Mundo de ficçãoIniciar sessão
Ametista Davis
Sim. A culpa era toda de April! Ela me encurralara no corredor do apartamento, estendendo um pedaço minimalista de renda preta e um pequeno controle remoto texturizado. — Usa. Se você não experimentar, nunca vai entender o poder do que essa empresa vende. Vai te deixar levinha, boba — dissera ela, piscando de forma conspiratória antes de enfiar o aparelho de plástico fosco na minha mão.Sim, agora eu sou secretária da presidência de uma empresa de artigos de prazer. Faz parte do meu trabalho conhecer bem os produtos. Em outras palavras, sex toys.
Mas, se meu pai ainda estivesse vivo, com toda a sua devoção como um fervoroso cristão evangélico, ele provavelmente me arrastaria para fora daquele emprego pelos cabelos.
Para não perder a condução, acabei cedendo. Agora, a calcinha, se é que aquele emaranhado de fios estratégicos e um pequeno bulbo de silicone discretamente posicionado contra a minha intimidade podia ser chamado assim, parecia vibrar com a mera eletricidade estática do meu próprio corpo. Cada passo que eu dava no mármore polido do saguão gerava um atrito sutil, uma pressão velada que enviava choques térmicos direto para o meu baixo ventre.
Para piorar, o trajeto de ônibus sob o trânsito caótico de LA fora um inferno. A saia social justa limitava meus movimentos, e a meia-calça barata pinicava a minha pele com uma insistência sádica. No empurra-empurra para desembarcar, um objeto qualquer rasgara o tecido, puxando um fio enorme que agora subia pela minha panturrilha como uma cicatriz desleixada. Destruía completamente a imagem de secretária impecável que eu tanto precisava projetar. Entrei no elevador social acompanhada por três executivos de terno. O silêncio era quebrado apenas pelo suave zumbido do motor e pelo perfume caro daqueles homens. Encarei os meus próprios sapatos, sentindo o suor frio brotar na minha nuca. O atrito da meia-calça rasgada contra o silicone da lingerie estava se tornando uma tortura deliciosamente perigosa. No sétimo andar, os últimos ocupantes desembarcaram. As portas se fecharam, deixando-me sozinha. O painel indicava que faltavam apenas dois andares para o meu destino. É agora ou nunca, pensei, com o coração batendo na garganta. Com um gesto rápido e impaciente, levei as mãos ao cós da saia, enfiando os dedos por baixo do tecido para agarrar a meia-calça. Mas, ao erguer os olhos, deparei-me com a lente escura e reluzente da câmera de segurança no canto superior do teto. A sensação nítida de que havia alguém do outro lado, observando a forma como meus dedos subiam pelas minhas próprias coxas, fez minhas entranhas se contraírem em um misto de pânico e uma excitação proibida que me assustou. Desistive imediatamente, soltando o tecido. Quando as portas se abriram no nono andar, um corredor silencioso, revestido de madeira escura e carpete espesso, estendeu-se diante de mim. O relógio no meu pulso corria implacável. Não havia tempo para procurar um banheiro. Guiada pelo puro impulso do desconforto, enfiei a mão sob a barra da saia enquanto caminhava, puxando a meia-calça para baixo com movimentos frenéticos e desajeitados. Consegui libertar a perna esquerda, sentindo a pele finalmente respirar, quando o desastre aconteceu. A alça da bolsa escorregou pelo tecido liso do meu blazer. O fecho magnético cedeu com o impacto no chão, e todo o conteúdo espalhou-se pelo carpete impecável: batons, chaves, moedas, cadernos de anotações e... o pequeno controle remoto fosco que April havia me obrigado a levar. — Que inferno! — praguejei em um sussurro, com a voz embargada pela frustração. Praticamente saltando de uma perna só, arranquei o restante da meia-calça rasgada, embolei-a em uma massa disforme e me abaixei rapidamente para recolher meus pertences. Minhas mãos agiam no piloto automático, jogando tudo de volta para o interior da bolsa. Eu não olhei direito. Não conferi item por item. O pânico de ser flagrada naquela pose humilhante pelo meu novo chefe falava mais alto. Ergui-me de um salto, joguei a bolsa no ombro e ajeitei a saia com um puxão firme. Respirei fundo, engolindo o nó de nervosismo que ameaçava me sufocar, e caminhei em direção à grande mesa de vidro que guardava a entrada da diretoria executiva. O relógio marcava exatamente o horário do início do expediente. Eu estava em cima da hora, mas estava pontual. O que eu não sabia, enquanto limpava uma gota invisível de suor da testa e tentava acalmar o fogo sutil que a calcinha secreta mantinha aceso entre as minhas pernas, era que, no chão do corredor, a poucos metros dali, um pequeno objeto de plástico preto e fosco havia ficado para trás, repousando discretamente contra o rodapé. E os passos firmes e imponentes que começavam a ecoar no final do corredor pertenciam ao homem que mandava em todo aquele império de Los Angeles.






