Mundo de ficçãoIniciar sessãoAs 14h55 Thaís já tinha a sala preparada:
Garrafa de água gelada, copos, a pasta do relatório financeiro aberta na página certa e o caderno de anotações ao lado. O ar-condicionado estava na temperatura que Alex preferia, ela tinha reparado isso quando passou na sala mais cedo. Pontualmente às 15h, a porta se abriu. Entraram três homens de terno escuro e, logo atrás, Isabela, com um sorriso forçado e uma pasta nas mãos. — Boa tarde, Alex — Isabela disse, caminhando direto para a cadeira ao lado da cabeceira, a que sempre ocupava. Alex ergueu a sobrancelha e olhou para Thaís. Thaís, sem hesitar, disse: — Sra. Isabela, a senhora fica na terceira cadeira à esquerda. Essa aqui é reservada para o Sr. Henrique, diretor financeiro. O sorriso de Isabela vacilou. — Como é? Eu sempre me sento aqui. — E hoje o senhor Henrique vai se sentar aqui — Thaís respondeu, tom profissional, sem rudeza. — Por favor. Isabela olhou para Alex, esperando que ele interviesse. Ele apenas cruzou os braços e observou. — Ela está certa, Isabela — ele disse, voz neutra. — Sente-se onde ela indicou. Isabela se sentou, os dedos apertando a pasta com força. A reunião começou. Henrique apresentou os números do trimestre, os outros dois diretores fizeram perguntas. Thaís anotava tudo, atenta, e quando Henrique mencionou um “déficit de 8% na área de marketing”, ela ergueu a mão. — Com licença, Sr. Henrique — disse —o relatório que recebi mostra 6,2%. O senhor está usando a versão atualizada? Silêncio. Henrique franziu a testa, folheou a pasta e viu que, de fato, estava com a versão antiga. — Você tem razão — admitiu, meio sem graça. — Obrigado, Thaís. Isabela revirou os olhos, mas não disse nada. Perto do fim, Isabela tentou tomar a palavra antes da vez: — Alex, eu acho que deveríamos… — Thaís — Alex a interrompeu, olhando para ela —, anota o ponto da Isabela e me passa depois. Vamos seguir a ordem da pauta. Thaís anotou, confirmou com a cabeça. Quando a reunião terminou, os diretores se levantaram e saíram. Isabela foi a última. Antes de sair, parou ao lado da mesa de Thaís. — Você só está aqui porque ele está encantado — sussurrou. — Quando ele enjoar, você volta pro seu lugar. Thaís a encarou, sem raiva, só com firmeza. — Talvez. Mas enquanto eu estiver aqui, a senhora vai respeitar a ordem da pauta. Isabela saiu batendo a porta de novo. Alex ficou, fechou a porta e se encostou na mesa de Thaís. — Você percebeu o erro do Henrique antes de todo mundo — ele disse. — E não deixou a Isabela atropelar a reunião. Thaís deu um sorriso pequeno, aliviada. — Eu só… não quero que pensem que estou aqui por outro motivo que não seja trabalho. Alex a observou por um momento, depois disse baixo: — Você está aqui porque é competente. O resto é consequência. Ele voltou para sua cadeira, mas antes de se sentar acrescentou: — Continue assim. Foi exatamente o que eu esperava ver. Thaís sentiu o rosto esquentar, abriu o caderno e começou a organizar as anotações. A reunião tinha terminado, mas ela sabia que aquela era só a primeira de muitas outras provas. O relógio marcava 18h02 quando Thaís desligou o computador, guardou o caderno na bolsa e ajeitou o crachá. O dia tinha sido intenso, mas ela saiu da sala com a sensação de que tinha, finalmente, encontrado seu lugar. No corredor, enquanto esperava o elevador, Henrique apareceu do outro lado, também com o paletó no ombro. — Thaís! — ele disse, acelerando o passo. — Que coincidência. Vai pra casa agora? — Vou sim, Sr. Henrique — ela respondeu, educada. Ele se aproximou, parando bem perto, um sorriso fácil no rosto. — Pode me chamar de Henrique, vai. Depois de uma reunião daquelas, a gente pode ser menos formal. Se quiser, te acompanho até o estacionamento. Eu conheço um atalho que evita o trânsito da avenida. Thaís ia responder, já abrindo a boca para agradecer, quando uma voz cortou o ar atrás deles. — Henrique. Alex estava ali, parado a dois metros, mãos nos bolsos, expressão neutra — mas os olhos escuros estavam fixos, intensos. — Ah, Alex — Henrique se virou, surpreso. — Ia só acompanhar a Thaís até o carro. — Não precisa — Alex disse, dando um passo à frente e ficando entre os dois. — A Thaís tem um relatório urgente pra revisar comigo. São só 20 minutos, depois ela vai. Henrique piscou. — Relatório às 18h? Mas… — É sobre o ajuste que vimos na reunião — Alex interrompeu, tom calmo, mas sem espaço para discussão. — Você pode ir, Henrique. Eu me responsabilizo. Henrique olhou de Alex para Thaís, percebeu o brilho quase possessivo no olhar do presidente e recuou com um sorriso meio sem graça. — Tudo bem… Até amanhã, Thaís. — Até amanhã — ela respondeu, ainda confusa. Henrique se afastou, e assim que o elevador chegou e as portas se fecharam, o corredor ficou só com os dois. Alex ficou em silêncio por alguns segundos, o maxilar travado. — Você ia aceitar a carona dele? — ele perguntou, voz baixa. Thaís franziu a testa. — Eu ia só ser educada, Sr. Alex. Ele ofereceu um atalho. — Não — Alex corrigiu, e dessa vez a formalidade caiu. — Você ia aceitar a carona do Henrique. Ela sentiu o tom, o ciúme disfarçado de preocupação. — Alex, eu… Ele suspirou, passou a mão no cabelo e a encarou. — Eu não inventei esse relatório. Más não gostei de ver ele se aproximando de você desse jeito. Thaís ficou sem palavras. O homem que horas antes estava todo profissional agora mostrava um lado que ela não esperava.






