CAPÍTULO 5

O ALTAR NÃO ERA O QUE EU ESPERAVA

Assinei “Lena Whitmore” pela última vez do lado de fora, num balcão de fórmica descascada. Lá dentro, a burocracia do Estado de São Paulo levou onze minutos pra me transformar em ativo do império Blackwood.

A sala do juiz de paz era um caixote sem janela. Um ventilador de teto girava devagar, rangendo a cada volta, empurrando um ar parado que cheirava a papel velho e naftalina. Não tinha flor. Não tinha música. Só eu, Vincent Blackwood, o homem do isqueiro dourado segurando a pasta como se fosse carro-forte, e um juiz com cara de quem queria estar em qualquer outro lugar.

Ficamos lado a lado na frente da mesa de madeira. Vincent manteve uma distância calculada de uns vinte centímetros entre nossos ombros. Nosso braço não encostou uma vez.

Enquanto o juiz lia o texto do casamento civil com voz anasalada e cansada, eu olhei pro lado. Vincent não olhava pra mim nem pra ele. Fixou o olhar num ponto da parede encardida atrás da cadeira do juiz, a postura tão rígida que parecia estátua de granito de terno. Ele estava ali de corpo presente, mas a cabeça provavelmente já estava na próxima reunião, calculando lucro ou derrubando concorrente.

Pra ele, aquilo não era casamento. Era fusão hostil.

— É de livre e espontânea vontade que os senhores assumem o matrimônio? — o juiz perguntou, abaixando os óculos na ponta do nariz.

A palavra “livre” travou na minha garganta. Pensei no meu pai, na cela, no horário do alvará. Engoli seco.

— Sim — minha voz saiu mecânica.

— Sim — Vincent respondeu meio segundo depois, no mesmo tom raso.

— As alianças — o juiz pediu, estendendo a mão.

Eu nem tinha pensado em aliança. O contrato falava em “aparências públicas”, mas esse detalhe passou batido no meio do pânico.

O assessor de terno cinza deu um passo à frente, tirou uma caixinha de veludo preto do bolso e entregou a Vincent. Ele pegou um dos aros.

Finalmente virou o rosto na minha direção. Os olhos de concreto não buscaram os meus. Miraram direto na minha mão esquerda.

— A mão, Lena — ele falou baixo.

Ergui a mão, os dedos tremendo de leve. Vincent segurou meu pulso. Foi a primeira vez que ele me tocou. A pele dele era quente, o polegar firme no osso do meu pulso, prendendo e ao mesmo tempo ancorando.

Ele deslizou a aliança no meu dedo anelar. O metal tava gelado. Era um aro grosso de platina, cheio de diamante quadrado. Pesado, exagerado, impossível de ignorar. Não parecia símbolo de união; parecia coleira cara. Uma etiqueta de preço pra todo mundo ver de quem eu era.

O juiz bateu um carimbo no livro. O baque ecoou na sala.

— Os noivos podem se beijar — declarou, já puxando outro processo da pilha.

Minha coluna endureceu. Eu me preparei pro toque, pro teatro que a Cláusula 5 exigia.

Vincent soltou meu pulso. Não se inclinou. Não chegou perto. Abotoou o paletó com uma mão, fez um aceno curto pro juiz e virou as costas pra mim.

— O motorista está esperando — disse, indo direto pra porta.

Fiquei parada no meio da sala, com o dedo pesando de platina, enquanto o juiz chamava o próximo casal. A rejeição e o gelo não deveriam doer. Era contrato. Mas o jeito como ele me tratou — não como ameaça, nem como inimiga, só como nada — abriu um buraco no peito que eu não esperava.

Saí da sala apressando o passo pra alcançar os dois no corredor.

Vincent estava perto da saída, olhando o celular. O assessor esperava dois passos atrás.

— Minha equipe vai até o seu apartamento ao meio-dia — Vincent falou sem tirar os olhos da tela. — Eles vão coordenar a mudança. Separe só o que tiver valor pessoal. Roupas, móveis e o resto já estão providenciados na mansão. O que sobrar vai para um depósito.

— Você tá jogando a minha vida inteira num depósito em três horas? — perguntei, sentindo a indignação subir.

— Estou otimizando o seu espaço — ele corrigiu, guardando o celular e enfim me encarando. — Você é uma Blackwood agora. Comporte-se como tal. O carro vai te levar pra casa pra você empacotar. Te vejo no jantar.

Ele não esperou resposta. Virou e saiu pela porta de vidro, o assessor na cola.

Fiquei sozinha no corredor cheio, enquanto as pessoas desviavam de mim pra ir pros guichês. O ar pareceu falhar. O peso das últimas vinte e quatro horas — prisão, chantagem, contrato, assinatura no escuro, aliança brilhando grotesca na luz fria — caiu de uma vez.

— Com licença — murmurei pra uma mulher que passou, a visão embaçando.

Empurrei a porta do banheiro feminino no fim do corredor e tranquei no trinco torto.

O lugar tava sujo. Cheiro de cloro barato e encanamento velho. A pia de cerâmica era rachada. Fui até ela, abri a torneira dura e deixei a água gelada correr pelas mãos. A aliança bateu na louça, fazendo um som agudo.

Olhei pro espelho manchado. A mulher ali usava o vestido da formatura que não ia acontecer, tinha olheira funda e uma joia que valia mais que o prédio onde morava.

O primeiro soluço subiu sem aviso.

Segurei nas bordas da pia, abaixando a cabeça enquanto o peito arfava. Eu não chorei por pena. Chorei de raiva. Raiva do Roberto por ter me colocado ali. Raiva do Vincent por me tratar como linha de custo. E raiva de mim por ter aceitado a coleira.

O choro foi feio, silencioso, daqueles que queimam o olho e repuxam a barriga. Fiquei ali uns dez minutos, escondida no banheiro de um subdistrito, lavando a Lena Whitmore que tinha morrido naquela manhã e tentando entender como a Lena Blackwood ia sobreviver à noite.

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