Mundo de ficçãoIniciar sessãoSAVANNAH HAYES
Desliguei o secador enquanto a outra copeira fingia enorme interesse no próprio armário. — Bom dia pra você também — murmurei. — Isso aqui parece horário de chegada pra você? Respirei fundo pelo nariz. Eu não podia responder ela da forma que eu queria por três motivos: Porque Noah está doente, o aluguel vence sexta e porque eu precisava de exatamente três empregos para bancar meu filho e minha avó que recebia meia aposentadoria. — O ônibus atrasou. A copeira chefe suspirou, ela óbvio que para ela “ônibus atrasado” não era um motivo forte o suficiente. — Engraçado. Porque as outras vinte copeiras conseguiram chegar no horário. Minha língua coçou, tanto que tive que mordê-la, porém pensei no Noah queimando de febre de madrugada e apenas abaixei os olhos enquanto prendia o crachá no uniforme. — Desculpa. A expressão dela ficou mais acolhedora, ela sabia as dificuldades que eu passava. Peguei o avental preto no armário enquanto ela continuava me observando. Martha sabia de tudo, mais do que precisava. Ela sabia dos meus três empregos, das minhas noites insones, que o pai do Noah tinha sumido da face da Terra quatro anos atrás e que eu carregava o mundo nas costas. Às vezes eu achava que ela me dava menos bronca porque tinha pena. — Escuta — ela disse mais baixo — eu posso chamar outra copeira para cobrir seu turno da noite hoje. A intenção dela era boa, mas menos trabalho significava menos dinheiro. — Não precisa. — Savannah. — Eu consigo. Martha ficou me encarando por alguns segundos antes de revirar os olhos. — Você é teimosa igual uma mula. — E você parece uma sargentona. — É por isso que essa copa ainda funciona. Então ela pegou uma prancheta e mudou de postura, ativando um trejeito mais serio, o seu modo chefe. — Escutem com atenção porque hoje ninguém pode errar. Quando Martha falava assim, significava desastre corporativo vindo aí. — O senhor Sinclair voltou da Alemanha essa madrugada. Parei no meio do movimento. — O CEO? — Não, o Papai Noel — ela respondeu, sem paciência. — Claro que o CEO. Nunca tinha visto Damien Sinclair pessoalmente, na verdade ninguém da copa via. Aquele homem passava mais tempo viajando fechando contratos milionários do que dentro da própria empresa. Durante meu primeiro ano ali, ouvi histórias suficientes pra criar um filme de terror corporativo. Pelos boatos entre os seus próprios funcionários ele era frio, arrogante., obcecado por perfeição e demitia gente sem nem piscar. E na minha cabeça tudo isso significava que ele não passava de um riquinho mimado. — E o que isso tem a ver comigo? Martha me entregou uma bandeja prateada e meu estômago embrulhou. — Você vai servir o andar executivo hoje. — O quê? — A equipe de lá tá desfalcada. — Martha… — Sem discussão. Passei a mão no rosto. — Estou acabada. — Não importa, acabada ou não você ainda tem que trabalhar. — Pelo visto é ir ou ir. Ela ignorou meu comentário e começou a organizar algumas xícaras na bandeja. — O senhor Sinclair odeia atrasos, odeia erros e odeia funcionários respondões. — Então ele vai me odiar. Martha apontou um dedo pra mim. — E segura essa sua boca hoje. — Eu sempre seguro. Ela me lançou um olhar incrédulo. — Savannah, semana passada você mandou um diretor “aprender a limpar a própria sujeira”. — Porque ele derrubou café no chão e estalou os dedos pra mim como se eu fosse uma cadela. — Você não pode responder clientes assim. Cruzei os braços depois de amarrar o avental na cintura. — Posso, sim. Só não devia. Algumas copeiras que organizavam a copa soltaram risadinhas abafadas. Martha lançou um olhar tão mortal na direção delas que o ambiente inteiro voltou ao silêncio imediatamente. — Vocês duas, parem de ouvir conversa e terminem aquelas bandejas. As funcionárias saíram fugidas dali. Martha esperou até o restante do pessoal se dispersar pelo corredor antes de voltar a olhar pra mim. Então fez um gesto com os dedos me chamando. — Vem aqui. Aproximei, mas com uma certa desconfiança. Ela abaixou a voz, sussurrando apenas para mim ouvir. — Escuta com atenção porque o senhor Sinclair implica com tudo. Revirei os olhos. — Que surpresa. Martha ignorou o meu comentário. — O café dele tem que ser cem por cento puro. Sem açúcar, sem adoçante ou mel. — Que emocionante. — Savannah. Levantei as mãos em rendição e ela continuou: — E coloca só três dedos de café na xícara. Franzi a testa. — Três dedos? — Exatamente três. Nem mais, nem menos. — O CEO milionário mede café agora? Martha se aproximou ainda mais e sussurrou de novo: — Porque ele odeia que derrame uma gota quando tá andando. Disse que mancha os ternos. Fiquei encarando ela por vários segundos, mas não consegui segurar uma risada desacreditada. — Meu Deus, rico realmente vive em outro planeta. — Savannah. — Não, sério. Imagina ter uma vida tão tranquila a ponto da maior preocupação ser café pingando em Armani. Martha apertou a ponte do nariz, tentando se conter para não me sacudir até que algum senso entrasse em minha cabeça. — É justamente essa boca que vai te colocar na rua algum dia. — Se eu for demitida porque o príncipe bilionário não suporta uma gota de café no terno, pelo menos vou embora com uma história boa. Martha apontou um dedo para mim. — E tenta não encarar o homem. — Por quê? Vou virar pedra? — Porque metade das mulheres daquele andar esquecem como funciona a própria respiração perto dele. Soltei uma gargalhada. — Ah, por favor. Homem bonito não paga minhas contas. — Esse homem paga as contas de metade de Manhattan. — Ele deveria me dar um aumento, então. Assim eu não precisaria de três empregos. Martha suspirou com uma expressão de derrota, então ajeitou a gola torta do meu uniforme como fazia às vezes. — Só faz seu trabalho e não faça com que o chefe a demita. Sorri, tentando conter minha língua outra vez. — Sem promessas. Me virei e caminhei em direção aos elevadores executivos enquanto meu coração começava a bater mais rápido sem motivo aparente. Talvez fosse porque ele era um CEO bilionário. E homens ricos costumavam ter um olhar tão arrogante que fazia todos ao redor parecerem formigas em seu caminho. Mas eu não iria ser uma formiga em seu caminho, nunca me deixei ser pisada e aquela não seria a primeira vez.






