Capítulo 3
Por um instante, Daniel ficou sem reação. Em seguida, franziu a testa.

Não pegou o teste de gravidez nem demonstrou a alegria ou o espanto que eu tinha imaginado...

Só me encarou com uma expressão que eu não conseguia decifrar.

— Você é capaz de inventar uma coisa dessas só para conseguir aquela certidão? Até fingir uma gravidez para me pressionar?

Ele se exaltava cada vez mais, sem me dar a menor chance de me explicar.

— Minha mãe tinha razão. Gente como você só se importa com status e dinheiro.

Ele nem olhou direito para o teste antes de empurrar minha mão para o lado com um gesto brusco.

O teste de gravidez caiu no chão, e senti meu coração se despedaçar.

Me abaixei para pegar o teste, lutando para segurar as lágrimas.

Funguei, mordi o lábio e encarei Daniel.

— Você nunca acreditou em mim. Na sua cabeça, eu só estou com você por dinheiro e status. Por isso, mesmo tendo esposa e filho, você acha que não fez nada de errado depois de me enganar durante cinco anos, Para você, é só uma certidão. Para mim, são duas vidas em jogo. O que há de errado em lutar com todas as minhas forças por tudo o que vivemos nesses cinco anos e pelo meu bebê? Você não devia me tratar assim.

Eu não queria chorar, mas as lágrimas escorriam pelo meu rosto e entravam na minha boca.

Eram tão amargas que eu mal conseguia falar.

Apertei o teste de gravidez na mão e encarei Daniel sem desviar o olhar.

A luz do quarto continuava a mesma.

À minha frente, estava aquele rosto que eu conhecia tão bem.

Mas a ternura de antes tinha sumido. Restava apenas impaciência.

Ele voltou a falar num tom de acusação:

— Do que você está falando? Que duas vidas? Eu entendo que você esteja com raiva, mas eu te dei uma escolha. Foi você quem concordou em manter a cerimônia como planejado. Então por que está fazendo esse escândalo agora? E ainda tenta me enganar com um teste de gravidez falso... Qual vai ser o próximo passo? Me mostrar um laudo falso dizendo que está grávida também?

Ao olhar ao redor, ele viu o laudo sobre a penteadeira.

Ele passou direto por mim, pegou o laudo e, sem nem ler, rasgou o papel em pedacinhos.

Os pedaços foram caindo no chão.

Contendo a raiva, ele se limitou a dizer:

— Aproveita esses dois dias para esfriar a cabeça.

Saiu batendo a porta, e o som dos passos foi ficando cada vez mais distante.

Fiquei imóvel, com o teste de gravidez ainda apertado na mão.

Do outro lado da janela, tudo estava iluminado.

No quarto, o laudo da minha gravidez estava em pedaços, espalhado pelo chão.

Me agachei, recolhi os pedaços um a um e tentei encaixar tudo de novo.

Mas ele tinha rasgado o papel em pedaços tão pequenos que, por mais que eu tentasse, não conseguia recompor o laudo.

Era como a minha relação com Daniel.

Por mais que ele fingisse, nada apagaria o fato de que ele era falso, infiel e tinha me enganado.

O mesmo valia para mim e para o bebê.

Por mais que eu me esforçasse, não conseguiria mudar o fato de que Daniel não queria aquele bebê, nem evitar o que estava prestes a acontecer.

Nós dois íamos morrer.

O celular não parava de tocar, quebrando o silêncio assustador do quarto.

Daniel mandou várias mensagens seguidas:

[Desculpa, Beatriz. Eu estava com muita raiva e peguei pesado no que falei.]

[Mas não quero ouvir esse tipo de coisa de novo. Você não precisa se preocupar com nada, só esperar pelo casamento.]

[O vestido de noiva e as alianças já estão prontos. Os convites foram enviados, e muitos jornalistas também foram convidados. Depois de amanhã, vou fazer de você a noiva mais feliz da cidade.]

Ao mesmo tempo, recebi mais de dez mensagens de um número desconhecido.

[Beatriz, você dá pena.]

[Daniel já dormiu comigo. E tem mais: eu já usei até o seu vestido de noiva e a sua aliança. Sabe que dia é depois de amanhã? É o aniversário do meu filho, Paulo.]

[Ele marcou a sua cerimônia de casamento justamente para o aniversário do meu filho. Daniel foi mesmo muito “atencioso” com você.]

Fiquei encarando aquelas mensagens por mais de dez minutos.

Achei que fosse chorar, que aquilo fosse doer.

Mas, no fim, eu já não sentia nada.

Daniel, já que você foi tão “atencioso” comigo, nada mais justo do que eu retribuir à altura.

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