2 Jogo de Prazer

Jay Franklin

​As batidas violentas na porta de madeira maciça me arrancaram do melhor momento do meu sono. Minha noite havia sido um borrão de uísque caro, música alta e corpos que eu mal lembrava o nome; meu corpo protestava contra a gravidade. Antes que eu pudesse sequer rosnar para que me deixassem em paz, Mary empurrou a porta e invadiu o quarto com sua energia habitual.

​— Uou! Eu poderia estar completamente pelado, sabia? — reclamei, jogando o braço sobre os olhos para aplacar a claridade da manhã de Los Angeles que invadia as frestas da cortina.

​— Não há nada aí que eu já não tenha visto desde que você era um projeto de homem. Portanto, nada que possa me impressionar — rebateu ela, afoita, abrindo as cortinas de uma vez.

​— Isso é porque você nunca me viu em ação, Mary.

​— Me respeita, seu moleque! — Ela parou com as mãos nas gorduchas ancas. — Estou velha, mas ainda sei dar uma boa puxada de orelha se você passar dos limites.

​— O que você deseja, minha coroa gostosa? — Aproximei-me por trás e a enlacei em um urso de braços, recebendo um tapa estalado no antebraço como recompensa.

​— Já viu que horas são, Jay? O senhor Franklin já ligou três vezes para saber se você já saiu de casa e foi para a empresa.

​— Ah, Mary, meu pai é um chato de galochas. Sou o herdeiro de toda aquela fortuna. Posso chegar lá a hora que eu bem entender. — Bufei, sem esconder a minha chateação enquanto passava a mão pelo cabelo desalinhado.

​— Não é assim que a banda toca, e você sabe disso. Estou nesta família desde antes de você nascer e seu pai sempre foi o primeiro a pisar na empresa, faça chuva ou faça sol.

​— O mundo mudou. Foi o senhor Albert Franklin que ainda não percebeu isso. — Dei de ombros, caminhando em direção ao banheiro da suíte. — Vou tomar um banho e ir logo para a Maçã Vermelha antes que ele declare a Terceira Guerra Mundial na minha cabeça.

​— A Claire também ligou — Mary soltou, antes que eu fechasse a porta. — Na verdade, ligou ontem à noite, furiosa porque você não atendia o celular.

​— E o que você disse para a nossa querida ninfeta?

​— Que você estava dormindo como um anjo. Já estou virando uma especialista em mentir por você.

​— É por isso que eu te amo. — Voltei rápido, a abracei novamente por trás e depositei um beijo estalado em sua nuca. — Gordinha gostosa.

​— Para com isso, garoto chato! — reclamou ela, mas a vi sorrir pelo reflexo do espelho enquanto recolhia do chão as roupas que eu havia deixado espalhadas quando cheguei bêbado de madrugada.

Tranquei-me no banheiro, precisava ir para empresa.

​(...)

​Eu caminhava a passos largos pelo corredor do nono andar, ajeitando o punho do meu paletó sob medida, quando algo no chão de carpete escuro atraiu minha atenção. Próximo ao rodapé de madeira, brilhava um pequeno objeto de plástico preto e fosco.

Abaixei-me e o recolhi. Reconheci o design ergonômico instantaneamente. Era um dos nossos controles remotos de última geração para a linha de estimuladores subcutâneos, e o mais estranho: ainda estava envolto no plástico de proteção de fábrica, como se tivesse acabado de ser tirado da caixa.

Não era comum ver nossos produtos mais exclusivos jogados pelos corredores corporativos. Alguém da equipe de testes ou alguma modelo de catálogo devia tê-lo derrubado. Joguei o aparelho no bolso interno do paletó. Se ninguém do andar aparecesse procurando por ele, eu o devolveria ao estoque de desenvolvimento mais tarde.

Assim que empurrei a porta de vidro da antessala da diretoria, Cameron, minha secretária, me encarou. Ela me lançou um olhar atravessado, daqueles que misturam ressentimento e orgulho ferido.

