Capítulo 2

Isabella sentiu o peito apertar enquanto as lembranças vinham, uma após a outra, como facas afiadas.

Ela se lembrava perfeitamente de cada consulta médica.

De cada olhar cauteloso dos especialistas.

De cada vez que segurou um teste negativo com as mãos tremendo.

E, principalmente…

De como Ricardo sempre estava ao seu lado.

Sempre paciente.

Sempre compreensivo.

“Não é culpa sua, amor.”

“Vamos tentar de novo.”

“Eu estou com você.”

As palavras ecoaram em sua mente.

E, pela primeira vez…

Elas soaram erradas.

Falsas.

Uma sensação estranha começou a crescer dentro dela.

Pequena no início.

Mas incômoda.

Insistente.

E se…

Isabella franziu a testa, tentando afastar aquele pensamento.

Mas ele voltou.

Mais forte.

E se o problema nunca tivesse sido ela?

Aquilo não fazia sentido.

Todos os exames apontavam dificuldades.

Nunca uma resposta clara.

Nunca um motivo exato.

Sempre algo inconclusivo.

Ela engoliu seco.

E se havia algo… sendo escondido?

— Não… — sussurrou para si mesma.

Aquilo era loucura.

Ela estava apenas abalada.

Confusa.

Ferida.

Era normal pensar coisas sem sentido depois do que tinha acabado de descobrir.

Mas, ainda assim…

A dúvida não desapareceu.

Na manhã seguinte, Isabella acordou com os olhos inchados e o corpo pesado.

Ela quase não dormiu.

A imagem de Ricardo com outra mulher ainda queimava em sua mente.

Isabella não pensou duas vezes.

Ela precisava de respostas.

Sem avisar Ricardo.

Sem dar explicações.

Ela foi direto para uma clínica.

Horas depois, estava sentada diante do médico, com as mãos entrelaçadas e o coração acelerado.

— Senhora Isabella… seus exames estão completamente normais — disse ele.

Ela piscou, confusa.

— Normais?

— Sim. Não há nenhuma alteração que impeça uma gravidez saudável.

O mundo pareceu silenciar.

— Tem certeza…? — perguntou, quase sem voz.

— Absoluta.

Isabella ficou imóvel.

Então…

Todos aqueles anos…

Todas aquelas tentativas…

O problema não era ela.

Uma sensação estranha tomou conta de seu corpo.

Alívio… misturado com algo muito mais sombrio.

Desconforto.

Confusão.

Ela saiu do consultório sem dizer muito.

Sua mente estava longe.

Algo não encaixava.

Nada encaixava.

Quando chegou em casa, o silêncio a recebeu como um peso.

Aquela casa…

Que um dia foi um lar…

Agora parecia estranha. Fria.

Isabella deixou a bolsa sobre o sofá lentamente.

Seus olhos percorreram o ambiente.

Cada canto carregava memórias.

Mentiras.

Ela respirou fundo.

— Não… tem alguma coisa errada…

Seus passos a levaram até a cozinha.

Abriu armários.

Nada.

Geladeira.

Nada.

Ela passou a mão pelos cabelos, nervosa.

Então parou.

Pensou.

Ricardo sempre fazia questão de preparar algumas bebidas para ela.

Chás.

Sucos.

Vitaminas.

Dizia que era para ajudá-la a relaxar.

Seu estômago revirou.

Isabella foi até o quarto.

Abriu a gaveta dele.

Gravatas.

Relógios.

Perfumes.

Nada.

Outra gaveta.

Documentos.

Papéis.

Então…

Ela encontrou um pequeno envelope escondido no fundo.

Seu coração acelerou.

Com mãos trêmulas, ela abriu.

E o mundo parou.

Dentro havia várias cartelas de anticoncepcional.

Algumas vazias.

Outras pela metade.

Todas abertas.

Todas usadas.

A respiração de Isabella falhou.

— Não… — sussurrou.

Mas havia mais.

Muito mais.

Ela puxou o restante do conteúdo.

E encontrou fotos.

Mensagens impressas.

Conversas.

Datas.

Quatro anos.

Quatro anos de traição.

Quatro anos de mentiras.

Fotos de Ricardo com outra mulher.

Com Camila Albuquerque.

Viagens.

Restaurantes.

Momentos íntimos.

Tudo registrado.

Tudo guardado.

Como se aquilo fosse… normal.

Como se ela não existisse.

As mãos de Isabella começaram a tremer violentamente.

O envelope caiu no chão.

— Quatro anos… — sua voz saiu quebrada.

Quatro anos sendo enganada.

Quatro anos vivendo uma mentira.

E, ao mesmo tempo…

Quatro anos sendo impedida de ser mãe.

Seu olhar voltou para as cartelas.

Anticoncepcional.

Ele colocou isso nela.

Sem que ela soubesse.

Sem que ela permitisse.

O homem que prometeu amá-la…

Violou sua confiança da forma mais cruel possível.

Uma onda de náusea a atingiu.

Isabella correu até o banheiro e se apoiou na pia, ofegante.

As lágrimas caíam sem controle.

Mas, dessa vez…

Não era só dor.

Era raiva.

Uma raiva fria.

Profunda. Perigosa.

Ela levantou lentamente o rosto e se encarou no espelho.

A mulher que a encarava de volta…

Não era mais a mesma.

— Você acabou comigo… — sussurrou.

Seus olhos endureceram.

— Mas não vai me destruir.

Isabella voltou para o quarto com passos firmes.

Pegou o envelope.

As provas.

Tudo.

Ela não sairia daquela casa de mãos vazias.

Não mais.

Ricardo Ferraz achava que podia controlá-la.

Achava que ela nunca descobriria.

Achava que ela sempre seria fraca.

Um erro.

Um grande erro.

Porque, naquele momento…

Algo dentro de Isabella Duarte havia mudado para sempre.

E dessa vez…

Ela não seria a vítima.

Ela seria a mulher que iria acabar com tudo o que ele construiu.

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