Mundo ficciónIniciar sesiónO ALTAR NÃO ERA O QUE EU ESPERAVA
Assinei “Lena Whitmore” pela última vez do lado de fora, num balcão de fórmica descascada. Lá dentro, a burocracia do Estado de São Paulo levou onze minutos pra me transformar em ativo do império Blackwood. A sala do juiz de paz era um caixote sem janela. Um ventilador de teto girava devagar, rangendo a cada volta, empurrando um ar parado que cheirava a papel velho e naftalina. Não tinha flor. Não tinha música. Só eu, Vincent Blackwood, o homem do isqueiro dourado segurando a pasta como se fosse carro-forte, e um juiz com cara de quem queria estar em qualquer outro lugar. Ficamos lado a lado na frente da mesa de madeira. Vincent manteve uma distância calculada de uns vinte centímetros entre nossos ombros. Nosso braço não encostou uma vez. Enquanto o juiz lia o texto do casamento civil com voz anasalada e cansada, eu olhei pro lado. Vincent não olhava pra mim nem pra ele. Fixou o olhar num ponto da parede encardida atrás da cadeira do juiz, a postura tão rígida que parecia estátua de granito de terno. Ele estava ali de corpo presente, mas a cabeça provavelmente já estava na próxima reunião, calculando lucro ou derrubando concorrente. Pra ele, aquilo não era casamento. Era fusão hostil. — É de livre e espontânea vontade que os senhores assumem o matrimônio? — o juiz perguntou, abaixando os óculos na ponta do nariz. A palavra “livre” travou na minha garganta. Pensei no meu pai, na cela, no horário do alvará. Engoli seco. — Sim — minha voz saiu mecânica. — Sim — Vincent respondeu meio segundo depois, no mesmo tom raso. — As alianças — o juiz pediu, estendendo a mão. Eu nem tinha pensado em aliança. O contrato falava em “aparências públicas”, mas esse detalhe passou batido no meio do pânico. O assessor de terno cinza deu um passo à frente, tirou uma caixinha de veludo preto do bolso e entregou a Vincent. Ele pegou um dos aros. Finalmente virou o rosto na minha direção. Os olhos de concreto não buscaram os meus. Miraram direto na minha mão esquerda. — A mão, Lena — ele falou baixo. Ergui a mão, os dedos tremendo de leve. Vincent segurou meu pulso. Foi a primeira vez que ele me tocou. A pele dele era quente, o polegar firme no osso do meu pulso, prendendo e ao mesmo tempo ancorando. Ele deslizou a aliança no meu dedo anelar. O metal tava gelado. Era um aro grosso de platina, cheio de diamante quadrado. Pesado, exagerado, impossível de ignorar. Não parecia símbolo de união; parecia coleira cara. Uma etiqueta de preço pra todo mundo ver de quem eu era. O juiz bateu um carimbo no livro. O baque ecoou na sala. — Os noivos podem se beijar — declarou, já puxando outro processo da pilha. Minha coluna endureceu. Eu me preparei pro toque, pro teatro que a Cláusula 5 exigia. Vincent soltou meu pulso. Não se inclinou. Não chegou perto. Abotoou o paletó com uma mão, fez um aceno curto pro juiz e virou as costas pra mim. — O motorista está esperando — disse, indo direto pra porta. Fiquei parada no meio da sala, com o dedo pesando de platina, enquanto o juiz chamava o próximo casal. A rejeição e o gelo não deveriam doer. Era contrato. Mas o jeito como ele me tratou — não como ameaça, nem como inimiga, só como nada — abriu um buraco no peito que eu não esperava. Saí da sala apressando o passo pra alcançar os dois no corredor. Vincent estava perto da saída, olhando o celular. O assessor esperava dois passos atrás. — Minha equipe vai até o seu apartamento ao meio-dia — Vincent falou sem tirar os olhos da tela. — Eles vão coordenar a mudança. Separe só o que tiver valor pessoal. Roupas, móveis e o resto já estão providenciados na mansão. O que sobrar vai para um depósito. — Você tá jogando a minha vida inteira num depósito em três horas? — perguntei, sentindo a indignação subir. — Estou otimizando o seu espaço — ele corrigiu, guardando o celular e enfim me encarando. — Você é uma Blackwood agora. Comporte-se como tal. O carro vai te levar pra casa pra você empacotar. Te vejo no jantar. Ele não esperou resposta. Virou e saiu pela porta de vidro, o assessor na cola. Fiquei sozinha no corredor cheio, enquanto as pessoas desviavam de mim pra ir pros guichês. O ar pareceu falhar. O peso das últimas vinte e quatro horas — prisão, chantagem, contrato, assinatura no escuro, aliança brilhando grotesca na luz fria — caiu de uma vez. — Com licença — murmurei pra uma mulher que passou, a visão embaçando. Empurrei a porta do banheiro feminino no fim do corredor e tranquei no trinco torto. O lugar tava sujo. Cheiro de cloro barato e encanamento velho. A pia de cerâmica era rachada. Fui até ela, abri a torneira dura e deixei a água gelada correr pelas mãos. A aliança bateu na louça, fazendo um som agudo. Olhei pro espelho manchado. A mulher ali usava o vestido da formatura que não ia acontecer, tinha olheira funda e uma joia que valia mais que o prédio onde morava. O primeiro soluço subiu sem aviso. Segurei nas bordas da pia, abaixando a cabeça enquanto o peito arfava. Eu não chorei por pena. Chorei de raiva. Raiva do Roberto por ter me colocado ali. Raiva do Vincent por me tratar como linha de custo. E raiva de mim por ter aceitado a coleira. O choro foi feio, silencioso, daqueles que queimam o olho e repuxam a barriga. Fiquei ali uns dez minutos, escondida no banheiro de um subdistrito, lavando a Lena Whitmore que tinha morrido naquela manhã e tentando entender como a Lena Blackwood ia sobreviver à noite.