​Eu entendia o motivo. Há algumas semanas, andei dando umas pirocadas nela na mesa da própria sala de arquivos, mas tinha sido apenas isso. Diversão de uma noite. Agora ela agia como se eu devesse a ela um compromisso, irritada porque eu não demonstrava o menor interesse em repetir a dose. Na minha opinião, para eu querer repetir um prato, ele precisava ser verdadeiramente excepcional. E Cameron era apenas comum.

​— Estão todos te esperando na sala de conselho, Jay. Seu pai não parece nada feliz — ela disse, com a voz carregada de veneno.

​— Obrigado, querida.

​Entrei na sala de reuniões e o clima pesado quase pôde ser cortado com uma faca. Meu pai, o senhor Albert Franklin, estava sentado na cabeceira da mesa longa de vidro, com a expressão fechada e os olhos semicerrados direcionados a mim. Péssimo sinal.

​Ao redor da mesa, a fauna corporativa estava completa. Havia diretores que eu mal conhecia, investidores de terno cinza e, claro, Gary — o abutre puxa-saco oficial da empresa, que parecia salivar na expectativa de ver meu pai me deserdar para assumir o meu lugar na linha de sucessão.

​No entanto, o ambiente não estava de todo perdido. Notei que haviam contratado algumas secretárias e assistentes novas para dar suporte aos departamentos. Mulheres extremamente gostosas, do tipo que Los Angeles cria de monte: corpos esculpidos que faziam muito bem para os meus olhos e que, inevitavelmente, faziam minha piroca endurecer contra o tecido da calça social.

​Mas houve uma que me chamou a atenção de um jeito diferente. Sentada no canto esquerdo, com um bloco de notas nas mãos, estava uma garota nova. Tinha um ar de nerdzinha, uma expressão recatada e um rosto limpo que gritava "moça da igreja". Mas por trás daquela postura tímida e do terno comportado, havia curvas escondidas e uma boca que parecia feita para o pecado. Ela tinha cara de ser o tipo de gostosinha que chora na cama.

​Como de costume, a reunião começou e o assunto tornou-se um tédio mortal em menos de dez minutos. Gráficos de logística, relatórios de exportação para a Europa... um saco. Meu lance sempre foi o marketing, a criação, o desejo. Aqueles números me davam sono.

​Para não bocejar na cara do meu pai e fazê-lo explodir, enfiei a mão no bolso do paletó em busca de distração. Meus dedos tocaram a textura emborrachada do controle remoto que eu encontrara no corredor.

​Uma ideia absurda, puramente movida pelo tédio e pela minha total falta de escrúpulos, surgiu na minha mente.

​E se o dono dessa belezinha estivesse bem aqui dentro?

​Se alguma das funcionárias ou modelos estivesse testando o produto correspondente embaixo daquelas roupas sociais sérias, eu perceberia no mesmo segundo em que ligasse o aparelho. Los Angeles era a cidade das aparências, e a Maçã Vermelha era o epicentro do prazer oculto. Qual era a pior coisa que poderia acontecer? Uma vergonha passageira? Um susto? Para mim, seria pura diversão.

​Mantendo a mão escondida sob a mesa de vidro, deslizei o controle para fora do bolso. Meus dedos agiram por puro instinto sacana. Encontrei o relevo do botão e o pressionei, ligando o sinal de emparelhamento bluetooth de curto alcance.

​O led invisível piscou sob a madeira. Em seguida, com um sorriso de canto que disfarcei olhando para os gráficos na parede, deslizei o dedo pelo sensor lateral, arrastando-o direto para o nível máximo de intensidade de vibração.

​O silêncio da sala, que antes era preenchido apenas pela voz monótona do diretor de finanças, foi quebrado no mesmo décimo de segundo.

​Uma voz feminina, aguda e carregada de um choque puro de prazer, ecoou pelas paredes acústicas. Não foi um susto, foi um gemido sôfrego, agudo e úmido que reverberou por toda a mesa:

​— Oh, meu Deus...!

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