempre sei.
Silêncio.
Mas agora não era desconfortável.
Era… carregado.
Denso.
— Então temos um acordo? — ele perguntou.
Alina respirou fundo.
— Temos.
— Sem benefícios para os Verone.
— Nenhum.
— Sem interferência deles na sua vida.
— Nenhuma.
— E você cumpre todas as cláusulas.
Ela hesitou por um segundo.
Mas respondeu:
— Sim.
Dante assentiu.
— Ótimo.
Ele puxou um tablet do lado, deslizou a tela e virou na direção dela.
O contrato.
Atualizado.
Já ajustado.
Já pronto.
— Assine.
Alina olhou para a tela.
O nome dela ali.
O nome dele.
A cláusula ainda presente.
Proibido se apaixonar.
Uma ironia cruel.
Ela pegou a caneta digital.
Por um instante…
pensou.
Em tudo.
Na vida que estava deixando.
No que estava prestes a entrar.
No homem à sua frente.
Frio.
Controlado.
Imprevisível.
Perigoso.
E, ainda assim…
ela assinou.
O gesto foi firme.
Sem tremor.
Sem volta.
Dante observou cada movimento.
Quando ela terminou, ele apenas disse:
— Bem-vinda ao contrato, Alina.
Ela ergueu o olhar.
— Não.
Uma pausa.
— Bem-vindo ao meu limite.
Os olhos dele brilharam de leve.
Algo quase imperceptível.
Mas estava lá.
Interesse.
E, naquele instante…
sem que nenhum dos dois dissesse em voz alta…
ficou claro:
aquele casamento não seria apenas um acordo.
Seria uma guerra silenciosa.
E ninguém sairia ileso.







