Mundo de ficçãoIniciar sessãoRicardo Ferraz estacionou o carro na garagem já passando das dez da noite.
Ele soltou um suspiro cansado, afrouxando a gravata. Um leve sorriso surgiu em seus lábios. Isabella vai entender… Ela sempre entendia. Sempre acreditava quando ele dizia que estava trabalhando até tarde. Sempre aceitava. Sempre perdoava. Era exatamente isso que ele mais gostava nela. A facilidade. A previsibilidade. Ele saiu do carro com tranquilidade e entrou na casa como se nada estivesse errado. Como se não tivesse passado a noite inteira com outra mulher. — Isabella? — chamou, jogando as chaves sobre a mesa. Nenhuma resposta. Ele franziu levemente a testa, mas não se preocupou. — Ela já chegou? — perguntou à empregada que passava pela sala. — Sim, senhor. A senhora Isabella está no quarto desde que chegou. Ricardo assentiu, indiferente. — Certo. Subiu as escadas com passos calmos. Sem pressa. Sem culpa. Como se estivesse voltando para uma rotina normal. Ao abrir a porta do quarto, encontrou Isabella deitada na cama, de costas para ele. Imóvel. Silenciosa. Por um instante, algo pareceu estranho. Mas ele ignorou. — Amor… — disse, em tom suave, se aproximando. Sentou-se na beira da cama e inclinou o corpo para beijá-la. Mas antes que seus lábios a tocassem… Isabella virou o rosto. O gesto foi sutil. Mas carregado de repulsa. Ricardo franziu a testa. — Ei… — murmurou, soltando uma leve risada. — Está brava comigo? Silêncio. Ele passou a mão pelos cabelos, suspirando. — Eu sei, eu sei… cheguei tarde de novo. Tentou soar convincente. — O dia foi puxado. Reuniões, clientes… você sabe como é. Nada. Nenhuma resposta. Nenhuma reação. Isabella permaneceu imóvel. Fria. Distante. Aquilo o incomodou por um breve segundo. Mas logo ele deu de ombros. — Não faz drama, Bella… você sabe que eu faço isso por nós. Mentira. Ele se levantou, caminhando até o closet. Começou a tirar a roupa com naturalidade, como se tudo estivesse perfeitamente normal. Como se o mundo dela não tivesse sido destruído poucas horas antes. Minutos depois, voltou para a cama. Apagou a luz. E se deitou ao lado dela. Instintivamente, passou o braço ao redor da cintura de Isabella, puxando-a para perto. Mas, mais uma vez… Ela se afastou. Rapidamente. Como se o toque dele queimasse. Ricardo soltou um suspiro irritado. — Qual é, Isabella? Ainda assim, ela não respondeu. Não disse uma única palavra. Aquilo o incomodou mais do que ele gostaria de admitir. Mas o cansaço falou mais alto. — Amanhã a gente conversa… — murmurou, virando para o outro lado. Em poucos minutos… Ele dormiu. Tranquilo. Como se não tivesse feito nada de errado. Como se não tivesse destruído a própria esposa. O quarto mergulhou no silêncio. Pesado. Frio. Os olhos de Isabella se abriram lentamente na escuridão. Ela não havia dormido. Nem por um segundo. Seu corpo estava rígido. Sua mente… ainda mais. Ela virou o rosto devagar, observando Ricardo dormir ao seu lado. Tão tranquilo. Tão despreocupado. Tão… nojento. Uma onda de repulsa percorreu seu corpo. Aquele homem… Aquele homem que a tocava como se tivesse direito… Era o mesmo que a traía. Que a enganava. Que a envenenava. Seus dedos se fecharam levemente sobre o lençol. Mas ela não chorou. Não dessa vez. As lágrimas já não eram mais suficientes. Com cuidado, Isabella pegou o celular sobre o criado-mudo. A tela iluminou suavemente o quarto escuro. Uma nova mensagem. Ela abriu. Seu coração bateu mais forte ao ler: "O processo de divórcio já está sendo iniciado. Em três dias, você poderá buscar a documentação." Isabella ficou em silêncio por alguns segundos. Absorvendo cada palavra. Três dias. Era só o que faltava. Ela bloqueou a tela lentamente. E voltou a encarar o teto. Dessa vez… Não havia dor em seu olhar. Apenas decisão. Ricardo Ferraz ainda achava que tinha controle sobre tudo. Mas ele não fazia ideia… De que sua esposa já estava prestes a desaparecer da vida dele para sempre.






