Na frente do chefe

SAVANNAH HAYES

— Anda logo, menina, antes que alguém perceba que você tá perdida.

A copeira mais velha nem desacelerou enquanto atravessava o corredor do andar executivo, e eu precisei apertar a bandeja contra o corpo para acompanhar o ritmo dela sem escorregar no salto. O carpete escuro abafava nossos passos, mas meu coração continuava barulhento o suficiente para compensar. A mulher ajeitou os óculos no rosto e suspirou cansada antes de olhar rapidamente para mim por cima do ombro.

— Quase surtei quando soube que mandaram você pra cá hoje.

— Eu também surtaria — murmurei.

Ela soltou uma risadinha nasal.

— Você é a Savannah, né? A boca grande.

— Nossa, que fama bonita.

— Relaxa. Aqui em cima todo mundo tem fama de alguma coisa. A do Sinclair, por exemplo, é de ser um viciado em trabalhar.

— Reconfortante ouvir isso cinco minutos antes de eu entrar na toca dele.

Ela riu de novo, mas diminuiu o tom de voz quando viramos outro corredor. As paredes eram escuras e elegantes em que obras modernas decoravam os corredores e as janelas de vidro mostravam Manhattan inteira coberta pela chuva da manhã.

A copeira percebeu meu olhar e soltou um suspiro.

— Primeira vez aqui em cima?

Assenti, sentindo o olhar dela me analisando.

— Dá pra notar?

— Você tá olhando para tudo como se algo fosse pular em você.

Olhei para uma das obras abstratas na parede, e logo pensei que meu filho faria rabiscos melhores.

— E quanto custa um negócio desse?

— Mais que meu carro.

Continuei andando em silêncio enquanto tentava não parecer impressionada demais.

A copeira que me guiava mexeu no coque preso na nuca e abaixou um pouco a voz:

— Escuta aqui. Não fala se ninguém perguntar nada, não interrompe reunião e, pelo amor de Deus, não derruba café no senhor Sinclair.

— Tá bom, já entendi essa parte.

Ela quase sorriu enquanto finalmente parava diante de portas duplas enormes de vidro escuro. Mesmo fechadas, dava para ouvir vozes abafadas do outro lado.

A mulher respirou fundo, ajeitou o uniforme e então olhou para mim.

— Sala principal. O CEO tá aí dentro.

— Ótimo, me deseje sorte.

Ela empurrou uma das portas, e foi naquele momento que eu percebi que até as salas de reunião dos diretores pareciam pobres comparadas àquilo. A mesa era gigantesca, feita de madeira escura brilhante. Havia telas embutidas nas paredes, iluminação dourada suave e janelas enormes mostrando Manhattan inteira coberta pela chuva cinzenta da manhã.

Os homens da sala discutiam números absurdos como se milhões fossem troco de supermercado. Enquanto isso, eu tinha feito cálculo mental pra comprar pão antes de acabar o salário.

Desviei os olhos antes que alguém percebesse meu choque. Continuei andando em silêncio com a bandeja nas mãos enquanto tentava ignorar o fato de que provavelmente havia mais dinheiro naquela sala do que eu ganharia em toda minha vida.

Meus olhos levantaram por um instante, mas foi o suficiente para encontraram o homem do carro preto sentado na ponta da mesa. Nunca imaginaria que meu chefe seria um barbeiro no transito. Meu chefe, um bilionário no qual joguei pedra no carro.

“Isso não pode piorar...” pensei enquanto tentava manter a calma diante dele. “Preciso desse emprego... preciso desse emprego...”

Sem o vidro do carro entre nós, Damien parecia ainda maior sentado naquela cadeira escura na ponta da mesa. O terno preto estava alinhado de um jeito tão perfeito que fazia ele parecer saído da capa de uma revista sobre homens ricos e emocionalmente indisponíveis.

Os olhos azuis percorriam relatórios sobre a mesa enquanto executivos falavam sem parar ao redor dele e mesmo sentado em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos, ainda era o homem mais poderoso dali.

“Meu Deus.”, pensei de novo. “Eu ia perder o emprego e ser despejada e provavelmente criar o Noah embaixo de uma ponte.”

Apertei a bandeja com tanta força que meus dedos doeram.

Dei meia volta e comecei a recuar em direção à porta.

Porém os olhos dele levantaram e fitaram direto para mim, mesmo que estivesse de costas conseguia sentir. Damien interrompeu o homem que falava no meio da frase apenas levantando a mão.

A sala inteira ficou em silêncio.

Ele inclinou a cabeça, sem reconhece minha presença ali. Ele parecia saber que eu não era a mesma copeira que sempre servia o café dele. Isso era estranho para mim, pois vestir uniformes sempre foram minha capa de invisibilidade.

— Nós nos conhecemos?

“Pronto, acabou.” Pensei enquanto me despedia mentalmente de meu trabalho. “Adeus emprego. Adeus aluguel. Adeus comida.”

Respirei fundo e me virei de novo, agora ficando de frente para ele. Forcei meu rosto a permanecer neutro e apenas balancei a cabeça de forma negativa.

Evitei falar porque minha voz provavelmente entregaria tudo e também porque aquele homem definitivamente lembraria da mulher que tinha falado que ele tinha “problemas fálicos”

Ele continuou me encarando por mais alguns segundos, mas kogo voltou a atenção pros documentos na mesa como se eu tivesse deixado de existir.

Meu corpo inteiro relaxou ao mesmo tempo e comecei a servir os cafés tentando ignorar o quanto minhas mãos queriam tremer.

Quando comecei a servir ele, lembrei das instruções da Martha.

Três dedos de café, sem açúcar ou adoçante.

Coloquei a xícara diante dele com cuidado, observando o café escuro balançar dentro da porcelana. Tomar algo tão amargo assim deveria ser deplorável.

Damien pegou a xícara sem pressa, ainda analisando os documentos espalhados à sua frente. A sala inteira parecia funcionar em torno dele de um jeito irritante, pois mesmo sentado e em silêncio, ainda era impossível não notar sua presença dominando o ambiente. O relógio caro brilhava de forma discreta no pulso enquanto ele levava o café aos lábios e tomou um gole.

Fiquei parada segurando a bandeja com alguns copos restantes em cima, tentando parecer invisível enquanto Damien olhava para mim.

— Café puro?

Balancei a cabeça, sem coragem de abrir a boca. Bastava uma frase atravessada e aquele homem reconheceria a voz da mulher que tinha jogado uma pedra no carro dele menos de duas horas antes.

Então ele tomou outro gole do café.

— Uma copeira que sabe fazer um bom café é raro de se ver.

Me segurei para não revirar os olhos.

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