CAPÍTULO 6

NÃO ABRA A ALA LESTE

A assessoria executiva de Vincent Blackwood funcionava com a precisão de relógio suíço e a empatia de triturador de papel.

Ao meio-dia em ponto, duas horas depois de eu ter lavado o rosto no banheiro do cartório, dois homens de camisa polo preta e luvas brancas bateram na porta do meu apartamento na Vila Mariana. Trouxeram caixas de papelão grosso, plástico bolha e rolos de fita. Fiquei no meio da sala, olhando pro sofá esfolado onde meu pai costumava dormir vendo futebol, e percebi que a minha vida cabia em pouco espaço demais.

Eles embalaram tudo com eficiência mecânica. Eu coloquei minhas roupas íntimas, alguns cadernos da faculdade e um porta-retrato numa mala azul com a rodinha direita emperrada. Quando entreguei a chave pro proprietário no corredor, não parecia só mudança de endereço. Parecia que eu tava sendo apagada do mapa.

O trajeto até o Morumbi foi em silêncio, no banco de trás de outro SUV blindado. A paisagem pela janela foi mudando. Fios de poste embolados e padaria de esquina deram lugar a muros altos, cerca elétrica escondida em hera e câmera girando a cada vinte metros. O dinheiro de verdade em São Paulo não quer aparecer. Ele se esconde atrás de forte.

O carro parou diante de um portão de chapa preta. Não tinha fresta pra olhar pra dentro. O metal deslizou pro lado sem fazer barulho, engolindo o carro.

O pneu aro vinte subiu por uma rampinha de paralelepípedo alinhado até parar na frente da porta principal.

A mansão Blackwood não tinha cara de casa de novela antiga nem de mansão cafona de novo rico com coluna falsa. Era um bloco de concreto aparente, vidro e madeira escura. Linha reta, dura, fria. Imponente e gelada. Igual ao dono.

O motorista abriu minha porta. O ar da tarde tava úmido, prometendo chuva, mas antes de qualquer gota cair em mim, a porta dupla da frente se abriu.

Uma mulher por volta dos cinquenta anos esperava no alto da escada de granito. Usava conjunto de alfaiataria cinza, cabelo escuro preso num coque tão apertado que parecia esticar a pele.

— Senhora Blackwood.

O título bateu seco no meu ouvido. Por um segundo, olhei pros lados, esperando ver a mãe do Vincent, até a aliança de platina pesar no meu dedo e lembrar que esse era meu nome agora.

— Lena. Meu nome é Lena — respondi, subindo os degraus e parando na frente dela.

A mulher não piscou. Não sorriu.

— Meu nome é Marta. Sou a governanta-chefe. O senhor Blackwood me encarregou de integrá-la à rotina da casa. — Ela fez um gesto com a mão, chamando pra eu entrar.

Passei pela porta. O hall de entrada tinha pé-direito duplo de fazer igreja parecer pequena. O ar cheirava a cera, flor branca e ar-condicionado. O piso de mármore escuro refletia a luz cinza que entrava pelas janelas enormes. Não tinha porta-retrato nas mesas, nem casaco jogado, nem chave largada em bandeja. Faltava bagunça. Faltava gente.

Meus coturnos rangiam no mármore. Minha mala azul, que o motorista puxava atrás, parecia um erro de cenário ali.

— O senhor Blackwood não chegará antes das vinte horas — Marta continuou, andando com as mãos cruzadas na frente do corpo, salto batendo num ritmo quase militar. — O jantar será servido às vinte e uma. Pontualidade não é sugestão nesta casa, senhora.

— Entendido. — A jornalista em mim ligou o gravador mental. — Onde eu deixo a mala?

— Suas bagagens já foram levadas para o andar superior antes da sua chegada. A equipe desfez os pacotes e organizou seus pertences nos armários.

Parei no meio do corredor. O sangue subiu pro rosto.

— Alguém mexeu nas minhas malas?

A invasão de privacidade fez meu maxilar travar. Imaginar gente desconhecida dobrando minhas calcinhas da Marisa e pendurando no mesmo closet das camisas de Vincent era insuportável. Eu não tinha segredo ali, mas tinha orgulho.

Marta parou e virou.

— É procedimento padrão, senhora. O seu tempo é valioso. O da equipe também. O senhor Blackwood prefere que a casa funcione com máxima eficiência.

Ela não tava se desculpando. Tava me enquadrando.

Engoli o impulso de responder. Brigar com a governanta no primeiro minuto não ia trazer meu apartamento de volta. Fiz sinal pra ela seguir.

Ela me guiou por uma escada de madeira e cabo de aço até o segundo andar. O corredor lá em cima era comprido, com tapete felpudo que apagava qualquer som.

Marta parou em frente a uma porta dupla no meio do corredor.

— Seus aposentos.

Achei que ia ver suíte dividida com Vincent. Mas, quando entrei, o quarto cheirava a tecido novo e produto de limpeza. Ninguém dormia ali.

O quarto era maior que o meu apartamento inteiro. Uma cama king-size no centro, lençol branco impecável. Uma parede de vidro dava pros fundos, com piscina de raia escura e jardim milimetricamente aparado. Nada de TV. Nada de cor quente. Cara de quarto de hotel caro pra gente que não fica.

Fui até o closet aberto na lateral. Parei na porta.

Minhas roupas velhas estavam num canto escuro. Minhas blusas de algodão e jeans pareciam encolhidos ali, cercados por vestidos novos, terninhos de grife e fileira de sapato de salto que nunca vi na vida.

Vincent não comprou só as dívidas e o silêncio. Comprou um guarda-roupa pra vestir a boneca que acabou de adquirir.

— As etiquetas foram retiradas, mas as peças foram escolhidas de acordo com suas medidas pela assessoria de imagem — Marta falou da porta, vendo minha mão tocar a seda de um vestido verde escuro. — O uso é obrigatório em compromissos externos e jantares formais na propriedade.

A aliança de platina no meu dedo pareceu pesar ainda mais. Eu era figurante no cenário dele.

— A casa está à sua disposição, senhora Blackwood — a governanta avisou, dando um passo pra trás. — A cozinha principal fica no térreo, à esquerda. A biblioteca, à direita. O acesso à área da piscina é livre. O interfone interno liga direto para meus aposentos.

Virei as costas pro closet e fui até a porta dupla, querendo só fechar tudo, tirar os coturnos e encarar o teto até a cabeça parar de girar.

Mas Marta não saiu. Não foi pro corredor. Ficou no tapete, ereta, me olhando com uma intensidade diferente.

Apoiei a mão no batente e encarei de volta. A máscara de funcionária perfeita tinha uma rachadura. Tinha outro tipo de rigidez ali. Aviso.

— Há apenas uma regra estrutural que não admite exceção nesta casa.

O tom dela não era de regra de horário. Era de regra de sobrevivência.

Ela ergueu a mão direita e apontou pro fim do corredor. Pra parte da esquerda, onde a luz parecia falhar um pouco, e as portas modernas davam lugar a um arco de pedra escura.

— Aquela é a ala leste — disse, abaixando a mão.

Olhei pra escuridão do arco e depois pra ela. O corredor terminava onde não era pra terminar.

— E o que tem lá?

Marta me encarou com a frieza de quem tranca uma porta e j**a a chave fora.

— Não importa. Não abra a ala leste.

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