Mundo de ficçãoIniciar sessãoSAVANNAH HAYES
Continuei em silêncio, com a postura rígida enquanto sentia nervosismo me comer por dentro. Damien inclinou a cabeça, ainda me observando daquele jeito analítico que começava a me incomodar. — Tem certeza de que nunca nos vimos? Balancei a cabeça outra vez. O silêncio ficou estranho, longo o suficiente para alguns executivos trocarem olhares discretos pela mesa. Um deles pigarreou baixo antes de voltar à apresentação no telão, retomando os números da filial de Berlim numa tentativa quase desesperada de fazer a reunião continuar. Aproveitei o momento no mesmo segundo. Virei em direção à porta, já tentando sair daquela sala antes que Damien resolvesse continuar o interrogatório silencioso. Minha mente estava tão ocupada celebrando o fato de ainda não ter sido demitida que demorei alguns segundos para perceber que tinha cometido um erro ridículo, pois dois executivos no final da mesa ainda estavam sem café. Continuei andando sem olhar para trás, tendo cuidado para não tropeçar. Atravessei a sala e saí pro corredor tentando recuperar a capacidade de respirar. Coloquei a bandeja sobre uma pequena mesa decorativa perto da parede e quase derrubei o vaso enorme em cima dela no processo. Segurei o objeto no último segundo. — Não, não, não… pelo amor de Deus… Olhei em volta para me certificar que ninguém viu. Soltei o ar devagar enquanto apoiava as duas mãos na mesa tentando me recompor. Meu coração ainda batia rápido demais e tudo porque meu chefe definitivamente tinha me reconhecido. Passei a mão no rosto antes de ajeitar o coque outra vez e voltar pro trabalho. Ainda tinha muita coisa a fazer. O resto da manhã evitei o andar executivo sempre que podia, me escondi atrás de tarefas menores, organizei documentos, servi café em outras salas e me ofereci para qualquer serviço que me mantivesse longe da sala do CEO. Mas, para minha infelicidade, homens de terno aparentemente funcionavam movidos à cafeína. Então eu continuava subindo e descendo corredores carregando bandejas enquanto tentava não pensar no fato de que tinha jogado uma pedra no carro do homem mais poderoso daquele prédio. Duas vezes quase encontrei o CEO de novo. Na primeira, ouvi a voz dele virando o corredor e literalmente entrei numa sala de arquivos vazia fingindo procurar pastas. Na segunda, Natalie Harrington saiu do elevador executivo ao lado dele usando um tailleur creme impecável enquanto os dois discutiam alguma coisa sobre investidores. Damien nem sequer olhou pros lados, mas eu desviei tão rápido que quase bati num carrinho de limpeza. A copeira mais velha que trabalhava comigo me lançou um olhar desconfiado. — Você está passando mal? — Tô passando por pobreza. Ela deu de ombros aceitando a resposta. Quando finalmente saí da Sinclair Corporation já estava escurecendo em Manhattan e meus pés pareciam prestes a entrar com um processo judicial contra mim. Passei no mercado antes de voltar pra casa, fazendo contas mentalmente enquanto empurrava o carrinho pequeno entre as prateleiras com leite, pão e frutas para Noah. O dinheiro ainda estava apertado, mas pelo menos naquele mês eu tinha conseguido pagar o novo inalador dele sem atrasar o aluguel. Já era noite quando subi as escadas do prédio segurando as sacolas pesadas nos braços. O apartamento estava quieto quando entrei, e minha avó apareceu na cozinha usando o velho casaco de tricô azul. — Finalmente. — O metrô tava um inferno. — Ele comeu um pouco hoje. Olhei para o pequeno quarto no fim do corredor e encontrei Noah dormindo abraçado ao ursinho velho de sempre, completamente esparramado na cama. Os dias seguintes passaram rápido depois disso. Meu filho foi melhorando aos poucos da crise asmática enquanto eu continuava me dividindo entre trabalho, metrô, mercado, contas atrasadas e poucas horas de sono. E, por um milagre, consegui evitar Damien Sinclair. ━━━━━━◇x◇━━━━━━ Naquela mesma noite, depois de colocar Noah na cama e tomar um banho rápido o suficiente pra não correr risco da água quente acabar, eu já estava atravessando outra porta de funcionário. Dessa vez usando avental preto e segurando um bloco de pedidos. O restaurante ficava no centro de Manhattan e tentava parecer sofisticado. Luz baixa, vinho caro e homens engravatados fingindo entender de culinária italiana enquanto tratavam garçons como escravos. Meu turno começava às sete da noite e eu saía quase uma da manhã. — Mesa seis tá reclamando do risoto outra vez — Lila avisou enquanto surgia do meu lado equilibrando três taças de vinho numa bandeja. Soltei uma risada cansada. — Claro que tá. Lila riu alto enquanto prendia o cabelo cacheado num coque improvisado. Ela trabalhava comigo fazia quase dois anos e era a única pessoa naquele restaurante que eu gostava de forma genuína. Peguei dois pratos da bancada antes de suspirar. — Se eu morrer hoje, promete apagar meu histórico de pesquisa do celular? — Só se você prometer me deixar ficar com suas gorjetas. — Interesseira. — Apenas sou esperta, lide com isso. Entreguei os pratos numa mesa de executivos bêbados enquanto tentava ignorar a dor constante nas pernas. Meu corpo inteiro parecia cansado ultimamente. Não só fisicamente. Quando voltei pra cozinha, Lila já me esperava encostada na parede perto da área dos funcionários segurando duas latinhas de energético barato. Jogou uma na minha direção. — Você tá com uma cara horrível hoje. Abri a lata imediatamente. — Obrigada. Você também tá linda. Ela me observou por alguns segundos em silêncio antes de estreitar os olhos. — Noah piorou? Meu rosto ficou obscuro de um jeito automático. — Crise asmática e febre. Passei a madrugada de ontem acordada. — Savannah… — Tá tudo bem. — Não tá. Desviei os olhos enquanto tomava outro gole do energético. Porque ela tinha razão, eu não tava. Lila cruzou os braços. — Você tá trabalhando demais. Soltei uma risada cansada. — Jura? Achei que três empregos e uma criança fossem recomendação médica. Ela não riu dessa vez. — Você precisa de ajuda. Apertei a lata com mais força entre os dedos. — Ah, claro. Vou ligar pro pai do Noah. Quem sabe ele atende depois dos últimos quatro anos desaparecido igual um rato covarde. Lila suspirou devagar. — Você devia pelo menos procurar um advogado pra pedir pensão. — Pra quê? — Porque o filho é dele também. Balancei a cabeça de forma negativa. — Aquele idiota sumiu no mundo no segundo em que descobriu a gravidez. Nem mensagem mandou depois que Noah nasceu. Lila me observou em silêncio. — Mesmo assim… você não devia carregar tudo sozinha. Soltei uma risada enquanto pegava a bandeja mais uma vez. — Não tenho tempo pra desmoronar agora. Ela abriu a boca pra responder alguma coisa, mas o gerente apareceu gritando pedidos da cozinha. Então voltamos ao trabalho, porque conta atrasada infelizmente não se pagava com crise emocional.






