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Capítulo 3: Presentes e Cercas Invisíveis

Maya narrando

Hoje o dia começou estranho. Quando cheguei à cafeteria, havia um arranjo de orquídeas brancas tão grande em cima do balcão que quase não se via a máquina de café. Não havia cartão, mas eu não precisava de um para saber quem as enviou. O perfume era caro, opressor... era a cara dele.

— Ele não desiste, não é? — perguntou a Chloe, minha colega de trabalho, dando uma cotovelada amigável no meu braço enquanto ajeitava os fones no balcão. — Maya, o homem é um deus grego e está literalmente jogando dinheiro aos seus pés. O que você está esperando?

— Não estou esperando nada — respondi, pegando o arranjo pesado e colocando-o no chão, atrás do balcão. — Flores são bonitas, Chloe, mas não compram o meu tempo.

Eu me sentia inquieta. Arthur é como uma tempestade que você vê chegando ao longe: é hipnotizante, mas você sabe que deve procurar abrigo. Eu sinto uma atração por ele, um calor que sobe pelo meu pescoço toda vez que ele entra aqui, mas não é amor. É... uma curiosidade perigosa.

No fim do meu turno, a chuva caiu pesada sobre as ruas da cidade. Eu estava na calçada, tentando abrir meu guarda-chuva quebrado sob o temporal, quando o esportivo preto e imponente parou exatamente na minha frente. O vidro fumado baixou lentamente, revelando os olhos gélidos dele.

— Entre, Maya. Eu te levo em casa.

— Eu posso ir de ônibus, Arthur. É só uma chuva — eu disse, lutando com o arame do guarda-chuva que insistia em vergar.

Sem dizer uma palavra, ele desligou o motor e saiu do carro. Sem guarda-chuva, sem pressa, demonstrando uma elegância simples e natural, deixando a água molhar o seu terno caro enquanto caminhava firmemente até mim. Ele não parecia importar-se com o luxo material; o seu foco era apenas um. Com um movimento frio, ele tirou o objeto partido das minhas mãos e deitou-o na lixeira próxima.

— Você não vai de ônibus. Entre no carro. — A voz dele não era um pedido. Era uma ordem.

Eu respirei fundo, sentindo meu sangue ferver de indignação.

— Você não pode simplesmente jogar minhas coisas fora e decidir como eu vou para casa!

— Eu posso e eu fiz — ele deu um passo para mais perto, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele, uma mistura de chuva e perfume amadeirado, me embriagou por um segundo. — Por que você luta tanto contra o óbvio, Maya? Eu só quero cuidar de você.

— Eu sei cuidar de mim mesma . — retruquei, mas meus pés não se moviam.

Meus olhos encontraram os dele, e por um momento, a intensidade daquele azul me fez perder o fôlego.

Arthur narrando

Ela é tão teimosa que chega a ser adorável. Mas a teimosia dela também me consome. Ver Maya misturada na multidão daquela paragem, debaixo de uma tempestade, mexe com os meus instintos mais primitivos. A beleza dela — a pele retinta molhada pela chuva, o topo do seu cabelo crespo a reter pequenas gotas de água como se fossem diamantes — destaca-se tanto naquele cenário cinzento que me recuso a deixá-la ali. Ela não pertence àquela massa comum. Ela pertence ao meu mundo.

Não sou um homem que ostenta ou que precisa humilhar os outros para se sentir grande; a minha riqueza é apenas uma ferramenta de eficiência. Mas com ela, viro um ditador.

Dentro do meu esportivo, o silêncio é tenso. Ela está sentada o mais longe possível de mim, encostada à porta de couro, olhando fixamente para os relâmpagos lá fora. A proximidade do seu corpo faz o sangue pulsar com força no meu baixo ventre, uma rigidez pesada que o cinto de segurança mal consegue conter.

— Onde você mora? — perguntei com a voz rouca, embora eu já soubesse o endereço exato, o número do apartamento e até o valor do aluguel dela.

Ela olhou-me de lado, desconfiada, e deu-me o endereço de forma seca.

— Como você soube que meu turno acabava às seis hoje? Eu mudei o horário com a gerente.

Eu dei um meio sorriso, mantendo os meus olhos fixos na estrada molhada, conduzindo com precisão.

— Eu sei de tudo o que me interessa, Maya. E, no momento, você é a única coisa que me interessa no mundo.

Vi pelo canto do olho os seus dedos apertarem a alça da bolsa com força. Ela está assustada? Talvez um pouco. Mas há um brilho de desafio naqueles olhos castanhos que me diz que ela ainda aceita o jogo.

— Isso é assustador, Arthur. Não é romântico — ela disse, com a voz firme, tentando ditar uma barreira entre nós.

— O romance é para homens fracos, Maya. Eu sou um homem de resultados. E o meu resultado final é ter você.

Travei o esportivo em frente ao prédio simples onde ela mora. Eu não desprezo o lugar por ser humilde, mas odeio-o porque é inseguro para ela. Não há guardas, não há controlo. Eu já tinha em mente três coberturas exclusivas que combinariam muito mais com a realeza da sua presença.

— Boa noite, Arthur. E por favor, não jogue mais minhas coisas no lixo — ela disse, abrindo a porta e saindo antes que eu pudesse impedir.

Fiquei no carro, observando-a entrar e trancar a porta principal. Ela acha genuinamente que pode colocar limites e cercas entre nós. Mal sabe ela que o meu advogado fechou o contrato de compra deste edifício inteiro há duas horas. Logo, até o chão que ela pisa será meu. E ela não terá para onde fugir.

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