CAPÍTULO 7

REGRAS DA CASA, SEGUNDO VINCENT BLACKWOOD

Passei as oito horas seguintes tentando ocupar espaço em um quarto projetado pra me fazer sentir invisível.

Não desfiz a mala azul emperrada no canto do closet. Não liguei o ar-condicionado. Em vez disso, arrastei uma poltrona de couro até a frente da parede de vidro e fiquei olhando a tarde virar noite sobre a piscina escura. O céu finalmente despencou a chuva que tava prometendo, e o barulho da água batendo no vidro foi o único som da mansão Blackwood que parecia normal.

Vincent não mandou ninguém. Nem Marta, nem uma porção de comida, nem um aviso. O silêncio daquela mansão era pesado, desenhado para fazer eu me sentir pequena. Ele provavelmente achava que, depois de oito horas sozinha, eu estaria implorando por companhia. Ele errou o cálculo.

Às oito e cinquenta e cinco da noite, levantei da poltrona. Meu corpo doía de tensão. A governanta tinha sido clara: o jantar seria às vinte e uma. Pontualidade não era sugestão.

Não vesti nenhum dos vestidos novos. Continuei com o vestido preto da formatura que eu usava desde a manhã, coturno barato no pé, cara de cansaço sem maquiagem. Se Vincent queria uma boneca de luxo à mesa, ia ter que encarar a versão real da mulher que ele chantageou.

Saí pro corredor. O tapete felpudo apagou o som dos meus passos. Olhei instintivamente pra esquerda, pro arco de pedra escura da ala leste que engolia a luz. A curiosidade cutucou a parte jornalista da minha cabeça, mas forcei os pés a virarem pra direita, rumo à escada.

O jantar não foi na sala enorme que eu tinha visto embaixo.

Marta me esperava ao pé da escada e me levou por um corredor lateral até uma sala menor, toda em madeira escura. Tinha uma mesa redonda de mármore e só duas cadeiras.

Vincent já estava lá.

Sem paletó, sem gravata, mangas da camisa branca dobradas. O relógio de aço brilhava no pulso. Pela primeira vez no dia, ele não parecia bloco de concreto; parecia um homem cansado lendo um relatório no tablet.

Ele não levantou os olhos quando eu entrei.

— Você está atrasada três minutos — disse, a voz baixa, só constatando.

— Eu tava me perdendo de propósito nos corredores pra ver se achava a saída de emergência — respondi, puxando a cadeira e sentando. O couro rangeu.

A expressão dele continuou a mesma lâmina de gelo, mas o olhar desceu devagar pelo meu vestido amassado e parou nos meus coturnos sujos. Ele não disse nada, mas o silêncio dele agora tinha um peso diferente. De desagrado.

Ele bloqueou a tela e virou o tablet pra baixo sobre a mesa.

— A equipe de serviço vai começar a servir o jantar. Nós não falaremos sobre o seu pai na frente deles — ele instruiu, pegando a taça de água. — Não falaremos sobre o contrato. E você não vai usar esse tom defensivo com os meus funcionários.

— Eu não usei tom nenhum com a Marta.

— Ela reportou que você questionou os métodos da casa em menos de dez minutos depois de entrar.

Soltei uma risada seca. A governanta era praticamente auditoria interna.

— Ela abriu minhas malas e pendurou minhas roupas sem pedir, Vincent. Aonde eu venho, isso se chama invasão de privacidade.

— De onde você veio, isso se chama falta de padrão — ele corrigiu, pousando a taça. — Aqui se chama organização. Não existe privacidade na mansão Blackwood, Lena. Existe o que eu permito que aconteça fora da minha linha de visão.

O ar ficou mais pesado. Lembrete bem claro da minha nova realidade.

Uma funcionária entrou pela porta lateral, carregando uma bandeja. Serviu duas porções de risoto, encheu as taças de vinho e sumiu em silêncio.

Peguei o garfo, mas a fome era só uma lembrança distante, soterrada pelo ódio.

Vincent cortou a própria carne com uma precisão irritante. O movimento era rítmico, limpo, sem o barulho da faca batendo na porcelana. Ele comia sem pressa, sem prazer, apenas cumprindo uma função. Mastigava calmo, focado, ignorando a minha existência. Eu era só mais um item na mesa.

Uns dez minutos passaram em silêncio.

Quando ele terminou, limpou a boca com o guardanapo e esticou o braço até a cadeira ao lado. Pegou um envelope pardo e jogou no centro da mesa. O envelope parou a dois centímetros do meu prato quase intacto.

— O que é isso? — perguntei, sem encostar. O último papel que ele tinha me dado custou minha liberdade.

— O manual de operações. — Vincent apoiou os antebraços na beirada da mesa, entrelaçando os dedos. — O contrato formaliza o acordo com a lei. Esse formaliza com comigo.

Deixei o garfo cair no prato, fazendo barulho metálico. Puxei o envelope, rasguei a aba e tirei duas folhas impressas.

A lista tinha doze itens numerados.

Li rápido.

Presença obrigatória em todas as refeições servidas na sala principal, salvo instrução prévia da assessoria.

Controle de horário de saída e entrada da propriedade, com escolta de segurança o tempo todo.

Proibição de contato com imprensa ou figuras públicas não aprovadas pelo setor de relações públicas da Blackwood.

Proibido acesso à ala leste do segundo andar em qualquer circunstância.

A governanta não tava exagerando sobre o fim do corredor.

Monitoramento contínuo de canais de comunicação para garantir confidencialidade.

Qualquer visitante não corporativo deve ser aprovado antes, com checagem de antecedentes.

O vestuário disponibilizado nos aposentos deve ser usado em eventos de representação; roupas consideradas inadequadas pro ambiente doméstico não serão toleradas.

...

Cada item daquela lista era uma grade nova que subia ao meu redor. Eu estava sendo cercada por todos os lados. O papel era caro e a fonte era elegante, mas a mensagem era bruta: eu tinha acabado de perder o direito de ser uma pessoa. Com regras suficiente pra enlouquecer qualquer um.

Terminei a Cláusula 12. Olhei pra ele.

Vincent não se mexeu. Ele continuou me encarando com aquela calma de quem tem todo o tempo do mundo, esperando o momento exato em que o meu orgulho ia ceder. Ele não queria uma resposta; queria ver qual daquelas regras ia me fazer perder a cabeça.

Dobrei as folhas com uma calma que eu não sentia. Forcei o vinco com a unha, marcando o papel de um jeito definitivo, sem desviar os olhos dos dele. O rosto de Vincent se tornou uma máscara ainda mais rígida. Ele estava acostumado a ver pessoas tremendo ao ler suas ordens, não destruindo-as com tanto capricho.

Levantei da cadeira, empurrando o encosto pra trás, mas não fui pra porta. Andei dois passos pro lado, até uma lixeira de metal discreta embutida no painel de madeira.

Levantei a tampa.

E joguei o manual lá dentro.

O som do papel batendo no fundo vazio soou alto demais na sala pequena.

Voltei pra mesa e apoiei as duas mãos abertas no mármore frio, me inclinando na direção dele. De perto, eu via cada detalhe da íris de concreto. Sentia o cheiro do uísque que ele tinha tomado antes.

— Eu assinei a Cláusula 4. Eu moro aqui. Eu sou a sua esposa de enfeite pros jornais — soltei, cada palavra saindo com um peso que eu não sabia que tinha. — Mas eu não sou uma das suas filiais em recuperação, Vincent. Não espere que eu peça permissão para respirar.

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