Mundo ficciónIniciar sesiónMaya narrando
— Mãe! — O grito de pura felicidade saiu da minha garganta antes mesmo que ela cruzasse totalmente a porta do apartamento. Eu a envolvi em um abraço apertado, aspirando aquele cheiro de casa, de amor e de segurança que só ela tem. Dona Julian era minha melhor amiga, meu porto seguro na Terra. Depois de dois meses viajando a trabalho, como comissário de bordo . O nosso pequeno apartamento finalmente parecia ter vida e calor de novo. — Minha menina, que saudade! — ela disse, afastando-me de leve com as suas mãos acolhedoras para beijar o meu rosto. — E veja só, não vim sozinha. Maya, este é o Jorge. Um homem alto, de traços maduros e um sorriso imensamente bondoso, estendeu a mão para mim com respeito. — É um prazer finalmente te conhecer, Maya. Sua mãe não parou de falar de você um segundo sequer durante a viagem. — O prazer é todo meu, Jorge! — respondi, com o coração genuinamente aquecido. Se ele fazia a minha mãe sorrir com aquela luz nos olhos, já tinha o meu voto de confiança. Nós estávamos na sala, rindo alto e planeando um jantar especial para comemorar o retorno e o novo relacionamento dela, quando a campainha tocou. Estranhei de imediato. Não esperava absolutamente ninguém àquela hora da noite. Abri a porta com o sorriso ainda nos lábios, mas ele murchou instantaneamente, transformando-se em puro choque. Lá estava ele. Arthur. Ele vestia um terno cinza-chumbo de corte impecável e discreto, segurando uma caixa de bombons artesanais numa das mãos e um buquê imenso de tulipas raras na outra. Sob a luz suave do corredor, a sua beleza nórdica era avassaladora, e os seus olhos azuis fixaram-se em mim com uma intensidade que fez o ar faltar nos meus pulmões. — Boa noite, Maya. Imaginei que uma noite chuvosa como esta pedia algo doce — ele disse, com aquela voz grave, aveludada, que sempre soava como um comando inevitável. Minha mãe e Jorge, curiosos com o silêncio, apareceram logo atrás de mim. — Filha? Quem é esse rapaz tão elegante? — mamãe perguntou, os olhos brilhando com aquela típica curiosidade materna. O pânico subiu pela minha espinha como uma descarga elétrica. Se eu dissesse quem ele realmente era — um homem obsessivo que me perseguia na cafeteria —, ela ia encher-me de perguntas e ficar assustada. Pior: Arthur usaria aquela aura de cavalheiro perfeito para desarmar a minha família. Eu não podia permitir que a escuridão dele tocasse as pessoas que eu mais amava. Olhei bem no fundo daqueles olhos gélidos, tentando transmitir todo o ódio e o aviso que eu guardava no peito. — Eu... eu não sei, mãe. Eu não conheço este senhor. Ele deve ter batido na porta errada. Arthur narrando As palavras de Maya ecoaram pelo corredor, frias, afiadas e calculadas para me manter do lado de fora. Senti um músculo no meu maxilar travar instantaneamente. Ninguém nunca me negou na vida, muito menos na minha cara. Ver aquela pequena e audaciosa mentira saindo daqueles lábios cheios que eu tanto desejava corromper acendeu um fogo de possessividade no meu peito que exigiu todo o meu autocontrole para mascarar. Ela queria jogar? Perfeito. Eu era o mestre dos jogos. — Oh, peço sinceras desculpas pelo equívoco — eu disse, suavizando a voz e esboçando um sorriso educado que, embora perfeitamente polido, não chegou aos meus olhos. — Este não é o apartamento da senhorita Maya, a moça de sorriso iluminado que trabalha na Páginas de Mel? — É sim! — a mãe dela interveio com entusiasmo, adiantando-se antes que Maya pudesse fechar a porta na minha cara. — Eu sou a mãe dela. Por favor, entre, meu jovem, não fique aí no corredor sob o frio. Maya respirou fundo, os seus dedos pequenos apertando o batente da porta numa frustração silenciosa que me deu um prazer quase carnal. Entrei no apartamento com passos firmes e calmos. Apesar de ser um lugar simples e infinitamente menor do que as coberturas a que estou habituado, não senti qualquer desconforto. Havia uma dignidade genuína ali, um calor humano que o dinheiro não compra. "Eu não conheço este senhor." Aproximei-me da mãe dela com uma reverência natural, entregando-lhe as flores. — Sou Arthur Valmont, senhora. Peço perdão pela minha indiscrição, a Maya deve ter-me confundido devido à luz baixa e sombria deste corredor. Nós nos conhecemos da cafeteria. Sou um... profundo admirador do trabalho e da presença dela. — Que rapaz gentil e educado! — Jorge comentou, aproximando-se com os olhos francos. Estendi-lhe a mão, retribuindo o aperto firme. Senti simpatia instantânea por aquele homem; tinha um olhar honesto. — Sou o Jorge. Seja bem-vindo, Arthur. — O prazer é meu, Jorge. Parabéns pelo retorno da viagem — respondi com sinceridade. Sentei-me no sofá da sala. Era simples, estofado com um tecido comum, mas acomodou-me perfeitamente. Senti-me estranhamente bem naquele espaço, porque era o território dela. Tinha o cheiro de baunilha dela misturado com o calor daquela família que a protegia. Enquanto a Dona Juraci ia até à cozinha procurar vasos para as tulipas, Maya permaneceu de pé no canto da sala. Os braços estavam cruzados logo abaixo dos seios, o seu cabelo crespo parecia uma coroa armada de indignação e os seus olhos castanhos faiscavam uma fúria belíssima na minha direção. Eu a encarei de volta com lentidão, saboreando cada segundo daquela vitória silenciosa. O meu sangue corria quente nas veias, e a rigidez no meu baixo ventre respondeu imediatamente à visão daquela mulher tão altiva e irritada. Ela podia resistir o quanto quisesse, podia erguer os muros que bem entendesse e fingir que eu era um estranho. Mas agora, o jogo tinha mudado. Eu sabia onde ela descansava a cabeça à noite, eu conhecia os rostos das pessoas que ela protegia e, acima de tudo, eu tinha conquistado a simpatia daqueles que ela amava. Eu já não era apenas o cliente obstinado da cafeteria. Eu era uma força inevitável na vida dela. Uma sombra bela e permanente que ela jamais conseguiria expulsar. — Então, Arthur — a mãe dela regressou à sala, com um sorriso acolhedor no rosto. — Aceita uma xícara de café fresco? — Eu adoraria, senhora — respondi, mantendo o meu olhar fixo e predatório nos lábios de Maya, vendo-a morder o canto da boca com puro nervosismo. — Eu nasci para apreciar as coisas doces da vida.






